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Entrevista
A importância da prevenção das hepatites víricas
Por: Rui Tato Marinho, vice-presidente da SPG
A importância da prevenção das hepatites víricas

Por ocasião do Dia Mundial das Hepatite Víricas, que se assinala hoje, 28 de julho, a Vital Health entrevistou o médico e vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia, Rui Tato Marinho, com o objetivo de esclarecer e alertar para a prevenção destas doenças potencialmente graves, algumas crónicas, e nalguns casos mortais.

 

Vital Health (VH) | Com a aproximação do Dia Mundial das Hepatites Víricas, que se celebra a 28 de julho, qual a importância de alertar para estas doenças?
Rui Tato Marinho (RTM) | São doenças potencialmente graves, algumas crónicas (que podem permanecer para toda a vida) e nalguns casos mortais. Mas podem-se prevenir, controlar e curar. A Medicina e os médicos têm hoje em dia uma grande capacidade de diagnóstico e tratamento das hepatites.

VH | As hepatites víricas são um importante problema de Saúde Pública. Qual a sua dimensão em Portugal?
RTM | Não há dados oficiais e muito concretos, aliás poucos países do mundo os têm. As hepatites A, D, ou E têm uma expressão muito reduzida e pontual, não constituem um problema.
As mais importantes são a hepatite B e a C, já que existem muitos casos crónicos. Estimamos que possam existir aproximadamente 150.000 portadores dos dois vírus. Mas é apenas uma estimativa. Em termos de saúde pública podemos dizer que a mais relevante será a hepatite C que é praticamente epidémica, já há várias décadas em quem consumiu ou consome drogas injetáveis. Segundo os dados do SICAD, 60-88% dos consumidores estão infetados. Como é uma doença crónica e progressiva, cerca de um terço dos infetados com hepatite C já tem cirrose hepática. Destes com cirrose 10-40% ao fim de dez anos vão ter cancro do fígado, se não se intervir na eliminação do vírus.

VH | Que tipos de hepatites víricas existem?
RTM | Existem cinco tipos de hepatites víricas, A, B, C, D, E.
A hepatite A nunca fica crónica.

VH | Como podem ser transmitidas?
RTM | As mais importantes são a B e a C. A hepatite B por via sexual ou de mãe para filho na altura do parto se a mão for portadora do vírus e a criança não for logo vacinada. A hepatite C por transfusões antes de 1992, por partilha do material usado na preparação e consumo de drogas injetáveis ou de cocaína inalada. A hepatite C também se transmite, mas em menor grau, por via sexual. De qualquer modo, qualquer material potencialmente cortante ou perfurante (tatuagens, barbeiros, manicuras, etc) se não for de uso individual ou se não estiver adequadamente esterilizada, pode ser veículo de transmissão de qualquer um dos dois vírus

VH | As hepatites víricas podem ser agudas ou crónicas. Qual a diferença entre ambas?
RTM | Nas crónicas o vírus persiste no organismo por mais de 6 meses, por vezes para toda a vida, por largas décadas. Na grande maioria dos casos sem qualquer tipo de sintomas. São doenças muito silenciosas, durante muitos anos. São muito traiçoeiras

VH | Portugal é o 10.º país do mundo com maior consumo de álcool. Em que medida é que a ingestão excessiva deste tipo de bebida pode levar à inflamação do fígado?
RTM | O consumo excessivo de bebidas alcoólicas pode provocar múltiplos tipos de lesões no fígado: acumulação de gordura (esteatose), uma situação chamada hepatite alcoólica (muito grave e quase sempre mortal) associada a consumos muito elevados em quem já bebe em excesso há muitos anos; também pode provocar cirrose o que equivale a um estado de destruição das células do fígado e aparecimento de fibrose (tecido semelhante às cicatrizes). O fígado fica cheio de nódulos (caroços), atrofiado, muito duro e dificulta a circulação de sangue no abdómen e no esófago. Ao fim de alguns anos de consumo excessivo, depois de aparecer a cirrose, pode surgir o cancro do fígado. É um dos cancros mais mortais, apenas 5% dos doentes vão estar vivos ao fim de cinco anos. Podemos dizer de forma bem clara e evidente que o consumo excessivo de álcool provoca cancro.

VH | Por que razão as hepatites B e C merecem especial cuidado?
RTM | Porque são doenças infecto-contagiosas, a nível sexual, de Mãe para filho. São crónicas, silenciosas podendo evoluir para cirrose e cancro do fígado. Esta evolução pode estender-se por décadas sem o próprio o saber.

VH | A cirrose hepática é uma das consequências das hepatites B e C. Em que consiste esta patologia?
RTM | Como já foi explicado atrás, por exemplo, em Portugal, um terço dos infetados pelo vírus da hepatite C já tem cirrose.

VH | Quais as suas fases?
RTM | Fundamentalmente duas fases. A fase dita compensada, que se pode estender por 20 anos e a fase descompensada em que surgem as complicações. Estas são: ascite (acumulação de líquido do abdómen, que pode chegar aos 15-20 litros, o doente parece grávido), encefalopatia (alterações mentais que podem chegar à agressividade, perda de controlo e coma), icterícia (olhos amarelos), emagrecimento muito acentuado, peritonites com infeção espontânea do líquido da ascite), vómitos com sangue devido á rotura das varizes (veias grandes e dilatadas) do esófago e por fim o cancro do fígado, também chamado hepatoma ou carcinoma hepatocelular. Esta fase surge de um modo geral antes dos 60 anos e a esperança média de vida são dois anos.

VH | Como evitar a cirrose e as suas complicações?
RTM | Evitar consumo excessivo de álcool, fazer sexo seguro, evitar obesidade e diabetes, vacinar-se contra a hepatite B e evitar situações que constituam risco para adquirir hepatite C. nomeadamente na partilha de material cortante e perfurante. Quanto à hepatite B crónica, nos casos mais avançados é possível controlar o crescimento do vírus com dois tipos de medicamentos dados por via oral, quase sem efeitos secundários. O problema é que se tem que tomar para toda a vida. No caso da hepatite C crónica com ou sem cirrose o principal é eliminar o vírus de forma definitiva, o que já é possível com os novos medicamentos em cerca de 95% dos casos.

VH | Por que razão é importante incluir os testes ALT nas análises de rotina?
RTM | Permite despistar consumo excessivo de álcool, hepatite C, esteatose (gordura no fígado). A ALT elevada está associada a um risco de morte mais elevado, incluindo por doença cardíaca. A sua elevação leva a que o médico possa detetar doenças mais cedo e aconselhar estilos de vida mais saudáveis como seja reduzir peso, controlar colesterol, diabetes, consumir menos quantidade de álcool, beber café, fazer exercício físico, etc

VH | Que ações vai a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) realizar no âmbito deste Dia Mundial? E em que consistem as suas estratégias de divulgação e prevenção deste problema de saúde pública?
RTM | Vamos estar nos canais habituais de comunicação, televisão, imprensa escrita, facebook, etc. Temos insistido com mensagens simples e curtas que a generalidade da população entenda. Visitem o nosso site (http://www.spg.pt/publico/infografias/), temos infografias atuais sobre hepatite C, cancro digestivo, cirrose e cancro do fígado em Portugal.
O objetivo é sempre prevenir as doenças, identificá-las na fase ainda sem sintomas e tratar quando indicado. A doença do fígado, no seu conjunto é a sétima causa de morte na Europa.

VH | Há mais algum assunto que gostaria de destacar?
RTM | Cinco letras para um fígado saudável:
A - Evitar álcool em excesso, fazer ALT
B - Vacina da hepatite B
C - Detetar e tratar a hepatite C
D - Evitar e tratar diabetes
E - Emagrecer, exercício físico (pelo menos andar rápido durante 20 minutos, três vezes por semana)

Rui Tato Marinho, vice-presidente da SPG

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