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Entrevista
O papel do farmacêutico na comunidade
Por: Henrique Mateus Santos, farmacêutico comunitário
O papel do farmacêutico na comunidade

Segundo um estudo da Associação Nacional de Farmácias divulgado há alguns meses, as farmácias continuam a ser o local preferido pelos portugueses para resolver problemas menores de saúde devido, sobretudo, ao grau de satisfação com o serviço prestado pelos farmacêuticos. Em entrevista à Vital Health, o farmacêutico comunitário Henrique Mateus Santos explica qual o papel do farmacêutico na comunidade e como este lida com determinados assuntos do foro íntimo, nomeadamente com o aconselhamento sexual das mulheres.

 

Vital Health (VH) |Segundo um estudo da Associação Nacional de Farmácias divulgado há alguns meses, as farmácias continuam a ser o local preferido dos portugueses para resolver problemas menores de saúde. Nesta perspetiva, qual o papel do farmacêutico na comunidade?
Henrique Mateus Santos (HMS) |Efetivamente o estudo realizado pela Universidade Católica em colaboração com a Associação Nacional das Farmácias coloca a farmácia como o primeiro local de escolha “quando temos um problema de saúde menor”. Nesse mesmo estudo é reconhecida pela maioria dos inquiridos a competência dos profissionais. Se associarmos os resultados referidos a um estudo realizado pela Ordem dos Farmacêuticos alguns anos atrás, o qual colocava a farmácia como o estabelecimento de saúde mais frequentado pelos portugueses, podemos concluir que a farmácia é uma estrutura central no sistema de saúde português. Este grau de importância não é por acaso. Efetivamente os serviços que são prestados são fundamentais para que o doente alcance os resultados em saúde pretendidos. É na farmácia que os medicamentos prescritos por profissionais de saúde são dispensados em condições de qualidade e segurança. Incluímos aqui, não só os medicamentos industrializados, mas também os medicamentos manipulados, isto é, produzidos para um doente concreto. É também na farmácia que os doentes adquirem os medicamentos quando se automedicam e é também na farmácia que os doentes se “queixam” de problemas de saúde que, sendo considerados menores, são passíveis de serem tratados pelo farmacêutico. Só por si estes serviços dariam um grau de importância à farmácia, mas, podemos adicionar muitos outros que contribuindo para o uso racional dos medicamentos, melhoram a qualidade de vida dos doentes. Como exemplo, podemos referir a revisão da medicação, a monitorização da terapêutica, o seguimento farmacoterapêutico, entre outros. A todos estes serviços está demonstrada a capacidade que as farmácias têm para implementar campanhas de saúde pública, que se devem à sua grande acessibilidade, à boa distribuição geográfica e a um ambiente muito profissional que as farmácias apresentam.

 

VH |É também no domínio da Saúde sexual e reprodutiva que os farmacêuticos comunitários colocam ao serviço do cidadão as suas competências, sendo este tema delicado e por vezes constrangedor para algumas mulheres. Neste caso o farmacêutico tem de abordar o problema de modo diferente?
HMS |Quando uma jovem ou uma mulher de qualquer idade tem um problema do foro sexual dirige-se onde? É evidente que não é uma a urgência hospitalar nem a um centro de planeamento familiar num centro de saúde. Todos esses locais são de difícil acesso por parte dos doentes por vários motivos. É o farmacêutico que explica à mulher que se esqueceu de tomar a pílula naquele dia, é o farmacêutico que explica a uma jovem que inicia a sua pílula o modo de a tomar, é o farmacêutico que lembra para os riscos de uma relação não protegida e é também o farmacêutico que, quando tudo falha ao ponto de haver risco de gravidez, dispensa a pílula do dia seguinte e mantém com essa mulher uma relação de proximidade. As farmácias renovaram-se ao longo dos anos e hoje praticamente todas têm um local reservado para uma conversa confidencial. Através de um trabalho sério e profissional os farmacêuticos desenvolveram competências em temas que sendo do foro íntimo, necessitam de uma abordagem também muito própria. Sem dúvida que tanto a jovem de 15 anos como a mulher de 50 anos se sente bem ao consultar o seu farmacêutico quando necessita de um esclarecimento ou de uma indicação na área sexual.
 
VH |Um estudo realizado pela IMS Health para a companhia HRA Pharma concluiu que 98% das mulheres que necessitam da pílula do dia seguinte após uma relação sexual não protegida confia no conselho do farmacêutico para decidir qual a contraceção de emergência mais adequada para si. Qual o modo de atuação do farmacêutico nesta situação?
HMS |Quando um profissional de saúde com competências legais para prescrever medicamentos o faz, não o faz ao acaso. A seleção (ou prescrição) da pílula do dia seguinte é realizada na sequência da avaliação da situação clínica da doente. É essa avaliação (a que podemos também de designar de diagnóstico) que gera a seleção do medicamento. Há que avaliar um conjunto de situações antes de haver a seleção. O farmacêutico procurará selecionar o medicamento mais efetivo e seguro para a mulher. O farmacêutico procurará avaliar as contraindicações que cada um dos medicamentos possa apresentar e avaliar o risco de gravidez. Por exemplo, o uso do levonorgestrel apresenta um risco duas a três vezes maior da mulher engravidar que o acetato de ulipristal. Importa saber, por exemplo, quando ocorreram as relações sexuais, se a mulher está a amamentar, qual o método de contraceção que usa ou se não usa, entre muitas outras informações que influenciarão na decisão da seleção da pílula do dia seguinte. A mulher confia no farmacêutico para selecionar o medicamento mais adequado para o seu caso concreto.

 

VH |Como nenhum método de contraceção é 100% eficaz, a hipótese de uma gravidez não desejada faz com que as mulheres contem com a pílula do dia seguinte como uma segunda oportunidade, que podem adquirir de forma simples na farmácia. Quais as diferenças entre os métodos contracetivos regulares e de emergência?
HMS |Quando falamos em contraceção de emergência estamos a falar em contraceção hormonal de emergência. Esta pode ser adquirida na farmácia, aliás no mesmo local onde já se adquire a pílula de contraceção regular. A pílula hoje reconhecida como a mais efetiva e segura (acetato de ulipristal) apenas pode ser adquirida na farmácia sob um modelo de dispensa protocolada que obriga a que o profissional proceda a uma entrevista planeada que pretende obter as informações necessárias ao uso correto do medicamento. Esta pílula destina-se apenas a ser utilizada quando falha a contraceção regular ou quando esta não é utilizada. A contraceção hormonal de emergência atua atrasando a ovulação e não tem outro qualquer papel que evitar que um espermatozóide encontre um ovócito passível de ser fecundado e apenas atua se não tiver havido ovulação. Daí a regra que a pílula do dia seguinte deve ser tomada o mais rapidamente possível após a relação sexual. Existem pílulas, de última geração, como é o caso do acetato de ulipristal, que sendo mais efetivo mesmo nas primeiras 24 horas, mantém o mesmo grau de efetividade até 120 horas após o ato sexual, demonstrando um grande avanço em relação às pílulas utilizadas tradicionalmente, como é o caso do levonorgestrel que começa a perder a sua eficácia logo após a primeiras 12 horas.

 

VH |Este facilitismo leva as mulheres a substituir o método contracetivo regular pelo método contracetivo de emergência?
HMS |De modo nenhum. Todos os estudos referem que as mulheres que procuram a contraceção de emergência são quem mais facilmente procuram, posteriormente, um método de contraceção regular. A contraceção de emergência é um método para ser utilizado em situações em que todos os métodos de contraceção falharam ou não houve mesmo, qualquer tipo de contraceção. As mulheres sabem que a pílula deve ser apenas utilizada nestas situações. A pílula do dia seguinte não é preventiva, isto é, não deve ser tomada antes das relações sexuais ocorrerem.

 

VH |O método contracetivo de emergência é muitas vezes associado a um mau indicador de saúde. Quais os riscos inerentes a esta medicação?
HMS |Um mau indicador de saúde é o número de abortos associados a uma gravidez não desejada. Embora em Portugal haja uma redução do número de interrupções da gravidez nos últimos anos, com referência a 2015 registaram-se quase 16 mil abortos a pedido da mulher. Parece haver uma subutilização da pílula do dia seguinte que necessita de estudos que suportem campanhas de saúde pública que desmistifiquem alguns mitos injustificados quanto à utilização da pílula do dia seguinte. Faltará em Portugal um programa efetivo de prevenção das gravidezes não desejadas que esclareça as mulheres e a população em geral da elevada segurança que o uso da contraceção hormonal de emergência apresenta se for utilizada sob a orientação de um profissional de saúde como é o farmacêutico.

 

VH |É também um facto, avançado pela Associação Nacional de Farmácias, que um quinto das farmácias nacionais encontra-se em risco de insolvência e atravessa problemas financeiros graves, sendo que nos últimos cinco anos se perdeu cerca de 30% da remuneração das farmácias em Portugal, colocando em causa a sobrevivência da rede atual. Esta insustentabilidade que o setor está a enfrentar pode afetar a saúde pública?
HMS |O que se está a fazer à rede de farmácias é inacreditável. Ainda há dois dias vinha em um dos jornais diários a notícia baseada num estudo da Universidade de Aveiro que em 2014 e 2015 70% das farmácias tiveram prejuízo. A rede de farmácias está em agonia. O acesso aos medicamentos e ao seu correto uso é um direito constitucional de todos os portugueses. As farmácias são a porta de entrada no sistema de saúde em muitas situações. Aliviam o esforço do sistema público e privado de saúde e é nesse enquadramento que devem ser redirecionadas. Uma rede de farmácias sustentável é um pressuposto de qualidade do sistema de saúde português. Acreditamos que estão a ser desenvolvidos esforços para inverter o processo de destruição da rede iniciado há 10 anos atrás.

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