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Entrevista
Perda gestacional: “silenciar uma dor tão nossa não é o caminho para se fazer o luto”
Por: Sandra Cunha, presidente da direção Associação Projecto Artémis
Perda gestacional: “silenciar uma dor tão nossa não é o caminho para se fazer o luto”
Estima-se que cerca de 10% das gravidezes clinicamente identificadas terminem em perda gestacional, a grande maioria no primeiro trimestre. Em Portugal, este é ainda um tema tabu e uma situação desvalorizada por grande parte da sociedade. Com o objetivo de chamar a atenção para a problemática da perda gestacional no nosso país e para o "desrespeito por pais que perderam os filhos", a Associação Projecto Artémis (A-PA), que dá apoio a pais e mães que passam por uma perda gestacional, apresentou este ano ao Parlamento uma petição para a criação do Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional. Em entrevista ao Vital Health, Sandra Cunha, presidente e psicóloga da A-PA, quebra o tabu em torno do tema da perda gestacional e fala-nos da dor dos pais que passam por este sofrimento.

 

Vital Health (VH) | O que é e com que objetivo foi criada a Associação Projecto Artémis?

 

Sandra Cunha (SC) | O Projecto Artémis é uma associação sem fins lucrativos, concebida e dada à luz em 5 de dezembro de 2005, e à qual foi conferida o Estatuto de Pessoa Coletiva de utilidade Pública. A A-PA tem por objetivo promover a prestação de cuidados de saúde materna, de âmbito físico e psicológico, nomeadamente por meio de aconselhamento e apoio clínico e psíquico, a mulheres vítimas de situações clínicas de aborto e/ou morte fetal e respetivos companheiros, bem como promover e fomentar a reabilitação e recuperação física e psicológica dessas mulheres e respectivos companheiros ou agregados familiares.

 

VH | Que repercussões a perda gestacional tem na vida da mulher e, também, na vida do casal?

 

SC | A mulher, após uma perda gestacional, vivencia uma miscelânea de sentimentos, que passam de imediato a negação do que está a acontecer, e depois culpa, tristeza, frustração, sentindo-se muitas vezes diminuída como mulher e mãe. Culpabiliza-se também por ter perdido aquele bebé, já que se sente como a figura de proteção, e que não conseguiu desempenhar essa função durante a gravidez. Sofre em silêncio, já que os outros muitas vezes não lhe permitem vivenciar o seu luto na sua plenitude e isola-se. Estes sentimentos vivenciados pela mulher levam, muitas vezes, ao afastamento do casal, principalmente se não existir uma comunicação aberta entre eles, já que os homens vivenciam a perda de uma forma diferente. A mulher tem uma necessidade imensa de falar sobre aquele bebé, enquanto os homens se remetem ao silêncio visto que por vezes consideram que falar sobre isso lhes causa uma maior dor e sofrimento.

 

VH | Que apoios podem ou devem as pessoas procurar para superar esta situação?

 

SC | Apesar de não existir, nas nossas instituições hospitalares, um apoio psicológico imediato e eficaz, os casais, quando percebem que não estão a vivenciar o seu luto de forma estruturada, deverão procurar ajuda psicológica.

 

VH | Segundo a experiência que tem tido junto de tantas mulheres, como é que são os momentos de vivência de uma nova gravidez, após uma perda gestacional? Um novo filho pode superar a dor da perda gestacional?

 

SC | Uma nova gravidez é muitas vezes vivenciada com um medo enorme, os níveis de ansiedade são elevados, sobretudo quando se aproxima o tempo de gestação no qual se perdeu o bebé anterior. Uma nova gravidez nunca poderá ser uma forma de superar a perda anterior. Contudo isto verifica-se muitas vezes, o que leva posteriormente a depressões pós parto, associadas ao facto de perceberem, após o nascimento, que aquele luto não foi superado com a chegada de um novo bebé. Pode amenizar a dor, mas nunca será uma forma de a eliminar.

 

VH | As mulheres e famílias que buscam apoio na Associação, fazem-no com que objetivo?

 

SC | O principal objetivo é poderem falar abertamente sobra a sua perda, sobre aquele filho que partiu antes de nascer. Na associação, e utilizando uma expressão muitas vezes proferida pelas próprias, “aqui fala-se a mesma linguagem”. Não há cobranças sobre o tempo para fazer o luto, não há juízos de valor, não há uma cobrança para se silenciar. Há companheirismo, há partilha de vivências e sentimentos, e há, acima de tudo, compreensão e respeito por aquele bebé.

 

VH | A perda gestacional ainda é vista como um tabu?

 

SC | Sem dúvida. Como tabu e com uma incompreensão e falta de respeito enorme.

 

VH | O protocolo hospitalar dita que só após a perda de três gestações, a gestante pode ser encaminhada para um estudo genético, a fim de perceber as causas que levam à perda gestacional. Qual a posição da Artémis sobre esta matéria?

 

SC | Um dos objetivos do Projecto Artémis é alterar este protocolo. Em muitos casos, se após uma primeira perda se fizesse uma avaliação genética, muitas perdas poderiam ser evitadas. É fundamental haver uma análise aos casais para se evitar as perdas de repetição.

 

VH | No seguimento de uma reunião com deputados, em maio de 2016, a Artémis elaborou um memorando de recomendações, no qual a discriminação de que estes pais se dizem alvo por parte do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é uma questão central. De que tipo de discriminação estamos a falar?

 

SC | Estes casais são muitas vezes confrontados com uma falta de sensibilidade por parte dos técnicos que os acompanham. Para além disso, estas mães são em muitas instituições hospitalares colocadas na mesma sala que parturientes, que bebés recém-nascidos. Isso causa uma dor imensa a estas mães. Por vezes, a mãe fica sozinha, não deixam que o pai esteja ao lado, o que seria fundamental durante todo este processo. Muitas vezes estes casais deparam-se com comentários tais como: “você não tinha aí nada, era só um embrião”. Mais do que falta de sensibilidade, trata-se de desumanização dos serviços. É fundamental que os técnicos sejam mais humanos. Não pretendemos que sofram com estes pais, não é o que se pede, mas que os respeitem e que respeitem que independentemente do tempo de gestação, para estes pais é o seu filho.

 

VH | Um dos objetivos da Artémis é a criação do Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional, a ser comemorado a 15 de outubro. Qual o intuito da criação deste dia?

 

SC | A perda gestacional é vista na nossa sociedade como um tabu, é um tema do qual não se fala, e que muitas vezes a realidade das sequelas psicológicas e a dor pela qual estes casais passam não é conhecida da população em geral. Na maioria dos casos estes pais sofrem em silêncio. Um silêncio aterrador que se inicia no momento em que recebem a notícia da perda do seu bebé e permanece pelo silêncio a que a sociedade os obriga. Por isso, os objetivos da criação do Dia Nacional para a Sensibilização da Perda Gestacional são chamar a atenção para a problemática da perda gestacional no nosso país, conseguirmos que seja oficialmente reconhecida por todos como um problema real, honrar e celebrar a luta árdua que milhares de portuguesas enfrentam para dar à luz o seu filho, quebrar o tabu envolto na ignorância/ desconhecimento de um problema diário e dignificar o sofrimento e dar-lhe voz.

 

VH | Que conselho deixaria às famílias que acabaram de vivenciar a perda gestacional?

 

SC | Não se submetam ao silêncio que tanto vos “obrigam”. Procurem ajuda, falem sobre o vosso filho/a sempre que assim o entendam. Silenciar uma dor tão nossa não é o caminho para se fazer o luto.

 

VH | Há mais algum assunto que gostaria de destacar?

 

SC | A mudança de mentalidades é, neste momento, fundamental para se quebrar o silêncio em torno da perda gestacional. O primeiro passo é percebermos que foi um filho que estes pais perderam. Coisas tão simples como “perderam um filho” em vez de “a gravidez não correu bem”, “perderam um bebé” em vez de “perderam uma gestação”. São apenas vocábulos que podem fazer toda a diferença.

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