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Entrevista
Doença respiratória: a terceira principal causa de morte no mundo
Por: António Carvalheira Santos, chefe de serviço de Pneumologia do Hospital Pulido Valente
Doença respiratória: a terceira principal causa de morte no mundo
As doenças do aparelho respiratório representam, no seu conjunto, a terceira principal causa de morte no mundo. Em Portugal, são responsáveis por cerca de 19% dos óbitos e a principal causa de internamento. As doenças respiratórias crónicas, de que é exemplo a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), afetam a qualidade de vida e impõem grande sofrimento aos doentes, sendo causa de incapacidade e de perda da autonomia nas atividades do dia-a-dia. Em entrevista ao Vital Health, António Carvalheira Santos, chefe de serviço de Pneumologia do Hospital Pulido Valente, comenta a realidade da doença respiratória em Portugal.

 

Vital Health (VH) |Como se define um doente respiratório crónico?

 

António Carvalheira Santos (ACS) | As doenças crónicas são doenças que, apesar de tratáveis, permanecem, independentemente da gravidade implicar mais ou menos manifestações. As doenças com manifestações respiratórias crónicas definem a existência desse doente respiratório crónico.

 

VH | Quais as doenças respiratórias crónicas mais frequentes?

 

ACS | A doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), a asma brônquica, as fibroses pulmonares e as bronquiectasias são as mais conhecidas doenças respiratórias crónicas. No entanto, há outras que são também relevantes, como a fibrose quística, a hipertensão pulmonar de várias causas, a síndrome de apneia obstrutiva do sono, as doenças neuromusculares e as doenças deformativas da parede torácica, que conduzem a insuficiência respiratória e implicam muitas vezes a necessidade de utilização de oxigénio e mesmo de ventilação mecânica, para que os doentes tenham uma boa qualidade de vida.

 

VH | No inverno,  devido ao tempo mais frio e húmido, aumenta a probabilidade de agravamento da doença respiratória crónica, em particular da doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC), mas também da asma, das bronquiectasias, da fibrose quística e da fibrose pulmonar. Que cuidados se devem ter nesta altura do ano para evitar o agravamento das doenças respiratórias?

 

ACS | O frio é um irritante brônquico e por isso facilitador do agravamento das doenças respiratórias crónicas. A correta manutenção da terapêutica brônquica prescrita e a vacinação da gripe e das pneumonias devem ser encaradas como primordiais. A limpeza das vias aéreas é outro cuidado a ter, de forma a não facilitar as infeções respiratórias.

 

VH | A pneumonia é a principal causa de mortalidade respiratória, estimando-se que a cada hora e meia uma pessoa morra nos hospitais portugueses com esta doença. Quais os principais sintomas da pneumonia? Como prevenir esta doença?

 

ACS | Em Portugal, os dados de incidência e prevalência de pneumonias são bastante preocupantes, sendo que existem mais de 150 mil casos por ano e são causa de 40 mil internamentos e mais de 400 mil dias de internamento. A mortalidade por pneumonia na União Europeia é de 13,3 óbitos por 100 mil habitantes, sendo que em Portugal os valores são o dobro: 26,6 óbitos por 100 mil habitantes, o que traduz bem a gravidade do problema no país. Não tem havido progressos no controle da situação. Em 10 anos os óbitos aumentaram 16,7% e os internamentos 14,1%.
A pneumonia é mais frequente nos grupos etários mais elevados. Em 2013, 77,9% dos internamentos por pneumonia ocorreu em pessoas com mais de 65 anos.
Muitos dos óbitos hospitalares por pneumonia ocorrem nas primeiras horas ou dias após a chegada ao hospital. Este facto sugere atrasos no diagnóstico e na referenciação.
A mortalidade por pneumonia é maior nos meses de fevereiro e março, relacionável com as epidemias de gripe e os dias mais frios. No entanto, as taxas de mortalidade por pneumonia são mais elevadas nos meses de agosto e setembro, o que é explicado por um também atraso no acesso à terapêutica dirigida. As duas principais medidas a ter em conta são a vacinação das pneumonias e o início precoce no tratamento.
De notar que os idosos muitas vezes apresentam sintomas gerais como alteração do comportamento, letargia e sonolência, o que não leva a pensar nesta doença. Neste grupo etário, muitas vezes, as queixas respiratórias podem ser escassas e podem não apresentar febre.

 

VH | É muito importante que os doentes respiratórios crónicos sejam acompanhados pelo seu médico e que frequentem um programa de reabilitação respiratória. No que consistem estes programas?

 

ACS | A reabilitação respiratória deve fazer parte integrante da terapêutica dos doentes respiratórios crónicos sintomáticos. A reabilitação respiratória é uma componente fundamental no tratamento do doente respiratório crónico. Tem sido alvo de particular atenção pelos investigadores nos últimos 10 anos e é actualmente apontada como uma intervenção de 1.ª linha no tratamento da DPOC estável, bem como em outras doenças respiratórias crónicas, propiciando uma diminuição dos sintomas, melhoria na funcionalidade, capacidade de exercício, maior qualidade de vida e mais autonomia da gestão da doença. Um programa de reabilitação respiratória tem como objetivos proporcionar a diminuição das incapacidades físicas e psicológicas causadas pela doença respiratória, através da melhoria da aptidão física e mental e alteração de comportamentos de agravamento, promovendo a reintegração social e capacitando o doente para a gestão integrada da sua doença. Os principais benefícios da reabilitação respiratória são a redução dos sintomas respiratórios de fadiga e dispneia, a reversão da ansiedade e depressão associados à doença respiratória, melhoria da tolerância ao exercício com aumento da resistência ao esforço, melhoria na habilidade para a realização das atividades da vida diária, redução das agudizações, redução do número de consultas não programadas e recurso ao serviço de urgência, redução do número de dias de hospitalizações, diminuição dos custos diretos e indiretos relacionados com a Saúde e uma melhor integração familiar e social. Um programa de reabilitação respiratória assenta em três pilares: controlo clínico, ensino e treino de exercício. A reabilitação respiratória deverá ter o suporte técnico de uma equipa interdisciplinar composta por médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e terapeutas ocupacionais, que capacitem os doentes para gerir a sua doença e que apresentem de forma sustentada uma melhoria do seu estado de Saúde, com diminuição do recurso aos serviços de Saúde, melhoria significativa na qualidade de vida e consequente melhoria na vivência familiar e social.

 

VH | O 11.º Relatório do Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) aponta uma lacuna evidente no número de especialistas em Pneumologia e enfermeiros nos hospitais públicos. Qual o impacto desta realidade para os doentes respiratórios?

 

ACS | Apesar da subida em 2013, o número de consultas hospitalares de Pneumologia permanece relativamente baixo, uma vez que é a 16.ª especialidade em peso de consultas. Há deficit na promoção da Saúde e na prevenção da doença respiratória por falhas na educação para a Saúde, entre outros factores, de que também se destaca a iliteracia em Saúde. É conhecido o subtratamento dos doentes respiratórios crónicos, em parte atribuível ao preço dos medicamentos, mas também a dificuldades de aquisição por falhas do mercado. Existem grandes deficiências no diagnóstico e acompanhamento dos doentes respiratórios crónicos com prejuízo da qualidade de vida desses doentes, antes de mais pelo deficit de avaliação funcional, através da espirometria e/ou mecânica ventilatória. Não está implementada a Rede Nacional de Espirometria, dificultando o diagnóstico da DPOC, contribuindo esta realidade para o sub-diagnóstico dessa relevante patologia respiratória.

 

VH | Estima-se que em 2020 as doenças respiratórias sejam responsáveis por cerca de 12 milhões de mortes anuais. O que pode ser feito no sentido de abrandar estes números?

 

ACS | As doenças do aparelho respiratório têm uma elevada prevalência representando, no seu conjunto, a terceira principal causa de morte no mundo. Em Portugal são responsáveis por cerca de 19% dos óbitos e a principal causa de internamento. Estima-se que em 2020 as doenças respiratórias sejam responsáveis por cerca de 12 milhões de mortes anuais em todo o mundo. Um terço da população europeia, cerca de cem milhões de cidadãos, sofre de doenças crónicas, responsáveis por 86% de mortalidade e 28% de incapacidade. Na Europa, as doenças respiratórias como a DPOC, a asma, o cancro do pulmão, a pneumonia e a tuberculose, condicionam elevados custos na prestação em recursos de Saúde (cerca de 100 biliões de euros por ano) e em dias de trabalho perdidos. O envelhecimento da população é um fator importante na Saúde dos povos e está estreitamente relacionado com as doenças respiratórias, já que muitas delas, como a DPOC, as fibroses pulmonares e o cancro, atingem preferencialmente os grupos etários mais elevados. No último triénio, 2013-2015, a esperança média de vida passou, em relação ao triénio de 2008 – 2010, dos 79,29 anos para os 80,41 anos, os homens passaram a ter uma esperança média de vida de 77,36 anos e as mulheres atingem os 83,87 anos, diminuindo a diferença entre os sexos. Para a mulher, esta é a 10.ª maior esperança de vida, no mundo. O diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento do doente respiratório impõem uma articulação entre o especialista hospitalar e o médico de família, que deve ser o mais íntimo possível. Por esta razão, há muito que apontamos a necessidade duma articulação em rede de ambos os setores, com circulação fácil e rápida da informação, com articulação com outros técnicos de Saúde e com estruturas da sociedade civil trabalhando, nomeadamente nos grupos mais vulneráveis. O médico de família é peça essencial na prevenção das doenças respiratórias e no acompanhamento de doentes crónicos. O acesso ao doente deve ser garantido com rapidez e facilidade, o que nem sempre é possível garantir, com prejuízo para uma adequada avaliação do doente e início precoce da terapêutica. Tem-se todavia assistido a um interesse, cada vez maior, dos médicos de família na Medicina respiratória. É espelho disso o aumento significativo que se tem vindo a verificar de identificação de utentes que sofrem de DPOC ou de asma. Para isso terá também contribuído o facto dessa notificação ser considerada como indicador de produção relevante. As doenças crónicas, nomeadamente a DPOC, devem ser integradas no conceito de qualidade de vida, obtido com diagnóstico precoce, avaliação funcional e medidas terapêuticas e de reabilitação adequadas. A Direcção Geral da Saúde aponta para a necessidade de expandir a espirometria (função pulmonar) à população para avaliação funcional respiratória, extremamente deficitária, e a reabilitação respiratória de proximidade, abarcando os doentes respiratórios crónicos sintomáticos que dela necessitem. Hoje, em Portugal, só um pequeno número de doentes respiratórios crónicos é privilegiado ao terem acesso a um tratamento global com Programa de Reabilitação incluído. Torna-se pois premente a abertura de Centros de Reabilitação Respiratória de proximidade, que possam dar respostas às necessidades do país. O exemplo do AIR CARE CENTRE, Centro de Reabilitação Respiratória da Linde, tem de ser multiplicado para chegar a um número significativo de doentes respiratórios crónicos com os evidentes benefícios daí decorrentes.

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