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Entrevista
O que sabe (ou pensa que sabe) sobre a hipnose?
Por: Alberto Lopes, neuropsicólogo e hipnoterapeuta
O que sabe (ou pensa que sabe) sobre a hipnose?
Ainda existem alguns receios e mitos sobre a hipnose, nomeadamente a imagem caricata de um hipnotizador de aparência exótica, ou de palco, capaz de transformar o seu paciente numa espécie de robot. Contudo, a hipnose tem vindo a ganhar destaque, tanto entre os profissionais de Saúde, como pelas pessoas que procuraram métodos mais naturais e humanizantes. Em entrevista ao Vital Health, o neuropsicólogo e hipnoterapeuta Alberto Lopes desvenda no que consiste a técnica de hipnose e quais as suas vantagens terapêuticas, nomeadamente no alívio da dor, no tratamento da depressão e da ansiedade e na libertação de medos e fobias.

 

Vital Health (VH) | No que consiste a hipnose?

 

Alberto Lopes (AL) | Eu gosto de referir que a hipnose é uma interessante combinação de relaxamento físico e perspicácia mental. Qualquer pessoa entra em estados biológicos e naturais de transe várias vezes ao dia e se pensarmos que o transe hipnótico é um estado específico de consciência expansiva, designado como transe, no qual os poderosos recursos internos e o conhecimento que adquirimos durante toda a nossa vida tornam-se, de repente, disponíveis. Em contexto hipnoterapêutico, dramas, tensões negativas e crenças limitantes, podem ser “reprogramados” em atitudes positivas e direcionados para o equilíbrio e subsequente cura das mais diversas patologias. O termo hipnose é usado de muitas formas diferentes, portanto não é um conceito unânime e a sua definição pode variar de acordo com a abordagem teórica. De acordo com psiquiatra americano Milton Erickson, pai da hipnose moderna, acreditava que a hipnose era um estado livre de consciência de sugestionabilidade ampliada pela sugestão. E esse estado especial de atenção possibilita emergir recursos inatos e soluções internas que podem ser usados em terapia para ajudar a ultrapassar as nossas limitações e a resolução de problemas.

 

VH| Há cada vez mais especialistas a recorrer a técnicas de hipnose. Quais são os procedimentos utilizados para atingir este estado da consciência?

 

AL | De facto, o número de profissionais é proporcional à grande procura pelas pessoas de métodos mais naturais e humanizantes. As pessoas apreciam participar na sua própria terapêutica e a hipnose tem essa particularidade. Importa que os leitores saibam que a hipnose é um método seguro e que podem usufruir dos seus poderosos efeitos se recorrerem a profissionais reconhecidos e acreditados. A sua prática clínica e hospitalar é reconhecida e recomendada a muitos profissionais de Saúde, e há já largos anos vem sendo aplicada em grande parte da Europa e nos Estados Unidos nas mais variadas situações de natureza clínica. A hipnose clínica pode e deve estar disponível para mais pessoas que a ela queiram recorrer, mas realmente importa passar uma imagem profissionalizante dos hipnoterapeutas. Tenho para mim que estes terapeutas devem ser competentes, idóneos e responsáveis na sua área de intervenção. Mas sobretudo, que reúnam um conjunto de competências e conhecimentos na área da Saúde mental e hipnoterapêutica para saber as suas limitações. A hipnose não é uma panaceia que tudo cura, como todas as técnicas de Saúde tem as suas limitações, e não devia ser feito por qualquer pessoa que não domine apropriadamente as técnicas de hipnose.

 

VH | Qualquer pessoa pode entrar num estado de hipnose?

 

AL | Na realidade, teoricamente todos entramos num estado psicologicamente idêntico à hipnose em cada 90 minutos e isso acontece de forma biológica e natural ao longo do dia. Já que o estado hipnótico é uma condição mental em que o cérebro apresenta alta atividade psíquica, e uma maior irrigação cortical e subcortical, que desencadeia importantes reações cerebrais. Eu penso que o ser humano está pré-configurado para entrar em estado de hipnose de forma biológica e esse estado específico de atenção acontece espontaneamente. Por exemplo, a hipnose acontece quando experimentamos uma breve sensação de devaneio, sonhamos acordados, ou quando conduzimos o nosso carro, podendo não se lembrar que está a conduzir, muito menos sem dar conta do caminho passar. Visto por este prisma, qualquer pessoa mentalmente sã pode entrar em transe hipnótico de forma natural. Contudo os estudos apontam que algumas pessoas fazem alguma resistência (cerca de 10% da população) ao entrar num setting hipnótico de consultório. Por isso, em consultório, a análise da personalidade e a história clínica do paciente feita na primeira sessão é muito importante para que o processo funcione. Em hipnoterapia, normalmente o estado hipnótico acontece só a partir da segunda sessão, isto é, depois de analisar o historial do paciente, os seus medos, os receios e resistências ao processo hipnótico e depois são utilizadas diversas técnicas para provocar o transe hipnótico. Importa dizer que em momento algum o paciente perde o controlo do que se passa na terapia, podendo, mesmo em transe, despertar do sono hipnótico quando assim lhe aprouver. O hipnoterapeuta é nada mais que um guia, um facilitador, que encaminha o paciente ao mundo fascinante das suas emoções, desejos, traumas e carências, numa viagem maravilhosa aos recônditos da sua mente. A partir daqui, se for estabelecida uma boa relação empática, o transe acontece e a terapia é considerada como mais breve, rápida e efetiva que os outros métodos psicoterapêuticos.

 

VH | Quais as contraindicações associadas à hipnose?

 

AL | Obviamente, apesar de a hipnose ser uma técnica natural, inócua e não invasiva, como todas as abordagens terapêuticas, a técnica também têm as suas limitações. Por exemplo, deve-se evitar o uso da hipnose em indivíduos com traços psicóticos e/ou esquizofrénicos, usar com cautela em pacientes bipolares na fase da mania, porque estes pacientes têm alguma dificuldade de interpretar a linguagem hipnótica para além do real, e o uso do transe poderia exacerbar os seus sintomas. Tirando estas exceções, todos os outros casos são passíveis de recorrerem à ajuda hipnótica.

 

VH | A hipnose é usada em cada vez mais problemas de Saúde. Que tipo de patologias trata?

 

AL | A hipnose é uma técnica de grande abrangência clínica e tem imensas áreas onde as suas técnicas podem ser aplicadas com vantagens, e o seu uso não é novo. Recordo, por exemplo, que o recurso à hipnose como analgesia cirúrgica foi registado já em 1840, antes do advento do aparecimento dos anestésicos químicos por John Esdaile, um médico britânico. Mas para além da sua eficácia comprovada no controlo da dor, a hipnose ajuda imenso a libertar as principais perturbações psicológicas, tais como a depressão e a ansiedade, ajuda nas perturbações do sono e gestão de stresse e liberta facilmente quase todos os medos e fobias. Revelou-se também muito eficaz no controlo das adições, como o álcool, as drogas e o tabaco. Além disso, sendo um tratamento natural, está a ser usada com grande eficácia para diminuir o sofrimento de pacientes oncológicos e com neoplasias, e a diminuir os efeitos nefastos da quimioterapia e radioterapia: reduz as náuseas, insónias e a sensação de queimadura produzidas pelos tratamentos.

 

VH | Quais os benefícios da hipnose relativamente a outro tipo de terapias?

 

AL | Na minha opinião, a hipnoterapia é atualmente considerada por quase todos os especialistas uma abordagem terapêutica breve, que pode ser usada isolada ou em complementaridade com outras técnicas da área médica. Penso, no entanto, que a hipnoterapia traz algo de novo para a terapia e uma melhoria notável nos cuidados de Saúde às populações, já que é uma abordagem mais natural e humanizada. Um dos aspetos fundamentais do uso da hipnose é que ela pode ser ensinada em consultório aos pacientes, para que saibam entrar em transe em casa ou em qualquer local e ajudar no seu próprio tratamento. E os pacientes apreciam participar na sua cura. Porquê? Porque, em transe hipnótico acedemos a um estado psicofisiológico especial capaz de estimular recursos internos, por exemplo, ser capaz de modelar e atenuar a dor, controlar o stresse, remover atitudes negativas, medos, padrões de comportamento que não se adaptam ao quotidiano e/ou autoimagens negativas subjacentes aos sintomas vividos em estado de doença ou num drama qualquer. Como a hipnose parte de pressuposto que somos auto-curáveis, e que a solução aos nossos problemas se encontra algures no nosso interior, em transe hipnótico, para nossa agradável surpresa, descobrimos que o normal é estar tranquilos, equilibrados e serenos, olhando para as dificuldades de forma mais serena e construtiva. De facto, o uso da hipnoterapia é o mais adequado para acelerar o processo de terapia e encurtar notavelmente o tempo de qualquer tratamento médico.

 

VH | Em alguns países, a hipnose é usada nos hospitais para diminuir a dor. Em Portugal também se faz esse uso?

 

AL | Importa referir que a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomenda o uso da hipnose para modulação e controlo da dor pelos profissionais de Saúde. Instituições de renome, como a American Psychological Association (APA), a American Medical Association (AMA) e a British Medical Association (BMA), reconhecem as vantagens e recomendam o uso da hipnose aos seus profissionais médicos desde a década de 50 do século passado. Em Portugal, temos feito inúmeros estudos com a hipnose no controlo da dor em instituições hospitalares. Por exemplo, eu colaborei como especialista na área da hipnose clínica num estudo comparativo sobre a hipnose no controlo da dor e que pretendia quantificar o efeito analgésico da hipnose em comparação do opiáceo remifentanil, potente substância analgésica, em resposta a estímulos dolorosos e potenciais evocados. O estudo decorreu durante alguns meses no bloco operatório de serviço de Neurologia do Hospital Santo António (HSA), no Porto, e teve o apoio do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS). Os resultados do estudo foram muito promissores, já que o uso da hipnose apresentou relevância clínica na aplicação da analgesia hipnótica em dor leve e moderada e que poderia substituir o uso de analgésicos em doentes que recorrem a unidades da dor hospitalar. Uma coisa é certa, os estudos em Portugal estão a avançar a bom ritmo e percebe-se que a hipnoterapia é atualmente considerada por quase todos os especialistas uma abordagem mais natural e que pode ser usada isolada ou em complementaridade com outras técnicas analgésicas, com bastante sucesso no controlo de todos os tipos de dor aguda ou crónica e problemas psicossomáticos.

 

VH | Há mais algum assunto que gostaria de destacar?

 

AL | Sou neuropsicólogo e hipnoterapeuta há mais de 20 anos e não paro de me surpreender pela eficácia e vantagens que o uso da hipnose pode, efetivamente, trazer para o equilíbrio e bem-estar das pessoas. Os profissionais de Saúde podem ver nela uma poderosa ferramenta que ajudaria a tratar eficazmente o stresse, problemas psicossomáticos e outros. Os inúmeros estudos sobre o uso da hipnose na área médica demonstram que é um método eficaz mais natural e autêntico para o problema dos efeitos indesejáveis da dor e que pode ajudar sobremaneira as outras abordagens metodológicas. Compreende-se que ainda exista alguns receios e mitos sobre a técnica que demoram a ser ultrapassados. No entanto, basta conhecer um profissional sério e que esteja acreditada na sua respetiva associação, e que usa a técnica com finalidade médica e terapêutica, para esquecer a imagem caricata de um hipnotizador de aparência exótica, ou de palco, capaz de transformar o seu paciente numa espécie de robot. Penso que importa fazer uma reflexão sobre a possibilidade do uso da hipnose em meios hospitalares e em contexto de Saúde como coadjuvante no tratamento das maleitas que afetam a maioria dos portugueses, a exemplo do que se faz nos outros países. As técnicas hipnóticas estão a ser utilizadas no controlo de dor leve e moderada e até para fazer autênticas operações cirúrgicas a doentes de cancro da mama ou operações à tiroide, por exemplo, com o tempo de recobro e recuperação dos doentes reduzido a metade, em comparação com o uso dos anestésicos e medicação convencionais. O uso da hipnose nesses tratamentos hospitalares trouxeram, inquestionavelmente, enormes vantagens para as pessoas e para os Sistemas Nacionais de Saúde desses países. Nos tempos que correm, devido à crise que grassa à nossa volta, talvez possamos imaginar o benefício económico que advém, através do uso da técnica nas nossas instituições públicas. De referir que importa fazer mais estudos de forma a obter o reconhecimento e a “chancela” oficial do real potencial da hipnose para fins terapêuticos. Acredito que o uso futuro da hipnose está dependente de mais ensaios clínicos aleatórios para validar e fomentar o seu uso, com grandes vantagens económicas e médicas do uso de técnica mais assiduamente. Provavelmente, a falta de dados clínicos em larga escala no nosso país é um dos principais entraves e um dos maiores obstáculos ao uso mais intensivo da hipnose clínica. Inquestionavelmente, esse reconhecimento oficial abriria novos horizontes para o uso e aplicação da técnica em grande parte da população de que mais dela necessita.

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