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Entrevista
Apneia obstrutiva do sono aumenta risco de desenvolver outras patologias
Por: Joaquim Moita, coordenador do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e presidente da Associação Portuguesa de Sono (APS)
Apneia obstrutiva do sono aumenta risco de desenvolver outras patologias
A síndrome de apneia obstrutiva do sono (SAOS) está, muitas vezes, relacionada com o desenvolvimento de outras patologias, como a obesidade, a doença coronária, depressão, diabetes mellitus, entre outras. Em entrevista ao Vital Health, Joaquim Moita, coordenador do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) e presidente da Associação Portuguesa de Sono (APS), explica os sintomas e tratamento desta síndrome.

 

Vital Health (VH) | A SAOS afeta entre 10 a 12 % da população adulta, a partir dos 40 anos de idade. Quais as razões desta incidência?
Joaquim Moita (JM) | A obesidade, cuja prevalência é de 15% em Portugal, é apontado como principal fator de risco para desenvolver SAOS.

Outra causa, menos conhecida é a presença de alterações anatómicas a nível da via aérea e da face. Surgem na criança, e nessa altura muitas podem ser corrigidas. Um sinal importante é o ressonar persistente na criança. Nunca é benigno e deve motivar uma consulta médica.

 

VH | Quais os sintomas associados à apneia obstrutiva do sono?
JM | O mais comum é o ressonar. No entanto é pouco específico da doença. A maioria dos ressonadores adultos não têm SAOS. O ressonar crónico deve, contudo, ser sempre investigado e o SAOS excluído. A intensidade do ressonar é influenciada pelo consumo de álcool, utilização de benzodiazepinas, excesso de peso e decúbito dorsal.

A apneia do sono, ao contrário do ressonar é altamente especifica da doença, mas pouco sensível. Geralmente é descrita por outra pessoa e, quando sentida pelo doente, o que felizmente acontece raramente, é descrita como uma sensação de asfixia e angústia.

A insónia é frequente, mais na mulher, e difícil de corrigir mesmo com o SAOS tratado.

A nictúria, que resulta do impacto na bexiga dos movimentos toraco-abdominais e da diminuição da produção da hormona antidiurética está associa à gravidade da SAOS.

Os principais sintomas diurnos são: noção de sono pouco reparador e cefaleias ao acordar, hipersonolência, défices cognitivos e da memória, alteração do humor, disfunção eréctil e diminuição da libido.

As manifestações das comorbilidades cardiovasculares e metabólicas são frequentes.

 

VH | Qual a relação entre a privação do sono e o desenvolvimento de doenças coronárias?
JM | A privação de sono está associada a aumento da atividade simpática e esta à doença coronária. No caso do SAOS devemos ainda contar com a hipóxia, stress oxidativo e inflamação como mecanismos geradores ou agravantes de toda a patologia cardiovascular.

 

VH | A apneia obstrutiva do sono está relacionada com outro tipo de patologias? Se sim, quais?
JM | Sim. Insónia, depressão, doença cardiovascular, diabetes mellitus são as mais importantes e frequentes patologias associadas à SAOS.

 

VH | O tratamento mais eficaz da síndrome de apneia obstrutiva do sono é o suporte ventilatório noturno com CPAP (pressão positiva contínua da via aérea). No que consiste este tratamento? Existem outros tipos de terapêuticas recomendadas a esta doença?

JM | O CPAP é um gerador de pressão. Atua, criando uma câmara-de-ar na faringe que impede o seu colapso.

Com o CPAP aferido para uma pressão efetiva as apneias e o ressonar desaparecem, o esforço respiratório diminui, o oxigénio normaliza, as flutuações na pressão arterial diminuem.

Os microdespertares que acompanham as apneias desaparecem e a fragmentação do sono é corrigida. Há um aumento imediato de sono profundo. O tempo e a arquitetura normal de sono são recuperados.

A sonolência diurna excessiva que está relacionada com a fragmentação do sono, regride. O raciocínio e a memória melhoram. O mesmo com a depressão e a ansiedade que frequentemente acompanham a doença. O CPAP contribui decisivamente para a recuperação da disfunção eréctil que a maioria dos homens com a doença apresenta. A hipertensão arterial durante o dia tende a estabilizar ou mesmo a diminuir. O risco de eventos coronários e cerebrovasculares diminui. O CPAP é proposto a indivíduos com mais de trinta apneias por hora, ou aqueles que tendo um SAOS com um número menor de apneias têm sintomas graves de doença cardíaca ou sonolência diurna.

Os atuais equipamentos têm dimensões e peso reduzidos. São facilmente transportáveis. Sobretudo, dispõem de algoritmos que tornam a adaptação do doente cada vez mais fácil.

Os dispositivos de avanço mandibular podem e devem ser propostos a ressonadores ou doentes com SAOS ligeiro (menos de 15 apneias por hora) sem complicações cardiovasculares. Alterações ORL devem ser corrigidas e regras de higiene de sono e estilo de vida saudável têm que ser recomendados.

 

VH | Muitos especialistas defendem que esta patologia é frequentemente subdiagnosticada. Concorda com esta afirmação? Porquê?
JM | Não há estudos, mas da nossa experiência podemos inferir que a SAOS tem uma elevada notoriedade entre a população. Para além da divulgação que tem sido feita ao longo da última década, a SAOS “ouve-se”, ou seja, sabe-se já que o ressonar pode ser grave. E pior se associada a apneias e sonolência diurna.

Os utentes procuram solução junto do médico de família. O constrangimento está na ausência de recursos humanos e técnicos a nível hospitalar capazes de diagnosticar e iniciar o tratamento atempado dos doentes.

 

VH | Há mais algum assunto que queira destacar?
JM | A SAOS é um problema de saúde publica pela frequência, complicações cardio e cerebrovasculares e pelo impacto laboral, social e familiar resultante das manifestações neuro comportamentais, em particular da sonolência diurna.

Em Portugal o tratamento com CPAP é gratuito para os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e foi instituído um avançado sistema de ensino, resolução de problemas e acompanhamento domiciliário levado a cabo por empresas de cuidados respiratórios domiciliários. O modelo é exemplar em termos europeus. Acrescente-se que existem normas clinicas e um sistema informático de prescrição que exigem o seu cumprimento.

É importante preservar este modelo, não permitindo desvios que contribuam para a sua adulteração.

Reforçamos também a necessidade de capacitar a Medicina Geral e Familiar (MGF), com informação necessária para identificar a doença, os seus critérios de gravidade e acompanhar o tratamento.

A falta de recursos hospitalares deve ser resolvida. São necessários mais pneumologistas e médicos com competência em Medicina do sono. São necessários mais técnicos de sono. São necessários mais laboratórios de sono.

Finalmente é importante promover mecanismos de referenciação e articulação entre cuidados primários e hospitalares.

 

Este tema será abordado no âmbito da 3.ª edição da Lufada do Atlântico, um evento dedicado aos avanços no diagnóstico e tratamento das perturbações respiratórias do sono, que vai reunir reputados especialistas nacionais e internacionais em conferências e workshops. A reunião está agendada para os dias 26 e 27 de maio em Angra do Heroísmo, Açores.

 

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