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Entrevista
LPCC - NRN: Consulta de diagnóstico do cancro de pele celebra 10 anos
Por: Fernando Ribas, dermatologista e membro da direção da Liga Portuguesa Contra o Cancro - Núcleo Regional do Norte
LPCC - NRN: Consulta de diagnóstico do cancro de pele celebra 10 anos
O Núcleo Regional do Norte (NRN) da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) tem há 10 anos em funcionamento uma consulta de diagnóstico precoce de cancro da pele, gratuita e realizada por dermatologistas voluntários. O Vital Health conversou com o dermatologista Fernando Ribas, membro da direção da LPCC - NRN, que explica no que consiste esta consulta e a quem se destina. O especialista esclarece ainda sobre os comportamentos de risco que potenciam o aparecimento do cancro da pele.

 

Vital Health (VH) | A Liga Portuguesa Contra o Cancro – Núcleo Regional do Norte tem há 10 anos uma consulta de diagnóstico precoce de cancro da pele, que funciona uma vez por semana na sua sede (na Areosa, Porto). No que consiste a consulta e a quem se destina?

Fernando Ribas (FR) | A consulta de diagnóstico precoce de cancro de pele começou há 10 anos, é gratuita e realizada por dermatologistas voluntários. Tem como objetivo atingir uma população de risco, que habitualmente se caracteriza por pessoas de pele muito clara, com cabelos loiros ou ruivos, com sardas, com muitos sinais, com alguns nevos atípicos ou com história familiar ou pessoal de melanoma ou cancro.

 

Esta consulta visa ainda atingir pessoas que tenham dificuldades económicas de acesso a serviços oficiais de Saúde ou a um médico privado. Há ainda a agravante de haver poucos dermatologistas a nível nacional e, muitas vezes, quando existe o imperativo de observação, os serviços oficiais não respondem atempadamente. Assim, a Liga procura, dentro das suas limitações – que são bastantes –, responder a essa necessidade. Por isso, é que, cada vez mais, temos utentes enviados pelos médicos de família. E são estes que nos fornecem em grande parte os doentes que temos observado.

 

A consulta funciona semanalmente, pelo que tem um número limite de inscrições. A Liga só pode dar algum apoio, não tendo capacidade para substituir os serviços oficiais. Terá de ser o Estado a prestar esse serviço. O problema é que não existe consulta aberta nos serviços oficiais de Saúde. E, por isso, os utentes têm sempre de passar pelo médico de família que os orienta para um hospital, o que, de forma geral, é um processo demorado.

 

Na consulta de diagnóstico precoce de cancro da pele da LPCC - NRN recorremos a uma técnica de observação microscópica dos sinais, a Dermatoscopia Digital Computorizada, em que conseguimos fazer a análise microscópica dos sinais dos utentes através de um aparelho, aumentado o sinal cerca de 70 vezes. Assim, conseguimos ter noção da malignidade ou da benignidade do sinal.

 

A Liga já tem 75 anos de existência e sempre se preocupou em transmitir informação sobre os cuidados com o cancro cutâneo. Desde 2009 fazemos, juntamente com o IPO do Porto, uma semana de rastreio de cancro da pele. A partir de 2000 começámos a participar no Euromelanoma Day. E a partir de 2006/2007 iniciámos a consulta de diagnóstico precoce. Ou seja, temos mantido um trabalho permanente, semanal, e não uma vez por ano apenas, o que acontece na grande maioria dos países da Europa.

 

A LPCC Norte possui também um centro de formação para profissionais de saúde, médicos, enfermeiros, professores e alunos. As formações que promovemos são essencialmente sobre cuidados e sobre aquilo que há de novo no estado da arte do cancro. Temos ainda uma unidade de educação para a Saúde que está permanentemente no campo a trabalhar com os jovens e com professores nas escolas, dando informação sobre cancro em geral e sobre cancro de pele em particular.

 

VH| Quantas pessoas recorrem por ano a esta consulta?

FR | Observamos uma média de 600 a 700 pessoas por ano. Isto significa que até hoje observámos à volta de sete mil pessoas, o que é um número significativo.

 

VH | De ano para ano, a adesão à consulta vai aumentando?

FR | A consulta sempre teve muita procura, o problema é a capacidade de resposta, visto que funciona através de voluntariado. Os dermatologistas trabalham voluntariamente, sem qualquer remuneração, sendo que é muito difícil arranjar pessoas que estejam permanentemente disponíveis para esse tipo de trabalho. Para além dos dermatologistas terem os seus próprios trabalhos a tempo inteiro, encontrar quem queira trabalhar gratuitamente não é fácil. Portanto, estamos sempre limitados. A Liga neste momento não tem capacidade económica para contratar dermatologistas para efetuarem este trabalho.

 

A única hipótese que teríamos era fazer um acordo com a Administração Regional de Saúde (ARS) no sentido de trabalharmos em conjunto e termos algum apoio económico, para que a Liga possa trabalhar com os centros de Saúde e unidades de Saúde familiar. Contudo, não me parece que a ARS esteja disposta a alinhar neste tipo de acordo.

 

VH | Há determinados comportamentos de risco que potenciam o aparecimento do cancro da pele. Quais são?

FR | As pessoas que apanham muito sol durante todo o ano, como pescadores, lavradores, operários da construção civil ou desportistas, têm maior risco de apanharem alguns tipos de cancro, particularmente os carcinomas, tanto o carcinoma basocelular, como carcinoma espinocelular.

 

O melanoma maligno, que é o mais grave, está associado aos escaldões. As pessoas que trabalham em ambientes fechados e se expõem no verão em curtos períodos com uma irradiância solar forte, têm maior probabilidade de desenvolver esta patologia. Para além disso, existem fatores de risco pessoais que potenciam o aparecimento do cancro da pele, como os cabelos loiros ou ruivos, as sardas, muitos sinais e ainda história familiar ou história pessoal de cancro.

 

VH | As pessoas, de forma geral, tendem a pensar que por colocarem protetor solar estão protegidas...

FR | É necessário ter algum cuidado com os protetores solares, pois não protegem integralmente. O protetor solar tem uma proteção relativa ao sol. Outro risco relacionado com os protetores solares é que, muitas vezes, tiram a sensação de queimadura, sensação que faz com que as pessoas “fujam do sol”. Ao aplicar o protetor solar as pessoas perdem esse “aviso”. E, portanto, muitas vezes, fazem uma sobre-exposição solar e acabam por apanhar mais dose de radiação do que aquela que seria necessário.

 

Com isto não estou a querer diabolizar o sol, porque é necessário apanhar pequenas quantidades de radiação solar. O correto é apanhar pequenas doses de radiação distribuídas ao longo de todo o ano, e não concentrá-las. Se distribuirmos as doses e nos expusermos ao sol durante curtos períodos diariamente, ou pelo menos aos fins-de-semana, acabamos por ter uma dose de serotonina que é necessária para o nosso bem-estar psicológico, uma dose de vitamina D que é fundamental no tratamento e na resposta a muitas doenças, como osteoporose e raquitismo, e adaptamo-nos ao clima, o que nos permite estar protegidos contra o cancro.

 

VH | As alterações de sinais ou manchas na pele podem ser indicativas de cancro....

FR | Todas as pessoas de raça branca têm em média 40 sinais. Os sinais começam a aparecer entre os oito e os 10 anos de idade, vão evoluindo, crescendo, aumentando. E por volta da 4.ª, 5.ª ou 6.ª década, começam a desaparecer, começando a surgir outros. Cerca de 2 a 3% dos sinais podem surgir logo à nascença, os chamados nevos congénitos, mas é uma pequena percentagem da população. A grande maioria da população possui nevos comuns, que surgem depois da infância, acabando por desaparecer. Depois da 2.ª/3.ª idade começam a aparecer outros tipos de sinais: queratose seborreica, hemangiomas, fibromas, angiomas, etc.

 

VH | E quando a pessoa olha para si e para os seus sinais, o que é que lhe deve chamar a atenção?

FR | A pessoa deve verificar primeiro se tem muitos sinais e se estes são atípicos, ou seja, se são irregulares. Há uma mnemónica que podemos utilizar, que é o ABCDE: um sinal Assimétrico, com Bordo irregular, com mais do que uma Cor, com Diâmetro acima de 6 mm e o E é de evolução rápida ou elevação nalguns dos seus contornos. Um sinal que tenha todas estas características tem que ser observado por um dermatologista. Não quer dizer que seja maligno, mas a probabilidade de o ser é mais elevada. Há alguns tumores benignos que têm estas características, mas aí o dermatologista, através de uma análise, consegue detetar e esclarecer.

 

VH | E se aparecer um sinal suspeito, será necessário extraí-lo?

FR | Sim, se for suspeito terá que ser removido.

 

VH | O que é que as pessoas no seu dia a dia – e especialmente as que se encontram incluídas nos grupos de risco – devem fazer para prevenir o cancro da pele?

FR | Fundamentalmente, o critério mais importante são os escaldões. Contudo, nem todos os cancros estão relacionados com o sol. 90% dos cancros de pele estão relacionados com o sol e 10% não têm nada a ver com o sol. Temos em Portugal cerca de 12 mil novos casos de cancro de pele e cerca de 1200 novos melanomas por ano. Portanto, 10% ainda é um número significativo. Não podemos responsabilizar o sol por tudo, mas que é o grande responsável, é.

 

VH | E os restantes 10% devem-se a que razões?

FR | São transformações celulares que se dão. Há cancros noutros sítios e ainda não temos, infelizmente, resposta para eles.

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