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Entrevista
Asma: “Os doentes apresentam algum desconhecimento relativamente a esta doença"
Por: Pneumologista e secretária da Comissão de Alergologia Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia
Asma: “Os doentes apresentam algum desconhecimento relativamente a esta doença"
Em abril deste ano, foi lançada a campanha “Vencer a Asma”, com o duplo objetivo de alertar para a importância do controlo da doença, prevenindo os doentes para não desvalorizarem os sintomas e, simultaneamente, sensibilizar para a relevância de uma comunicação efetiva entre os profissionais de saúde e os doentes. O Vital Health, falou com a pneumologista Rita Gerardo que revela que “a população em geral e os doentes com Asma em particular apresentam algum desconhecimento relativamente a esta doença, o que coloca em causa o adequado controlo da mesma”. Nesta entrevista, a especialista traça um retrato da doença em Portugal, explica de que forma a asma se manifesta e como afeta a vida de quem partilha os dias com esta doença crónica.

 

Vital Health (VH) | Pode traçar um retrato da asma em Portugal? Quantas pessoas são afetadas pela doença, quais as faixas etárias predominantes, percentagem das crianças e jovens relativamente ao total e outras características relevantes.

Rita Gerardo (RG) |Estima-se que a asma atinja cerca de 300 milhões de indivíduos a nível mundial e é calculada em 1 milhão na população portuguesa de acordo com o Observatório Nacional para Doenças Respiratórias. A asma pode surgir em qualquer idade, no entanto, cerca de metade dos doentes com asma iniciaram os sintomas na infância. Trata-se da doença crónica mais frequente na infância e é a principal causa de morbilidade nesta faixa etária, avaliada pelo absentismo escolar, idas ao serviço de urgência e internamentos. 

 

(VH) |Que fatores estão na origem desta doença?

(RG) | A causa da asma não é totalmente conhecida. Os dados disponíveis atualmente permitem saber que a asma resulta de mecanismos de hiperreatividade brônquica quando os doentes são expostos a certos estímulos. São conhecidos os estímulos que desencadeiam crises de asma e agravamento global dos sintomas, no entanto, permanece controverso se a exposição a alguns destes estímulos é um fator de risco para desenvolver a doença. É uma doença heterogénea cujo início e permanência é dirigida por interações gene – ambientais. A mais importante destas interações ocorre durante a vida intra-uterina e no início da vida extra-uterina. É consensual a existência de uma “janela de oportunidade” durante a gravidez e primeira infância quando os fatores ambientais podem influenciar o desenvolvimento da doença.

 

Com base nestes conhecimentos, as recomendações atuais sugerem as seguintes atitudes: evicção da exposição ao fumo do tabaco durante a gravidez e após o nascimento (e, na verdade, durante toda a vida e por várias razões que não só o desenvolvimento de asma); parto por via vaginal, sempre que possível; aleitamento materno, por várias razões que não só a prevenção de alergias e asma; evitar administração de antibióticos de largo espectro durante o primeiro ano de vida.

 

(VH) | Como é que esta doença se manifesta? Quais são os principais sintomas da asma?
(RG) |A asma é uma doença comum caracterizada por inflamação crónica e obstrução transitória e potencialmente reversível das vias aéreas. A obstrução é variável e frequentemente reversível, quer espontaneamente quer após recurso a medicação. Os sintomas estão relacionados com a limitação variável do fluxo aéreo expiratório, isto é, com a capacidade de os pulmões libertarem o ar, devido a broncoconstrição, ou seja, espessamento da parede das vias aéreas e aumento da produção de muco. Um dado importante é que as crises de asma (ou exacerbações) são episódicas apesar de a inflamação permanecer (é crónica).

 

Os principais sintomas de asma incluem dispneia (sensação de falta de ar), pieira, tosse, geralmente seca e sensação de opressão torácica (aperto no peito). Não é obrigatório que todos os sintomas estejam presentes ao mesmo tempo. Os sintomas podem variar ao longo do tempo e em intensidade. São mais frequentes no período noturno e no início da manhã. Também podem variar ao longo do ano sendo mais frequentes nas mudanças de estação. 

 

Apesar de se tratar maioritariamente de uma doença inócua, as crises de asma podem ser muito graves e até fatais, pelo que é necessário o correto cumprimento do plano terapêutico e evicção de fatores desencadeantes, quando possível. É importante não esquecer que os sintomas de asma podem ter intensidade diferente ao longo do tempo e no mesmo indivíduo para além de poderem variar de indivíduo para indivíduo.  Os sintomas podem ser controlados e reversíveis com o tratamento adequado.

 

 (VH) | De que forma é que a patologia condiciona a vida do doente?

(RG) | Quando se fala da asma é necessário salientar a importância da classificação do nível de gravidade da doença e o estado de controlo da mesma, uma vez que, é possível um doente ter asma ligeira, mas com difícil controlo ou um doente com asma grave, mas facilmente controlável. 

 

A Asma apresenta quatro degraus de gravidade de acordo com a intensidade e frequência dos sintomas, grau de obstrução das vias aéreas e variabilidade da função respiratória: intermitente ou persistente e, neste grupo, ligeira, moderada ou grave. Relativamente ao controlo consideram-se três níveis: controlada, parcialmente controlada e não controlada e a agudização (crise). O nível de controlo da doença é avaliado com base na presença e frequência de sintomas diurnos e/ ou noturnos, pela necessidade de utilização de medicação de alívio e pela limitação de atividades condicionada pela presença destes mesmos sintomas. Os objetivos do tratamento são manter a asma controlada e evitar o aparecimento de agudizações. 

 

A maioria dos doentes com asma, cerca de 57% de acordo com o Inquérito Nacional de Controlo da Asma de 2010, apresenta doença controlada. Neste grupo de doentes, a manutenção da terapêutica prescrita pelo seu médico assistente e dos cuidados preventivos de exacerbações da doença (que variam de doente para doente de acordo com as características da sua asma), permitem que tenham um dia-a-dia normal e muito semelhante ao de um indivíduo saudável. 

 

As alterações da qualidade de vida colocam-se nos doentes com asma mal ou parcialmente controlada, para os quais, os sintomas estão presentes quase (ou mesmo) diariamente. Para além da sintomatologia, apresentam também maior risco de desenvolver crises de asma. Neste grupo de doentes, as idas a consultas não agendadas, o recurso ao serviço de urgência, a necessidade de internamento hospitalar e o absentismo laboral/ escolar são mais frequentes. 

 

Para além da diminuição clara da qualidade de vida (do doente e, muitas vezes, dos familiares diretos), estes doentes representam custos elevados para o serviço nacional de saúde e estado. É importante destacar que, cerca de 88% dos asmáticos não controlados (de acordo com o Inquérito Nacional de Controlo da Asma de 2010), consideram erradamente que a sua doença está controlada. Quer isto dizer que os doentes não valorizam as suas queixas e que apresentam um risco muito maior de recorrer às instituições de saúde com crises de asma potencialmente graves a muito graves. 

 

(VH) |Como já referiu, há cerca de um milhão de asmáticos em Portugal. Na sua opinião, a população conhece as consequências desta doença? Por exemplo, os professores e as escolas estão preparados para lidar com estes alunos e sabem o que fazer numa situação crítica?
(RG) | A população em geral e os doentes com Asma em particular apresentam algum desconhecimento relativamente a esta doença, o que coloca em causa o adequado controlo da mesma. Antes de mais, a maioria dos doentes desconhece que a asma é uma doença crónica, ou seja, a doença não tem cura e irá permanecer para o resto da vida, ainda que com manifestações variáveis ao longo da mesma. A existência de uma doença crónica implica que está sempre presente mesmo que não se manifeste e este dado é fundamental para compreender o porquê da não adesão à terapêutica por parte de muitos doentes. Uma das características desta doença é a sua variabilidade ao longo do tempo: manifesta-se em alguns períodos, noutros permanece assintomática, no entanto, as alterações inflamatórias estão sempre presentes e a falta de sintomas não é sinónimo de que a doença desapareceu. 

 

Para além disto, tratando-se de uma doença crónica, também a terapêutica é (na maioria dos casos), crónica, podendo variar, na intensidade da mesma (dose e frequência da toma). Apesar de maioritariamente benigna, a asma pode ser grave e até mesmo fatal, pelo que não deve ser encarada como se de uma simples constipação se tratasse.

 

Relativamente às escolas e professores e, seguindo a mesma linha de raciocínio, existe muito desconhecimento relativamente à doença. Claro que observar um aluno com uma crise de dispneia pode ser assustador e angustiante, mas estes alunos geralmente são portadores de broncodilatadores de alívio a qual resulta em poucos minutos. Uma das formas de diminuir este impacto é a criação de guias de tratamento que deverão ser entregues aos professores/ cuidadores, explicando o plano de ação perante uma crise.

 

(VH) |É sabido que a grande maioria dos asmáticos em Portugal não utiliza corretamente os inaladores. Na sua opinião, a que se deve este facto e quais são as suas consequências no tratamento e na qualidade de vida dos doentes?
A dificuldade em utilizar o dispositivo inalatório pode dever-se ao desconhecimento do modo de funcionamento ou à presença de dificuldade motora. Também a utilização de vários dispositivos diferentes e várias tomas diárias dificultam a adesão e correta utilização. Outros fatores incluem o esquecimento, a ausência de rotina diária e o custo. 

 

A terapêutica médica da asma é, na sua maioria, administrada através de medicação inalada. O conhecimento da correta utilização destes dispositivos é essencial para manter a doença tratada e controlada, melhorando, assim, a qualidade de vida dos doentes. O ensino da utilização da medicação inalada é recomendado na consulta na qual é prescrita e nas consultas subsequentes, confirmando que o doente a sabe utilizar. Também na farmácia deverá ser confirmado que o doente sabe utilizar o dispositivo.

 

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