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Entrevista
Hepatite C: a doença silenciosa que afeta cerca de 80 mil portugueses
Por: Rui Tato Marinho, hepatologista no Hospital Santa Maria
Hepatite C: a doença silenciosa que afeta cerca de 80 mil portugueses
No âmbito do Dia Mundial das Hepatites, que se assinalou na passada sexta-feira, dia 28 de julho, o Vital Health esteve à conversa com Rui Tato Marinho sobre o estado da hepatite C em Portugal. O hepatologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, revela que a doença afeta cerca de 80 mil pessoas no país, mas não deve ser encarada como uma sentença de morte, até porque “a medicina portuguesa tem muitas armas para ajudar os portugueses”.

 

Vital Health (VH) | Pode traçar um retrato da doença em Portugal? Quantas pessoas vivem com hepatite C, qual a taxa de mortalidade associada à doença, faixas etárias mais predominantes e outros dados relevantes.

Rui Tato Marinho (RTM) | A hepatite C é uma doença silenciosa, que afeta o fígado, e assintomática durante décadas, que se pode revelar numa fase avançada. Em Portugal, não existem dados precisos, mas calcula-se que cerca de 70-80 mil pessoas se encontrem infetadas com hepatite C. Contudo, apenas 25-30% estão diagnosticados. Em aproximadamente 50 a 85% dos adultos, a infeção pode tornar-se crónica, sendo que, entre estes, aproximadamente 40% desenvolverá cirrose hepática - fase mais avançada de doença. Quem tem cirrose possui um risco de evolução para cancro do fígado de cerca de 4% por ano se tiver o vírus activo. Se o eliminar o risco é inferior a 1%. A taxa de eliminação do vírus com os novos tratamentos é de 96%.

 

(VH) | Quais são os principais fatores responsáveis pela transmissão da doença no país?
(RTM) | A hepatite C transmite-se essencialmente através de contacto com sangue que esteja contaminado com o vírus. Sabe-se, por exemplo, que em Portugal a utilização de drogas injetáveis é umas das principais causas de transmissão. Deste modo, é essencial seguir certas indicações como a não partilha de agulhas ou outro material, tatuagens feitas com material não esterilizado, partilha de objetos cortantes que possam estar contaminados, como lâminas de barbear, corta-unhas, tesouras ou escovas de dentes, e sexo não protegido, apresentando risco maior naqueles com múltiplos parceiros sexuais. 

 

(VH) | De que forma é que a doença se manifesta no quotidiano dos doentes e que     condicionamentos traz?

(RTM) | A hepatite C, sendo uma doença silenciosa, surge de um modo camuflada. A maioria das pessoas não apresenta sintomas quando é infetada pela primeira vez ou então apresenta queixas inespecíficas, como se de uma gripe se tratasse: febre, cansaço, dores musculares e articulares. 

 

(VH) | Como já referiu, a hepatite C é uma doença silenciosa. Que sinais de alerta é que a população deve ter em conta?
(RTM) | Na grande maioria dos casos não existem sintomas, de modo que o diagnóstico é baseado nas análises ao sangue para se detectar o anticorpo e o vírus. A análise inicial a fazer para o rastreio é o anti-VHC. Se for positivo, é necessário confirmar a presença do vírus através da carga vírica (ARN VHC ou PCR VHC). Quando surgem sintomas como seja líquido no abdómen (ascite), icterícia (olhos amarelos), vómitos com sangue devido a rotura das varizes do esófago, a doença já está numa fase muito avançada.

 

(VH) | No início deste ano foram autorizados novos medicamentos para o tratamento da Hepatite C, em Portugal, estando neste momento disponíveis oito medicamentos distintos. Isto significa que os doentes devem ter esperança na cura?

(RTM) | A hepatite C tem cura. Se se ainda não atingiu a fase de cirrose, podemos dizer que a pessoa infectada estará curada para toda a vida. Se a cirrose existe o risco de evolução para cirrose pode manter-se se bem que com redução apreciável do risco, inferior a 1% por ano. Mas deverá manter a vigilância por ecografia abdominal a cada seis meses.

 

(VH) | Em fevereiro, um comunicado do Infarmed afirmava que “a decisão de tratar todas as pessoas infetadas pelo vírus da hepatite C faz com que Portugal seja um dos primeiros países europeus, e mesmo a nível mundial, a implementar uma medida estruturante para a eliminação deste grave problema de saúde pública.” O que ainda falta fazer para travar a doença em Portugal, nomeadamente a nível do rastreio?

(RTM) | Neste momento, existem cerca de sete mil doentes que foram curados e que estão livres de infeção de hepatite C, não esquecendo quem tem cirrose, como referimos. Contudo, subsiste a clara necessidade de se realizar um balanço sobre aquilo que já se fez em prol da cura desta doença e perceber o que se necessita fazer no futuro. Neste sentido, é necessário começar a atuar com o tratamento em nichos populacionais onde as taxas de infetados são mais elevadas. Assim, deverá existir uma maior contribuição para educar em termos de prevenção e fornecer tratamento a reclusos e utilizadores de drogas injetáveis, sejam estes antigos utilizadores ou que continuem a utilizar drogas injetáveis numa base quotidiana. 

 

(VH) | Na sua opinião enquanto especialista, a falta de conhecimento e os estigmas associados a esta doença afetam o quotidiano dos doentes? 

(RTM) | Sem dúvida que a falta de conhecimento e o estigma sobre esta doença afectam a pessoa do ponto de vista individual, familiar, social e profissional. Devido a todas estas consequências, existe a extrema importância da população ser devidamente esclarecida sobre o vírus. Apesar de ser uma doença bem presente no quotidiano de muitos portugueses, é necessário reconhecer a hepatite como um importante problema de saúde pública.

 

(VH) | Quais são os principais mitos associados às hepatites?

(RTM) | Existem alguns mitos de que é uma doença apenas de grupos de risco ou que é muito grave, quase sempre mortal. A hepatite C pode ter sido adquirida por exemplo em transfusões antes de 1992. Por outro lado 20-30% dos infectados não pertencem àqueles grupos com comportamentos que os colocam em maior risco. Por outro lado, a medicina portuguesa tem muitas armas para ajudar os portugueses: temos um sistema nacional de saúde que os pode ajudar, profissionais de saúde experimentados (médicos e não só), todo o tipo de análises e aparelhos que nos permitem avaliar de uma forma muito correcta a sua doença, designadamente se existe cirrose ou não; temos também à nossa disposição todos os medicamentos que existem no mundo para tratar a hepatite C e em casos muito avançados o transplante hepático. Se a pessoa com o vírus da hepatite C for vigiada e tratada de forma correcta a probabilidade de virem a ocorrer situações graves não é muito elevada.

 

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