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Entrevista
“A alimentação considera-se adequada quando é variada, completa, equilibrada”
Por: Ana Leonor Perdigão, nutricionista
“A alimentação considera-se adequada quando é variada, completa, equilibrada”
Os últimos dados do Inquérito Alimentar Nacional, 31% das crianças até aos 10 anos não consome a quantidade de adequada de frutas e hortícolas e apenas 12% das crianças desta idade apresenta um padrão alimentar alinhado com a alimentação mediterrânica. Numa altura em que muito se fala sobre as melhores opções alimentares e padrões alternativos, o Vital Health esteve à conversa com a nutricionista Ana Leonor Perdigão sobre as bases de uma alimentação saudável na infância.

 

Vital Health (VH) | Um estudo elaborado pela Organização Mundial de Saúde e do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge revela que menos de 1% das crianças bebe água todos os dias e só 2% ingere fruta fresca diariamente, enquanto mais de 90% das crianças portuguesas consome fast food. Na sua opinião, a população está devidamente consciencializada para a importância de uma alimentação saudável, nomeadamente na infância? 
Ana Leonor Perdigão (ALP) | Felizmente, nos dias de hoje, existe muita informação sobre o impacto que os estilos de vida, de uma forma geral, exercem sobre a nossa saúde e bem-estar. Nomeadamente a alimentação tem vindo a assumir cada vez mais um papel de destaque como fator decisivo na saúde, desde muito cedo, ainda durante a vida intra-uterina. Por outro lado, os múltiplos meios de comunicação e de partilha de informação e conhecimento têm permitido que estes factos sejam amplamente divulgados e por isso não será correto dizer que atualmente as pessoas não têm informação suficiente. Creio que o verdadeiro problema não é “saber” é “fazer” e nesse ponto as questões que se colocam serão menos racionais. Acredito que todos os pais querem dar o melhor aos seus filhos, mas que, na prática, aspetos como a falta de tempo, de planeamento, por exemplo, das compras e das refeições, e as rotinas instaladas acabem por tornar difícil pôr em prática o que se sabe ser adequado.   

 

VH | Em que princípios se deve basear a alimentação de uma criança?
ALP | Em qualquer fase da vida, a alimentação considera-se adequada quando é variada, completa, equilibrada e ajustada às necessidades específicas de cada pessoa. A Roda dos Alimentos representa muito claramente a proporção com que os diferentes grupos de alimentos devem contribuir para o dia alimentar e esta proporção aplica-se a qualquer momento da vida. Todos os grupos de alimentos têm o seu papel e são igualmente importantes porque nenhum é dispensável. Já as quantidades a consumir de cada grupo são diferentes porque devem respeitar as necessidades dos diferentes momentos da vida e de cada indivíduo. Por último, é importante que mesmo dentro de cada grupo de alimentos equivalentes se varie evitando a monotonia e procurando o máximo de diversidade alimentar.

 

VH | Existe algum perfil alimentar que deva ser seguido com todas as crianças ou a alimentação deve ser sempre adaptada às características específicas de cada criança?
ALP | Salvo situações específicas que requeiram algum tipo de restrição ou reforço alimentar, as orientações alimentares são transversais às diferentes faixas etárias com o devido ajuste de quantidades de cada grupo alimentar. Naturalmente que numa fase de desenvolvimento físico e cognitivo, como é a infância, há alguns nutrientes que têm um papel mais relevante e cujas recomendações o refletem. É, por exemplo, o caso do cálcio e da vitamina D, com um papel muito relevante no desenvolvimento e crescimento dos ossos e dentes e cuja inadequação pode comprometer definitivamente a saúde destes tecidos. 

 

VH | De uma forma geral, quais são os principais erros alimentares cometidos pelas crianças ou pelos pais em Portugal?
ALP | Segundo os últimos dados do Inquérito Alimentar Nacional, 31% das crianças até aos 10 anos não consome a quantidade de adequada de frutas e hortícolas e apenas 12% das crianças desta idade apresenta um padrão alimentar alinhado com a alimentação mediterrânica.É ainda de destacar a insuficiente ingestão de água e o baixo consumo de leguminosas (feijão, grão) e pescado.

 

VH | A obesidade infantil é uma realidade em Portugal. O que é preciso fazer para travar esta doença? Que cuidados é que os pais de crianças não podem mesmo prescindir?
ALP | O principal objetivo deve ser conseguir o equilíbrio entre ingestão alimentar e prática regular de atividade física.No que respeita concretamente à alimentação, há alguns princípios básicos de que não se deve prescindir:
- Garantir um bom pequeno-almoço, antes de sair de casa;
- Promover lanches equilibrados para o meio da manhã e da tarde;
- Incentivar a fruta (mínimo 2 peças por dia) e hortícolas (pelo menos às 2 refeições principais); 
- Incentivar o consumo regular e adequado de água;
- Promover o consumo adequado de produtos láteos pelo seu teor de cálcio, mas também de proteína de elevada qualidade;
- Reservar alimentos de elevado valor calórico para dias excecionais (bolos, doces, refrigerantes, …);
- Prática regular de atividade física. 

 

VH | Que consequências a nível da saúde física e psicológica é que estão associadas à obesidade?

ALP | Os estudos provam, com cada vez mais certezas, que situações de excesso de peso e obesidade nos primeiros anos de vida têm impacto na saúde de forma imediata, mas também na saúde futura. Uma criança com excesso de peso ou obesidade tem maior risco de obesidade, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e diabetes tipo II na idade adulta, comprometendo de forma significativa a saúde e a qualidade de vida. 

 

VH | Diz-se que o açúcar é o veneno do séc. XXI e está presente na maioria dos produtos dedicados às crianças, por exemplo nos cereais do pequeno-almoço. Que consequências é que isto traz para a saúde dos mais novos e que outras opções é que devem ser preferidas?

ALP | Num campo tão vasto e multifatorial como a saúde e o estado nutricional não é possível atribuir a um único aspeto a responsabilidade da situação. Por outro lado, o Inquérito Alimentar Nacional publicado no início do ano vem mostrar que os alimentos processados não são afinal as grandes fontes de açúcares ou até de sal da alimentação portuguesa e que essa perceção não tem realmente fundamento.Novamente, será mais importante identificar os alimentos cujo consumo é importante promover, como as frutas e hortícolas, que têm registado um  consumo realmente insuficiente na população portuguesa. No caso concreto do pequeno-almoço, o mais importante é que seja tomado todos os dias, idealmente antes de sair de casa, e com alimentos de três grupos: laticínios (leite, iogurte…), cereais (pão, tostas, cereais de pequeno-almoço com baixos teores de açúcares) e fruta. Mantendo a regra da variedade, o ideal será que em cada dia esta refeição seja diferente, mantendo os três grupos de alimentos presentes, mas variando alimentos dentro de cada grupo.  

 

VH | Nos últimos anos, os sucessivos governos têm feito alterações à lei no sentido de limitar o consumo de alguns produtos, nomeadamente com elevado teor de açúcar, sal e gorduras, nas escolas e até mesmo nas instituições do Serviço Nacional de Saúde. Já é possível fazer um balanço destas medidas? 

ALP | Até ao momento não foram disponibilizados dados que nos permitam tirar conclusões dessas medidas.

 

VH | Considera que a proibição de determinados alimentos é eficaz na promoção de uma alimentação saudável? 

ALP | Todos os exemplos que temos relativamente à eficácia da “proibição” de alguma coisa mostram que este não será o caminho mais eficaz. Não é por acaso que se diz que “o fruto proibido é o mais apetecido”. Ainda mais no que respeita à alimentação, algo que é parte integrante e básica do nosso dia-a-dia, o mais importante não é proibir mas sim sensibilizar e fornecer ferramentas para escolhas adequadas e saudáveis. Ensinar desde cedo a escolher e sensibilizar para o impacto na saúde ajuda a interiorizar esses princípios de equilíbrio e adequação, tornando-os naturais nos comportamentos futuros.  

 

VH | Relativamente às dietas restritivas (exemplos: sem glúten, sem lactose, vegetarianas ou vegans), considera que estas são benéficas para as crianças? Ou devem ser uma opção adotada após indicação de um especialista?

ALP | Padrões alimentares que restringem ou eliminam algum alimento ou nutriente só devem ser adotadas com o devido aconselhamento profissional, principalmente em fases de crescimento, uma vez que podem por em risco o perfeito desenvolvimento das crianças e comprometer a sua saúde futura. 

 

VH | Neste momento vivemos um período paradoxal: por um lado, as crianças têm um estilo de vida mais sedentário e a percentagem de crianças obesas, nomeadamente em Portugal é elevada. Por outro lado, há uma tendência para divulgação e promoção cada vez maior de dietas biológicas, sem glúten etc., ou seja, cada vez a oferta procura ser mais saudável. Enquanto nutricionista como é que prevê o futuro? Qual destes dois caminhos poderá “vencer”?

ALP | Antes de mais é importante esclarecer que a adoção de padrões alimentares “alternativos”, sem glúten ou sem glúten, quando tal não se justifica por alguma condição médica, não significa necessariamente uma alimentação mais saudável. Muitas vezes essas opções acabam por ser até mais desequilibradas do ponto de vista nutricional ou até mais calóricas.

 

Relativamente ao futuro, e como nutricionista, acredito que cada vez mais estaremos conscientes da importância dos nossos comportamentos, alimentares e não só, na nossa qualidade de vida, atual e futura. Continuará, com certeza, a haver opções alternativas e até disruptivas pela necessidade de inovação e mudança, mas acredito que num futuro próximo irão prevalecer as escolhas mais adequadas e promotoras de uma boa saúde. Isso é já visível no tipo de produtos alimentares disponíveis, resultado do trabalho de inovação e renovação nutricional que a Indústria alimentar, na sua maioria está a realizar.

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