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Entrevista
Ansiedade escolar é normal em doses moderadas
Por: Tânia Mimoso, especialista em Psicopedagogia
Ansiedade escolar é normal em doses moderadas
Sentir ansiedade é normal. Todas as emoções acabam por ser úteis e necessárias nas doses certas, o que significa que a ansiedade é benéfica em doses moderadas. Contudo, pode tornar-se excessiva, nomeadamente nas crianças, nos períodos que antecedem os testes de avaliação, prejudicando o desempenho e a Saúde dos mais jovens. Enquanto pai ou mãe, existem medidas que pode adotar para ajudar os seus filhos a lidar com o stress escolar. A psicopedagoga Tânia Mimoso explica a linha que separa a ansiedade normal da ansiedade patológica e deixa-lhe algumas dicas que o vão ajudar a lidar com este problema, quando o regresso às aulas se aproxima.

 

Vital Health (VH) | Como se define a ansiedade?
Tânia Mimoso (TM) | A ansiedade é uma reação normal do organismo e funciona como protetora face a ameaças, situações de perigo ou perante o desconhecido. Apresenta-se como um recurso que utilizamos para a nossa boa adaptação, tanto como um ser individual como em relação ao meio ambiente. Existem indicações e evidências de que a ansiedade é parte biológica, parte cognitiva e parte relacionada com o meio em que se vive.

 

VH | Como se distingue a ansiedade normal da ansiedade patológica?
TM | A ansiedade nas crianças é bastante comum. No entanto, trata-se de uma reação protetora face a ameaças ou a situações de perigo, desde que não seja excessiva. A ansiedade é normal sempre que mantém a criança funcional e se apresenta como um estado temporário, uma sensação gerada em reação a situações específicas. A partir do momento em que se perde o controlo e a intensidade aumenta significativamente, a ansiedade torna-se um estado constante que deixa de permitir que a criança se mantenha funcional, em harmonia. Clinicamente, a ansiedade passa a ser patológica quando é exagerada, desproporcional em relação ao estímulo, ou qualitativamente diversa do que se observa como norma em determinada faixa etária. Por outro lado, também tem interferência com a qualidade de vida, o conforto emocional ou o desempenho diário do indivíduo.

 

VH | Quais os sinais de ansiedade que a criança começa a manifestar?
TM | A ansiedade nas crianças manifesta-se pela insegurança, perceção de incompetência face aos colegas e pares, baixa autoestima e inibição na realização das tarefas que lhe são apresentadas. Nalguns casos, surge sob a forma da resposta agressiva. Na generalidade, denotam-se padrões de comportamento desajustados. Podemos observar alguns sintomas como dores de barriga, dores de cabeça, vómitos, mãos suadas, palpitações, medo, preocupação e pesadelos.

 

VH | A ansiedade pode afetar o desempenho escolar da criança?
TM | Pode. A ansiedade em situações de avaliação está diretamente relacionada, de forma negativa, com a baixa autoestima e com o autoconceito, metacognições sobre a falta de habilidades, medo de poder ser avaliado pelos outros de forma negativa, dificuldades em focalizar a atenção, distorções cognitivas, faz com que se evite a tarefa, pouca orientação para os objetivos e ainda técnicas incorretas de estudo.
O desempenho escolar é tanto mais afetado, quando existe pouca orientação para os objetivos e perfeccionismo desadaptativo. Contrariamente, um autoconceito mais elevado, boas crenças de si, um suporte mais ativo por parte dos colegas de estudo, podem estar na base de menor ansiedade às situações de avaliação e, consequentemente, obtenção de melhores resultados.
Em resumo, quando a ansiedade é excessiva interfere negativamente no desempenho escolar. No entanto, os níveis de ansiedade muito baixos também não são positivos, porque podem fazer com que a criança fique pouco reativa, no sentido de atribuir pouca importância, por exemplo, a um instrumento de avaliação que vai ser aplicado. O ideal é existir uma ansiedade moderada, pois, neste caso, torna-se bastante funcional.

 

VH | Que medidas os pais devem adotar para ajudar os seus filhos a lidar com o stress escolar?
TM | Mais do que se falar de uma causa da ansiedade, é mais legítimo olharmos para aquilo que mantém as crianças ansiosas. As famílias, os professores e o meio em que a criança vive têm um papel importante, tanto em manter a ansiedade indesejada quanto na sua redução.
Uma forma de identificar um caso de ansiedade é observar o que a criança evita, uma vez que o medo torna-se a justificação para não realizar alguma atividade ou tarefa. A questão que se deve colocar é: “a criança está a evitar alguma coisa?”.

 

Há várias medidas que os pais podem adotar:
– Tranquilizar a criança, tanto quanto possível, adotando uma atitude firme que transpareça segurança;
– Não se deve ignorar a situação. Deve conversar-se com a criança calmamente, tentar compreendê-la e evitar julgá-la para que se sinta mais confiante para enfrentar os seus medos;
– Tendo em conta a sua idade, explicar à criança que todos nós nos sentimos mais assustados, por vezes, mas que podemos ultrapassar essas situações e que existe um motivo para sentirmos preocupação;
– Ensinar a criança a sentir-se mais tranquila - por exemplo, pensar em coisas boas, ouvir uma música, respirar fundo;
– Ajudar a criança a identificar e nomear sentimentos;
– Tentar elogiá-la o maior número de vezes possível, mesmo que a tarefa que conclua não tenha sido completamente bem-sucedida – usar o reforço positivo;
– Em casa, atribuir-lhe pequenas responsabilidades e pedir a sua ajuda para que se sinta mais útil e confiante – incentivar a autonomia;
– Acompanhar a criança no seu adormecer – ler uma história para que adormeça mais tranquila;
– Ajudá-la a pensar em soluções perante os problemas (perguntar qual o seu objetivo, opções e consequências).

 

VH | Que consequências o excesso de ansiedade pode causar nas crianças?
TM | O excesso de ansiedade pode ser considerado como a ansiedade patológica, o que prejudica a Saúde e a noção da realidade. Além de ter consequências na capacidade de realização da sua vida, pode levar a ter insónias, dores de estômago, por exemplo, e na escola acontece a famosa “branca” na altura de responder às questões do teste.
Quando a energia produzida pela ansiedade não é utilizada na realização de uma ação, o desequilíbrio instala-se. A energia criada pelo sinal dado através da ansiedade existe e precisa de ser gasta em alguma ação. A  mente procura regular esse desequilíbrio e é obrigada a criar válvulas artificiais de escape, para drenar o excesso de energia acumulada. A mais comum delas é a ação de comer compulsivamente. Assim, outras consequências são os vícios e distúrbios psicológicos compulsivos (intimamente ligados ao excesso de ansiedade) e que são formas de dar vazão a esse desequilíbrio energético.

 

VH | Há mais algum assunto que queira destacar?
TM | A ansiedade é uma coisa normal. Todas as emoções acabam por ser úteis e necessárias nas doses certas, o que significa que a ansiedade é benéfica em doses moderadas. Se o que se pretende é ter pessoas determinadas, comprometidas, confiantes e bem-sucedidas, não podemos criar crianças medrosas e preocupadas. É importante estar atento às questões de ansiedade porque, por vezes, passam despercebidas e, outras vezes, não lhe é dada a devida atenção. Mas, se nada for feito, o problema vai aparecer depois. Crianças ansiosas têm uma maior probabilidade de sofrer de transtornos de ansiedade, maior probabilidade de desenvolver depressão, abuso de substâncias e suicídio na idade adulta. Se estas crianças tiverem um acompanhamento devido, podem reduzir esses problemas em adultos.

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