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Entrevista
Dia Mundial da Saúde Sexual: miomas uterinos afetam mais de dois milhões de portuguesas
Por: Filipa Osório, ginecologista-obstetra do Centro Hospitalar Lisboa Norte e do Hospital da Luz
Dia Mundial da Saúde Sexual: miomas uterinos afetam mais de dois milhões de portuguesas
Existe uma patologia ginecológica que afeta mais de dois milhões de mulheres em Portugal e que tem um grande impacto na sua qualidade de vida, mas que pode, principalmente no período de férias e calor, afetar a mulher, a sua vida social e sexual: falamos dos miomas uterinos. No âmbito do Dia Mundial da Saúde Sexual que se assinalou na passada segunda-feira, dia 4 de setembro, a ginecologista-obstetra Filipa Osório esclarece quais as principais causas, manifestações e consequências da doença.

 

Vital Health (VH) | Os miomas uterinos afetam mais de 2 milhões de mulheres em Portugal. Em que é consiste o mioma uterino e de que forma se traduz no dia-a-dia das mulheres? 

Filipa Osório (FO) | Os miomas uterinos são o tumor benigno mais frequente na mulher e correspondem a uma massa que tem origem no músculo uterino e que se desenvolve por questões hormonais. Pode interferir no dia-a-dia da mulher na medida em que se pode manifestar por sangramento (hemorragia) abundante durante ou fora do período menstrual, dor e peso pélvico ou, mais raramente, pode associar-se a infertilidade. Os sintomas dos miomas uterinos diferem dependendo da sua localização: podem ser submucosos (crescem na cavidade do útero), intramurais (dentro da parede do útero) ou subserosos (crescem para fora do útero).

 

VH | Quais as faixas etárias mais afetadas pela doença e que riscos é que ela apresenta para uma mulher que queira engravidar?

 FO | São mais frequentes depois dos 40 anos, encontrando-se em 70-80% das mulheres com 50 anos. A principal razão para o seu aparecimento são as alterações hormonais que decorrem naturalmente nesta idade. Cerca de 20 a 40% das mulheres em idade reprodutiva têm miomas, o que dependendo do número, tamanho e localização dos mesmos pode interferir com uma gravidez. Podem dificultar uma gravidez, ou seja, interferir na implantação do embrião no útero, aumentar o risco de aborto espontâneo, como também estão associados a maior risco de parto pré-termo. No entanto, como cada caso é um caso, é imprescindível que a mulher procure aconselhamento médico.

 

VH | O aparecimento de miomas uterinos está associado a causas específicas ou a fatores genéticos que propiciem o seu crescimento? 

FO | Existe uma predisposição genética, verificando-se um aumento do risco de desenvolver miomas uterinos, havendo familiares do 1.º grau com miomas. Outros fatores como obesidade, origem étnica (as mulheres negras têm uma maior probabilidade de desenvolverem miomas uterinos), dieta (ingestão de carnes vermelhas café, álcool) e tensão arterial alta também parecem estar associados a um aumento do risco, pelo que se aconselham hábitos de vida saudáveis.

 

VH | Em média, as mulheres portuguesas demoram um ano a procurar a ajuda de um especialista. Na sua opinião, a que se deve este facto? Que sintomas não devem as mulheres descurar? 

FO | Qualquer mulher deve fazer vigilância ginecológica regular para despiste deste e de outros problemas. A demora talvez se possa dever ao facto das mulheres descurarem alguns sintomas iniciais que possam ter, sendo que acabam por procurar um especialista com o seu agravamento. Especificamente relacionados com miomas, a existência de dor, hemorragias abundantes e peso pélvico, bem como aumento do volume abdominal são motivos para procurar ajuda.

 

VH | Os sintomas associados a estes miomas (perdas de sangue abundantes e inchaço da zona pélvica) condicionam a mulher e podem ser especialmente perturbadores nesta época do ano, seja porque a impedem de ir à praia ou porque condicionam a roupa que veste. Para além de um maior desconforto, existe alguma relação entre o calor e uma maior prevalência desta patologia?

FO | O calor pode associar-se a maior desconforto, hemorragias abundantes e aumento do risco de sensação de desmaio, mas não aumenta a existência de miomas uterinos. 

 

VH | Existe algum tipo de prevenção que possa ser feita para controlar esta patologia?

FO | Além de adotar estilos de vida saudáveis, evitando a obesidade e a hipertensão bem como determinados hábitos alimentares, aconselha-se uma vigilância ginecológica regular para detetar precocemente a existência de miomas. Em determinadas situações pode optar-se por uma pílula para diminuir as perdas de sangue e, em casos selecionados, pode optar-se por ciclos de tratamento que permitem a redução do volume dos miomas bem como no controlo das hemorragias. Em último caso, pode recorrer-se à cirurgia para remoção dos miomas ou do útero, dependendo do desejo de fertilidade da mulher.

 

VH | A Sociedade Portuguesa de Ginecologia (SPG) apresentou este ano, no 21º Congresso de Obstetrícia e Ginecologia, vários progressos para o tratamento de miomas uterinos. Entre essas soluções alternativas estão a miólise, foco ultrassons, oclusão da artéria uterina por via vaginal e laqueação das artérias uterinas por via laparoscópica. Em que é que consistem estes tratamentos e que vantagens apresentam relativamente à histerectomia?

FO | São diferentes possibilidades que permitem tentar diminuir o volume dos miomas, reduzindo a sua vascularização ou destruindo as células do mioma. Algumas destas técnicas estão ainda em investigação e são ainda pouco utilizadas. São técnicas que permitem a conservação do útero, mas não devem ser utilizadas por mulheres que ainda pretendem engravidar.

 

VH | Para além dos tratamentos já referidos, existem medicamentos que permitem controlar os sintomas e o desenvolvimento do mioma? 

FO | Para controlar os sintomas, nomeadamente as hemorragias, podemos recorrer a um tratamento medicamentoso. Se quisermos atuar sobre o volume do mioma e a hemorragia temos a possibilidade de usar o acetato de ulipristal - o único tratamento médico, não invasivo e muito bem tolerado - ou os análogos da GnRH, sendo este um medicamento injetável e com efeitos secundários mais marcados.

 

VH | Os miomas uterinos podem condicionar a vida sexual da mulher?

FO | Sim, na medida em que podem estar associados a hemorragias, dor e desconforto pélvico.

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