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Entrevista
Todos os anos surgem cerca de 900 novos casos de melanoma
Por: Ana Raimundo, coordenadora da Oncologia Médica do Instituto CUF de Oncologia, no Hospital CUF Infante Santo
Todos os anos surgem cerca de 900 novos casos de melanoma
O melanoma é o tipo de cancro cutâneo mais grave, sendo responsável por aproximadamente 80% das mortes por cancro da pele. Apesar da diversidade de campanhas de sensibilização que todos os anos inundam o verão, o risco de exposição aos raios ultravioleta tem aumentado, “devido às alterações das características da nossa atmosfera, num ritmo mais acelerado que a mudança de hábitos da população”. O Vital Health esteve à conversa com Ana Raimundo, coordenadora da Oncologia Médica do Instituto CUF de Oncologia no Hospital CUF Infante Santo, sobre a importância de cada um conhecer a sua própria pele e a necessidade de a proteger do sol.

 

Vital Health (VH) | Portugal oferece um clima mediterrânico e vários quilómetros de costa. As férias à beira mar são prática comum entre as famílias portuguesas, com a constante companhia do sol. Este facto faz com que exista um maior perigo para a população portuguesa relativamente ao cancro de pele?
Ana Raimundo (AR) | Poderá existir um maior risco para o desenvolvimento de tumores da pele se a população mantiver comportamentos de risco associadas à exposição solar. O melanoma é um dos tipos de cancro cutâneo mais grave, sendo responsável aproximadamente por 80% das mortes por cancro da pele. Todos os anos, são diagnosticados cerca de 1.000 novos casos. A sua incidência tem aumentado, o que significa que as pessoas ainda não estão totalmente conscientes do perigo da exposição à radiação ultravioleta.

 

O facto do nosso país ter um clima convidativo e proporcionar férias à beira mar, deve servir como argumento de reforço na prevenção e sensibilização da população portuguesa. Ou seja, as pessoas devem estar conscientes de que o problema não está na exposição ao sol, (que quando progressiva e com proteção adequada, poder ter vantagens clínicas), mas sim numa exposição solar exagerada ou inadequada, acompanhada de comportamentos de risco, como apanhar sol nas horas de maior calor e de intensidade de radiações ultravioleta (entre as 11h00 e as 16h00) ou não usar creme protetor. Nestas condições, qualquer família portuguesa, que deseja desfrutar de umas férias na praia e que não tome as devidas precauções, está a colocar-se numa situação de risco.

 

VH | Diz-se que células da pele têm uma espécie de memória. Isto significa que um “escaldão” pode produzir efeitos a longo prazo?
AR | A pele é constituída pelas camadas epiderme, derme e hipoderme. As suas células têm uma certa “memória” e acumulam alterações resultantes de agressões (como as queimaduras solares). A queimadura solar, conhecida como “escaldão”, ocorre devido a uma exposição solar intensa e prolongada, sem qualquer tipo de proteção. As células “recordam-se” das queimaduras que sofreram e “somam” os efeitos, podendo a longo prazo vir a resultar no desenvolvimento de cancro da pele / melanoma.

 

VH | O melanoma maligno é o tipo de cancro de pele mais grave e é responsável pela grande maioria das mortes relacionadas com a doença. No entanto, representa apenas 4,5% de todos os cancros da pele. Que outros tipos de cancro de pele são mais frequentes em Portugal?
AR | O melanoma é, de facto, o tipo de tumor menos frequente, embora mais perigoso, pelo facto de por surgir em qualquer idade, género e espalhar-se rapidamente por outras partes do corpo. Existem, no entanto, mais três tipos de cancro de pele a considerar:

 

  • o carcinoma basocelular, que, em oposição ao melanoma, é a forma mais comum de cancro de pele, mas também a menos perigosa. Surge, geralmente, como uma protuberância saliente e colorida ou como uma ferida que não cicatriza e adquire, progressivamente, uma superfície rugosa;

 

  • as queratoses actínicas, lesões pré-cancerosas em 10 a 15% dos casos, que podem evoluir para carcinomas espinocelulares, pelo que implicam tratamento para travar progresso. Por norma, aparecem em forma de mancha em indivíduos de meia-idade e idosos, em áreas do corpo mais expostas ao sol, como rosto, pescoço, orelhas, costas das mãos e couro cabeludo;

 

  • o carcinoma de células escamosas, a segunda forma mais comum de cancro da pele, que se desenvolve em áreas da pele muito expostas ao sol, como a face e o couro cabeludo. Frequentemente, aparece como uma superfície elevada, como uma crosta, que pode crescer rapidamente e tornar-se ulcerada. É também o tipo de cancro que se pode espalhar rapidamente em pacientes imunossuprimidos.

 

VH | Centrando-nos agora no melanoma, como é que se caracteriza esta doença? Quais são as causas e de que forma é que se desenvolve no organismo?
AR | O melanoma é um tumor muito agressivo se não diagnosticado precocemente. Trata-se de um tumor resultante da transformação maligna das células chamadas melanócitos, que existem na camada profunda da epiderme. O melanoma afeta, sobretudo, a população adulta (por volta dos 50 anos), afeta ambos os géneros e tem maior incidência na população com fotótipos baixos.

 

O melanoma pode surgir como um sinal na pele, com uma pigmentação escura, que cria uma espécie de crosta, tornando-se dura e que cresce com contornos irregulares. Com o seu desenvolvimento, a doença pode apresentar certos sintomas, entre os quais o sangramento, a ausência de cicatrização e a comichão numa área avermelhada e inchada. Às vezes, pode apresentar-se como um nódulo não pigmentado (melanoma amelanótico).

 

As causas exatas para o aparecimento do melanoma não estão totalmente estabelecidas. No entanto, há fatores que promovem o surgimento do melanoma, tais como: a exposição solar exagerada e inadequada ao longo da vida, o tipo de pele (pessoas com pele clara e olhos claros são mais sensíveis) e presença de sardas, o número de sinais do corpo (o número elevado de nevos no corpo e com sinais de atipia aumentam o risco de desenvolver melanoma), a idade (o risco aumenta com a idade, mas é dos cancros mais comuns em pessoas com menos de 30 anos), fatores genéticos (há mutações genéticas que podem predispor o desenvolvimento de melanoma) e histórico familiar (cerca de 10% dos doentes com melanoma têm casos na família). 
 

 

VH | Dados disponíveis revelam que a incidência deste tipo de cancro de pele tem aumentado de forma rápida e consistente ao longo dos últimos 30/40 anos, o que é paradoxal: este período coincide também com uma maior sensibilização e conhecimento geral sobre os perigos da radiação solar. Este facto está relacionado com os hábitos das pessoas, ou seja, há uma exposição solar mais desprotegida ou tem também a ver com a própria radiação solar?
AR | Hoje em dia, com a evolução tecnológica e a acelerada distribuição de informação, tem se vindo a verificar um aumento dos cuidados que a população tem em relação ao sol. Contudo, ainda existe alguma negligência, principalmente, em momentos de lazer e de férias. 

 

Porém, não se pode ignorar que as condições atmosféricas estão cada vez mais agressivas e que os raios solares penetram mais facilmente na camada de Ozono, o que resulta numa maior intensidade dos raios UV e um maior perigo para a pele.

 

O aumento da incidência de melanoma resulta assim de uma conjugação de vários fatores.

 

VH | Existem horas do dia mais perigosas para provocar melanomas? E relativamente às faixas etárias?
AR | Uma das principais regras de prevenção do cancro da pele é, exatamente, evitar a exposição solar nas horas de maior calor (entre as 11h00 e as 16h00), pois é quando o sol está mais forte e torna-nos mais vulneráveis aos raios ultravioleta. É também importante evitar estar mais de 3 horas consecutivas na praia. No que toca à idade, todas as pessoas, independentemente da sua idade, são suscetíveis aos perigos do sol, sendo as crianças no entanto mais vulneráveis. Devem ser sempre acutelados alguns cuidados, como o creme protetor, os óculos de sol e o chapéu, a hidratação, procurar as sombras e escolher roupas leves. Não esquecer um especial cuidados com as crianças.

 

VH | O tipo e o tom de pele podem influenciar a probabilidade de uma pessoa desenvolver cancro de pele e, nomeadamente o melanoma, ou todas as pessoas devem preocupar-se efetivamente com esta doença, independentemente do seu tom de pele?
AR | Todas as pessoas devem tomar precauções, mesmo as que apresentam um tom de pele mais escuro ou maior facilidade em bronzear. No entanto, pessoas com pele e olhos claros, com muitos sinais ou sardas, e cabelo loiro ou ruivo necessitam de ter um cuidado redobrado, uma vez que o seu tom é mais propenso a apanhar “escaldões” e a prejudicar gravemente a saúde da sua pele. A ideia de que uma pele escura e / ou bronzeada não precisa de proteção é um mito.

 

VH | Quais são os sinais de surgimento de melanoma que não devem ser ignorados?
AR | As pessoas devem conhecer a sua própria pele, olhando regularmente para ela, embora sem ansiedades. Um autoexame, de dois em dois meses, de toda a pele é suficiente, observando os seus sinais, manchas ou nódulos, com particular atenção ao crescimento rápido, contornos irregulares ou alterações da cor. Nas zonas em que a sua visão é limitada, como por exemplo as costas, devem pedir a alguém que o faça por si ou utilizar um espelho. O que é mais importante detetar: alterações de tamanho, cor e forma; se um sinal é diferente dos outros (quando tem vários sinais); se tem várias cores ou são ásperos; se surge comichão, hemorragia ou saída de líquido, ou se deteta alguma uma ferida que não cicatriza.

 

VH | Um estudo da Faculdade de Medicina do Porto, divulgado recentemente, mostra que níveis elevados de gordura corporal favorecem o crescimento das células cancerígenas e tornam melanomas mais resistentes à radioterapia. Por que motivo isto acontece?
AR | Tendo em conta que diversos estudos sobre esta matéria ainda estão em curso, parece que na presença de obesidade, as células cancerígenas entram em contato com moléculas produzidas pelo tecido adiposo (ou gordura), favorecendo o seu rápido crescimento e multiplicação. Parece que estas células morrem menos e são mais resistentes à radioterapia. A exposição do melanoma à gordura favorece que as células do melanoma migrem para outras partes do corpo e se alojem na superfície de outros órgãos.

 

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