FacebookTwitterYoutubeInstagramWhatsapp

Entrevista
Hiperplasia Benigna da Próstata: um nome desconhecido para uma doença comum
Por: Ricardo Pereira e Silva, médico urologista e assistente hospitalar do Serviço de Urologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte
Hiperplasia Benigna da Próstata: um nome desconhecido para uma doença comum
“Estima-se que mais de metade dos homens portugueses desconheçam a existência da doença e a confundam, na maioria dos casos, com cancro da próstata”. Falamos da Hiperplasia Benigna da Próstata (HBP), uma patologia mais frequente que o cancro da próstata e que condiciona o dia-a-dia dos doentes.  A propósito do Dia Europeu das Doenças da Próstata, que se assinalou a 15 de setembro, o Vital Health esteve à conversa com Ricardo Pereira e Silva, médico urologista, sobre as causas e consequências desta doença.

 

Vital Health (VH) | Embora o nome Hiperplasia Benigna da Próstata (HBP) seja desconhecido para a maioria da população, a verdade é que falamos de uma patologia com mais incidência que o cancro da próstata. Que doença é esta e que retrato é possível fazer da sua incidência a nível nacional e mundial?

Ricardo Pereira e Silva (RPS) | A Hiperplasia Benigna da Próstata é uma das doenças benignas mais comuns nos homens e que pode conduzir ao aumento benigno do volume da próstata, obstrução do aparelho urinário e/ou sintomas do trato urinário inferior (LUTS).A próstata é uma glândula que desempenha funções importantes para a fertilidade masculina e que se localiza por baixo da bexiga, envolvendo a uretra. Quando aumenta de volume, pode estreitar gradualmente a uretra dificultando o fluxo de urina. Esta é uma patologia muito relacionada com o envelhecimento, sendo uma das doenças mais comuns no homem a partir dos 50 anos. A sua incidência aumenta com a idade, atingindo o pico por volta dos 80-90 anos. 

 

VH | Apesar de ser uma doença benigna, a HBP tem um forte impacto na qualidade de vida dos doentes. De que forma esta patologia condiciona o dia-a-dia dos homens?

RPS | A interrupção frequente do sono para ir três ou quatro vezes à casa de banho, que se torna menos descansado e retemperador, ou a necessidade de ter sempre uma casa de banho por perto e de interromper as atividades quotidianas para urinar podem ser extremamente perturbadoras e incapacitantes ao provocar estados de ansiedade/depressão e obrigarem o doente a mudar o modo de vida para enfrentar os sintomas urinários. Mais de 50% dos doentes com sintomas do trato urinário inferior (LUTS) por HBP afirmam que esses sintomas afetam consideravelmente a qualidade de vida, já que perturbam o seu bem-estar, a sua vida pessoal, profissional e social. Contudo, muitas vezes, são considerados erradamente pelos próprios como sintomas normais do envelhecimento.

 

VH | De uma forma geral, a partir de que idade começam a manifestar-se os efeitos da doença? Que faixas etárias são mais afetadas?

RPS | A Hiperplasia Benigna da Próstata é uma doença que se manifesta normalmente em homens com mais de 40 anos e a sua prevalência aumenta progressivamente com a idade. Em Portugal esta doença afeta 70% dos homens com mais de 65 anos, 80% dos homens entre os 70 e os 80 anos e quase todos com mais de 90 anos.Estima-se ainda que mais de metade dos homens portugueses desconhecam a existência da doença e a confundam, na maioria dos casos, com cancro da próstata.

 

VH | Não se conhecem causas exatas que estejam da origem da HBP, daí não existirem formas de a prevenir. No entanto é possível apontar fatores genéticos ou comportamentais que contribuam para o desenvolvimento da doença?

RPS | As causas da HBP ainda são desconhecidas, embora pareça estar relacionada com alterações nas hormonas sexuais que ocorrem com o envelhecimento – a testosterona, formada nos testículos, e a dihidrotestosterona, formada na próstata a partir da testosterona. A idade é o fator de risco mais bem identificado para esta condição, contudo a existência de um histórico familiar também pode ser determinante.Fatores como a obesidade, hipertensão arterial, diabetes, níveis reduzidos de HDL (o colesterol "bom") e doença arterial periférica parecem aumentar o risco de desenvolvimento de hiperplasia da próstata, do mesmo modo que o sedentarismo, tabagismo e uma dieta inadequada também podem ter influência.

 

VH | Quais são os sintomas mais frequentes? 

RPS | Os sintomas da hiperplasia benigna da próstata resultam não só o obstáculo ao fluxo urinário como consequência do aumento de volume da próstata, mas também da disfunção da bexiga que pode coexistir. Os doentes queixam-se de jato urinário fraco, dificuldade em iniciar a micção, idas demasiado frequentes à casa de banho, urgência urinária (vontade súbita de urinar, por vezes com perda involuntária de urina) e necessidade de acordar durante a noite para urinar. Numa fase mais avançada, a bexiga pode encher-se em excesso, provocando incontinência urinária.

 

VH | Uma vez que se trata de um assunto delicado, sobre o qual o homem pode não estar suficientemente informado ou mesmo ter vergonha de falar, considera que os profissionais de Medicina Geral e Familiar desempenham um papel importante no despiste desta patologia?

RPS | Incrivelmente, cada vez mais os homens preocupam-se com a sua saúde e procuram a ajuda de um urologista para avaliar se sofrem de algum problema deste foro. O mais importante é que seja feito um diagnóstico precoce, mediante consulta médica e testes laboratoriais, que permitirá uma intervenção terapêutica mais precoce e, por isso, mais eficaz. Numa primeira fase, o diagnóstico começa pela história clínica e por observação médica que pode ser feito através de uma análise sanguínea, o PSA, bem como do toque retal (palpação da próstata pelo urologista que permite avaliar a dimensão e textura da próstata). Noutros casos, poderá ser útil realizar um exame endoscópico através da uretra.

 

VH | Apesar de não existir forma de prevenir o aparecimento da doença, é possível melhorar os sintomas. Que técnicas possui atualmente a Medicina para melhorar a qualidade de vida destes doentes? Quais são as opções terapêuticas?

RPS| O objetivo do tratamento é a melhoria dos LUTS e da qualidade de vida do doente, bem como prevenir complicações relacionadas com a HBP. Existem atualmente terapêuticas farmacológicas e cirúrgicas, capazes de relaxar os músculos da bexiga e assim reduzir as dimensões da próstata após alguns meses de tratamento. Existem também medicamentos que atuam sobre o volume da próstata, permitindo um importante alívio dos sintomas e adiando a necessidade de cirurgia.Contudo, numa percentagem significativa de doentes os sintomas de armazenamento, que têm um grande impacto na sua qualidade de vida, persistem após o tratamento de 1ª linha, podendo exigir tratamento específico.Quando os doentes não respondem de forma satisfatória ou desenvolvem complicações (como retenção urinária, levando a algaliação urgente), a cirurgia poderá ser a melhor opção, que na maioria dos casos pode ser efetuada de forma minimamente invasiva, através da uretra (resseção transuretral da próstata).

PUBLICIDADE

Por vezes mais é menos

Por vezes mais é menos

© 2017 Vital Health | Todos os direitos reservados | Designed by IPSPOT_ and Developed by Webview