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Entrevista
Obesidade: como combater este flagelo nacional?
Por: Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade
Obesidade: como combater este flagelo nacional?
No âmbito do Dia Mundial da Alimentação, que se assinala a 16 de outubro, e do Dia Mundial da Obesidade, que se assinalou na semana passada, dia 11 de outubro, o Vital Health conversou com Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade. Nesta entrevista, a especialista traça o panorama de uma doença que afeta perto de um milhão de portugueses. Números alarmantes que atingem também a população infantil: 12,7% das crianças entre os dois e os 10 anos são obesas.

 

Vital Health (VH) | Em Portugal, quase metade da população apresenta excesso de peso e perto de um milhão de adultos sofre de obesidade. Que razões estão subjacentes a estes números alarmantes?Vital Health Paula Freitas (PF) | De facto, os números da pré obesidade e obesidade são alarmantes em Portugal. A obesidade e o excesso de peso são doenças crónicas e complexas, em que múltiplos fatores podem atuar de forma sinérgica para os explicar. Temos desde os fatores individuais, em que a ingestão energética é muito superior ao dispêndio energético. Ou seja, má prática alimentar associada ao sedentarismo. Mas a obesidade vai muito para além daquilo que são os comportamentos individuais do indivíduo. De um ponto de vista mais global, a obesidade está associada a problemas genéticos, psicológicos, fármacos, disruptores endócrinos, problemas da sociedade (disponibilidade alimentar, publicidade, meios de comunicação social, arquitetura e segurança das cidades), políticas de saúde, entre muitos outros.

 

No entanto, temos de sublinhar que apenas de 5 a 10 % das causas de obesidade são devido a problemas genéticos e a doenças endócrinas. A maior parte dos casos, trata-se de obesidade exógena, que tem a ver com os comportamentos em termos de estilo de vida. Outro problema é a obesidade infantil. De acordo com um estudo recente da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil (APCOI), 28,5% das crianças em Portugal entre os dois e os 10 anos têm excesso de peso e 12,7% são obesas.

 

VH | O que leva a que a obesidade infantil atinja números tão preocupantes? E o que pode ser feito para combater este problema desde a infância?

PF | Eu diria que os mesmos fatores que estão associadas à obesidade do adulto, mas provavelmente na criança os grandes determinantes (excetuando as causas genéticas e endócrinas, que são raras) são a má alimentação e o sedentarismo. O enorme número de horas despendidas a ver televisão, a jogar videojogos, no computador, etc. Existem já vários programas de combate à obesidade infantil, mas deve-se apostar mais na educação para a saúde, desde muito cedo. As crianças normalmente são mais recetivas à mudança. O combate à obesidade infantil tem, obviamente, de envolver a escola, os professores e o mais determinante é, seguramente, a educação dos pais.

 

VH | Que tipo de limitações poderá enfrentar um doente com obesidade ao nível das alterações/limitações do estilo de vida?

PF | O doente com obesidade tem de se rodear de estratégias para o empenho na mudança comportamental e na promoção de um estilo de vida saudável. Ora, isto também requer o empenho dos profissionais de saúde. Estes doentes deveriam ter acesso nos cuidados primários a consultas dirigidas ao tratamento da obesidade ou prevenção da obesidade ou prevenção da progressão para obesidade naqueles com pré-obesidade. Como doença complexa que é, é necessária uma equipa multidisciplinar que inclua o médico, o nutricionista, o psicólogo e também o fisiologista do exercício físico. Uma das grandes barreiras que o doente com obesidade enfrenta é que muitas vezes os profissionais de saúde, até por limitação de tempo, tratam todas as outras doenças, inclusivamente aquelas que já são consequência da obesidade, mas não abordam o problema da obesidade.

 

E, muitas vezes, o doente também não aborda espontaneamente com o médico de família o problema da obesidade. Outras barreiras são o facto de o doente não ter objetivos e expectativas realistas. Ou seja, as pessoas julgam que vão fazer uma intervenção alimentar ou de exercício físico num espaço de tempo relativamente curto e que o problema da obesidade desaparece. E a realidade não é esta: a intervenção em termos de educação alimentar e prática de exercício físico são para toda a vida, numa perspetiva de ter uma vida longa e livre de doenças.

 

VH| Considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma epidemia, a obesidade afeta a longevidade e a qualidade de vida. Que medidas podem (e devem) ser adotadas para prevenir e combater a obesidade?PF | Como já abordei, temos de implementar estratégias de prevenção primária, ou seja, dirigidas a toda a população, quer com excesso de peso ou não, de modo a fazer uma educação para a saúde a longo prazo, com enfâse na alimentação equilibrada e na prática regular de exercício físico. Temos de ter programas de prevenção secundária, ou seja, para aqueles já com pré obesidade e em risco de progressão para obesidade e outros programas para as formas mais graves de obesidade. Por outro lado, temos de disponibilizar tratamentos que incluam modificação comportamental, dieta, exercício e terapêutica farmacológica para aqueles doentes já com obesidade ou pré obesidade e com comorbilidades, como a diabetes, hipertensão arterial, apneia do sono, artroses, etc. Também temos de disponibilizar em tempo útil tratamentos de cirurgia bariátrica ou metabólica para aqueles doentes já com formas mais graves da doença.

 

VH | A Medicina revoluciona-se diariamente. Existe alguma descoberta recente que queira partilhar como sinal de esperança para quem convive diariamente com esta doença?

PF | Recentemente foi introduzido no mercado português um fármaco para tratamento da obesidade: o liraglutido. Mas temos de sublinhar que, além do fármaco, os doentes têm de modificar o seu comportamento, têm de fazer dieta e exercício físico. Este novo fármaco é um análogo de uma hormona humana que é libertada em resposta à ingestão de alimentos pelas células intestinais e atua no sistema nervoso central na regulação do apetite, fazendo com que a sensação de fome diminua, aumentando a sensação de satisfação e de saciedade após a ingestão de alimentos. Estudos realizados mostram também resultados positivos na manutenção do peso perdido, ou seja, menor probabilidade de recuperar o peso, mesmo quando há cessação do fármaco, e um impacto significativamente positivo na saúde e na qualidade de vida.

 

Nos ensaios clínicos, o fármaco associado a uma dieta baixa em calorias e exercício físico mostrou que, em média, as pessoas perderam 9,2% do seu peso corporal. Além disso, com a perda de peso, os doentes conseguiram também melhorias metabólicas (como por exemplo na diabetes tipo 2, na dislipidemia e na hipertensão), cardiovasculares e na apneia obstrutiva do sono, comorbilidades que ocorrem devido a obesidade.

 

VH | Qual o papel dos profissionais no combate à obesidade, nomeadamente no que respeita à educação do doente? 

PF | Todos os profissionais de saúde deveriam ter competências em obesidade, de modo a diagnosticar a doença (o que não é difícil) e a tratar o doente e a doença em todas as suas vertentes. Claro que para um tratamento integrado, o ideal seria ter a equipa multidisciplinar de que falei anteriormente. Mas, para formas mais ligeiras de obesidade, o tratamento deveria ser nos cuidados primários e as formas mais graves e aquelas com necessidade de recurso a cirurgia deveriam ser orientadas para os hospitais com competência no tratamento cirúrgico da obesidade.

 

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