FacebookTwitterYoutubeInstagramWhatsapp

Entrevista
“O Papílomavírus Humano não escolhe géneros nem idades”, por isso, o melhor é vacinar-se
Por: Paula Ambrósio, ginecologista
“O Papílomavírus Humano não escolhe géneros nem idades”, por isso, o melhor é vacinar-se
“Para a maioria das pessoas o papilomavírus humano (HPV) está associado apenas ao cancro do colo do útero e à prevenção em raparigas, no entanto o HPV provoca doenças em ambos os sexos e a prevenção não tem limite de idade”. É para esclarecer este e outros mitos que a Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) tem a decorrer a campanha “Há cancros que podem ser prevenidos”. Até agora desenvolvida maioritariamente em ambiente digital, a campanha vai conhecer no ano que agora começa uma nova fase, para a qual está planeada uma ação de sensibilização, a implementar nas escolas, junto dos adolescentes. O Vital Health falou com Paula Ambrósio, especialista em ginecologia e obstetrícia, que lhe explica como se transmite HPV e a importância da vacina que faz parte do Plano Nacional de Vacinação desde 2008.

 

Vital Health (VH) | “O Papílomavírus Humano (HPV) não escolhe géneros nem idades”: Esta é uma das ideias chave da nova campanha da Liga Portuguesa Contra o Cancro. É possível traçar um retrato da população portuguesa infetada com este vírus?
Paula Ambrósio (PA) | Ao longo da vida, 75% a 80% das mulheres e homens, sexualmente ativos, serão infetados pelo papilomavírus humano (HPV). No entanto, não é possível traçar um retrato desta população pois qualquer pessoa que tenha dado início à sua actividade sexual pode contrair o vírus. Uma vez que o vírus se transmite através de contacto pele com pele, qualquer tipo de contacto sexual pode ser o suficiente para contrair um ou mais tipos de HPV. A grande maioria dos indivíduos acaba por eliminar o vírus, mas em cerca de 10% dos casos a infecção pode tornar-se persistente e causar doenças.

 

VH | Quais são os principais objetivos da campanha?
PA | O objetivo desta campanha é essencialmente permitir um fácil acesso a informação fidedigna sobre as doenças associadas ao HPV, desde as benignas, como as verrugas genitais, até às mais graves, como as lesões que podem evoluir para cancros. Para a maioria das pessoas o HPV está associado apenas ao cancro do colo do útero e à prevenção em raparigas, no entanto o HPV provoca doenças em ambos os sexos e a prevenção não tem limite de idade. Este foi o ponto de partida que deu origem às duas mensagens da campanha: “O Papilomavírus não escolhe idades” e “O Papilomavírus não escolhe sexos”. Conhecer melhor os riscos das infecções a HPV, bem como quem está em risco, permite tomadas de decisão, em consciência, sobre comportamentos de prevenção.

 

VH | Existem mais de 120 tipos diferentes de HPV. De que forma é que este se transmite e quais são as principais doenças a que pode dar origem?
PA | O HPV transmite-se através do contacto directo entre mucosas ou entre a pele e as mucosas, sendo esta transmissão feita por via sexual (genital/genital ou genital/oral). Dependendo do tipo de HPV, de alto ou baixo risco, assim pode ser responsável pelo desenvolvimento de cancros, como o cancro do colo do útero, da vulva, da vagina, do pénis, do ânus e até mesmo alguns tipos de cancros da cabeça e pescoço (no caso dos tipos de alto risco) e de condilomas genitais (no caso dos tipos de baixo risco).

 

VH | Tal como acontece com a maioria das doenças a prevenção é o melhor remédio e outra mensagem desta campanha é “Há Cancros que podem ser prevenidos”. Neste caso, a vacinação contra o HPV permite uma proteção eficaz contra os tipos de vírus. Esta vacinação está abrangida pelo Programa Nacional de Vacinação (PNV) da Direção-Geral da Saúde?
PA | Sim, faz parte do PNV desde 2008, sendo atualmente recomendada aos 10 anos. No entanto, qualquer rapariga até aos 17 anos, que ainda não tenha iniciado o esquema pode ainda beneficiar da vacinação gratuita, bastando para isso dirigir-se ao seu Centro de Saúde. No caso da primeira dose ser administrada até aos 17 anos, as restantes doses podem ser administradas ainda ao abrigo do PNV até aos 26 anos de idade.
A vacina incluída, desde Janeiro de 2017, no PNV protege contra 9 tipos de HPV, 2 tipos de baixo risco (6/11) e 7 tipos de alto risco (16/18/31/33/45/52/58). Na população portuguesa, estudos indicam um potencial de prevenção de 97% dos casos de cancro do colo do útero. Dados na Europa, indicam que 9 em cada 10 cancros anogenitais, associados a estes tipos de HPV, podem ser prevenidos.

 

VH | Que comportamentos de risco devem ser evitados?
PA | Sendo um vírus muito frequente e de elevada transmissibilidade, qualquer pessoa que tenha relações sexuais pode ficar infectada, independentemente do número de parceiros ou da orientação sexual. Não existem propriamente comportamentos de risco quando se fala de HPV. O preservativo é protector em cerca de 70% dos casos, não conferindo uma protecção absoluta mas ainda assim contribui para a diminuição da probabilidade de infecção.

 

VH | Tendo em conta que falamos de um vírus de transmissão sexual, os adolescentes podem ser considerados um grupo de risco, por iniciarem a vida sexual? Qual o papel das escolas na sensibilização para esta temática?
PA | Os adolescentes constituem, mais do que um grupo de risco, um grupo de oportunidade já que, quanto mais cedo for feita a vacinação, maior a probabilidade de se defenderem contra uma infecção que seguramente irão contrair. A maior taxa de infecção ocorre nos primeiros anos após o início da actividade sexual mas o risco de infecção mantém-se durante toda a vida. Atendendo a que a vacinação contra o HPV está implementada no programa nacional de vacinação desde 2008 para as meninas, actualmente o papel das escolas será maioritariamente alertar a população masculina para a existência de uma vacina que é eficaz contra o vírus de transmissão sexual mais frequente e contra o qual o preservativo não é completamente protector.

 

VH | Na maioria das vezes, a infeção pelo vírus não tem qualquer sintoma e mesmo quando a doença já está instalada, poderá ser assintomática. Ainda assim, que sinais é que não devem ser ignorados no sentido de potenciar o diagnóstico precoce das doenças provocadas pelo HPV?
PA | A infeção pelo HPV é silenciosa e, com excepção dos condilomas genitais, que são externos e bastante visíveis, apenas pode ser detectada através da realização de testes de rastreio, como a citologia do colo do útero ou de exames especiais de ginecologia, como a colposcopia. Mesmo nas mulheres vacinadas é essencial manter uma vigilância regular no ginecologista ou médico de família. No caso de estádios mais avançados existem alguns sinais, como a hemorragia vaginal anómala (por exemplo após as relações sexuais ou fora do período menstrual normal) que devem levar a mulher de imediato a procurar o seu médico ou médica assistente.

 

VH | No âmbito da campanha “Há cancros que podem ser prevenidos”, quais são as atividades agendadas para sensibilizar a população para esta temática?
PA | Atualmente a campanha está a decorrer maioritariamente em ambiente digital, com informação no site www.hpv.pt. Existem também folhetos e posters que estão disponíveis em Centros de Saúde ou Hospitais. Vários influenciadores digitais reconheceram o valor da sensibilização para este tema e aliaram-se à campanha para a divulgar nas suas plataformas digitais, abordando o tema das doenças associadas ao HPV e como prevenir a infecção ou diminuir os riscos de progressão para doença grave.
Para 2018, está planeada uma campanha de sensibilização, a implementar nas escolas, junto dos adolescentes.
© 2018 Vital Health | Todos os direitos reservados | Designed by IPSPOT_ and Developed by Webview