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Entrevista
O panorama da morte súbita em Portugal, uma das principais causas de morte no mundo
Por: Miguel Ventura, Cardiologista eletrofisiologista, coordenador do Serviço de Cardiologia da Idealmed – Unidade Hospitalar de Coimbra
O panorama da morte súbita em Portugal, uma das principais causas de morte no mundo
A morte súbita é uma das principais causas de morte no mundo, mas qual o ponto de situação no país? Em entrevista ao Vital Health, Miguel Ventura afirma que, à semelhança da maioria dos países, existe uma grande percentagem de pessoas que morre devido a esta patologia em Portugal. Mas, o cardiologista eletrofisiologista considera que esta situação pode ser alterada, ao se “melhorar o tempo/paragem/choque” e utilizando as “novas tecnologias, como os drones, que “poderão, no futuro, ajudar a melhorar estes tempos de assistência”.

 

Vital Health (VH) | A morte súbita é uma das principais causas de morte no mundo de hoje, apresentando números muito à frente das doenças mais temidas pelas pessoas, como o cancro ou as doenças infetocontagiosas. Qual é o panorama deste evento em Portugal?
Dr. Miguel Ventura (MV) | É semelhante à generalidade dos países desenvolvidos, ou seja, apesar de tudo ainda temos uma grande percentagem de pessoas que morre de morte súbita, na qual não se deteta previamente doença cardíaca, o que poderá ter a ver com, nomeadamente, meios de rastreio pouco eficazes para doenças potencialmente fatais, como seja a doença coronária não obstrutiva.
 
VH | O que se sabe sobre a morte súbita atualmente em termos de causas e modo de prevenção?
MV | A prevenção da morte súbita passa muito pela prevenção da doença coronária e da insuficiência cardíaca, as patologias que são as principais causadoras deste problema.
 
VH | Recentemente, numa sessão convocada pela Comissão Parlamentar da Saúde, João Morais, presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, defendeu que o direito a ser reanimado deve ser encarado como um direito humano inalienável e que para tal é preciso mudar o panorama da morte súbita cardíaca em Portugal. Na sua opinião, em que consiste esta alteração?
MV | A meu ver é muito importante que se adeque o rastreio da doença coronária e que se vá além do rastreio convencional – a típica prova de esforço –, porque muitas vezes não se detetam situações de risco quando elas existem de facto. Por exemplo, podemos prevenir a morte súbita com um rastreio adequado e que detete formas não obstrutivas da doença coronária (não detetáveis no rastreio convencional), porque estas formas não obstrutivas da doença matam tanto ou mais do que a doença coronária obstrutiva. Melhorar o tempo/paragem/choque é crucial e as novas tecnologias, como os drones, poderão no futuro ajudar a melhorar estes tempos de assistência.
 
VH | Na presença de uma pessoa em paragem cardíaca os “4 minutos” são apresentados como a chave para o sucesso. O que deve acontecer durante este tempo?
MV | A primeira coisa a fazer é chamar o Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM). Qualquer cidadão que se depare com uma possível situação de morte súbita, em que vê uma pessoa sentir-se mal, deve ligar para o 112 e relatar o que se está a passar. Perante uma pessoa inconsciente é fundamental saber se estamos na presença de um quadro por paragem cardíaca por fibrilhação ventricular. O ideal seria a comunidade, em determinados locais, estar familiarizada com a necessidade de, não só chamar o INEM, mas também manusear desfibrilhadores automáticos existentes nas proximidades que, muitas vezes, necessitam apenas de ser postos em contato com a vítima e identificar a arritmia com consequente choque, isto tudo de uma forma mais rápida do que a chegada das equipas de emergência do INEM.
 
VH | Na reunião que referi anteriormente, o presidente da SPC alertou para a necessidade de existirem meios disponíveis para socorrer as vítimas: “Podemos estar rodeados de médicos, mas se não temos os meios necessários para socorrer um cidadão perante um episódio de morte súbita, a situação não se vai resolver”. Que meios são essenciais?
MV | É de extrema importância que locais onde há uma grande afluência de pessoas tenham disponíveis nas ruas desfibrilhadores automáticos. Não devemos olhar só para aeroportos e estádios de futebol, é preciso dotar destes aparelhos ruas com grande movimentação e também os espaços onde há maior propensão à instabilização das placas ateroscleróticas (os “apertos” nas artérias coronárias), como sejam os ginásios, onde se pratica atividade física.

 

VH | No caso de não estarem profissionais de Saúde no local, a preparação da população em geral torna-se fundamental. Considera que os portugueses estão preparados para agir na presença de um individuo em paragem cardiorrespiratória?
MV | A maior parte da população não está preparada e também é preciso salientar que ainda que estivessem preparados para agir, a fraca distribuição de desfibrilhadores dificulta muito a possibilidade de salvar uma pessoa em episódio de morte súbita.

 

VH | De que forma é possível otimizar a preparação da população para agir nestas situações?
MV | Como cidadãos devemos estar atentos e em caso de identificarmos que ao nosso lado está uma pessoa que precisa de ajuda devemos ligar o número de emergência – 112 – para descrevermos o que vemos e recebermos indicações sobre como agir. Além de ligar ao INEM, o ideal é que estejamos familiarizados com o conceito de colocação de um desfibrilhador automático externo na vítima, que pode ser o suficiente para a identificação de fibrilhação ventricular e subsequente desfibrilhação. O importante é que existam desfibrilhadores automáticos nas proximidades.

 

VH | Em Portugal, há em vista novos aparelhos para a reanimação das vítimas?
MV | Não, o que existe é a necessidade de dotar o país de maior número de desfibrilhadores externos em locais públicos ou de grande movimento e, eventualmente, tal como vem sendo estudado noutros países, ponderar o uso de novas tecnologias, como drones, para a entrega de desfibrilhadores automáticos de uma forma célere em locais onde estejam vítimas de paragem cardíaca.

 

VH | Que mensagem gostava de partilhar com os portugueses para todos fazermos parte da alteração do panorama da morte súbita cardíaca?
MV | Saliento três pontos importantes:
1. Instruir os portugueses para melhores hábitos de vida, que permitam prevenir a ocorrência da doença coronária não obstrutiva, ainda sobejamente subdiagnosticada na população e causadora de morte súbita em indivíduos “sem aparente doença cardíaca prévia”.
2. Alertar a comunidade médica para a necessidade de um rastreio, em determinados grupos de risco, mais aprofundado de doença coronária não obstrutiva, normalmente não detetada nos testes clássicos. Por outro lado, atualmente, a comunidade médica tem à sua disposição monitorização de longa duração (registadores de eventos implantáveis), acessível de uma forma prática e que permite, em muitas situações duvidosas, o esclarecimento de uma eventual indicação ou não para a implantação de dispositivos que possam prevenir morte súbita como sejam os desfibrilhadores e os pacemakers.
3. Motivar as instituições de saúde e o governo para a necessidade de melhorar os tempos de ressuscitação, quer seja pela disponibilização de maior número de desfibrilhadores automáticos, ou pela adoção de novas tecnologias que permitam acelerar o tempo de reanimação.

 

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