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Entrevista
“Se diagnosticados e tratados precocemente, todos os casos de melanoma poderiam ser curados”
Por: Osvaldo Correia, presidente da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo
“Se diagnosticados e tratados precocemente, todos os casos de melanoma poderiam ser curados”

Hoje, 16 de maio, assinala-se o Dia do Euromelanoma 2018. Em entrevista ao Vital Health, o dermatologista e também presidente da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo (APCC), Osvaldo Correia, destaca a importância de um diagnóstico precoce e dá a conhecer os grupos de risco que devem estar especialmente atentos e procurar com regularidade o dermatologista.

 

Vital Health (VH) | No que consiste o rastreio ao cancro da pele?

Osvaldo Correia (OC) | O “rastreio” habitualmente realizado nestas campanhas de sensibilização e no dia-a-dia do dermatologista consiste na observação completa de toda a pele e unhas na procura de lesões pigmentadas atípicas ou outras lesões de risco ou sugestivas de cancros da pele. A observação é clínica, utilizando-se a dermatoscopia por rotina para ampliação adequada e visualização de estruturas que permitem melhor distinguir os sinais. Quando são lesões que justificam vigilância idealmente é utilizada a dermatoscopia digital computorizada que permite acompanhamento mais rigoroso. Esta metodologia permite evitar cirurgias desnecessárias ou efetuar diagnostico e tratamento mais precoce e adequado de cancros da pele.

 

VH | Existem ainda alguns grupos de risco que devem estar especialmente atentos e procurar com regularidade o dermatologista. Quais?

OC | Existem vários grupos de risco:

a) os de pele clara ou propensa a queimaduras

b) adultos que sofreram queimaduras solares na infância, adolescência ou adultos jovens

c) que estão ou costumavam passar demasiados tempo expostos ao sol

d) expostos a sol intenso e durante períodos curtos de tempo (exemplo: férias, sobretudo tropicais)

e) que frequentaram ou frequentam solários

f) os que têm mais de 50 sinais (nevos) na pele

g) com antecedentes pessoais ou familiares de cancro da pele

h) homens com mais de 50 anos, sobretudo com os antecedentes referidos

i) transplantados de órgãos

 

VH | Quais as novidades mais relevantes no que respeita à terapêutica do melanoma?

OC | No melanoma o principal é o diagnostico e tratamento precoce. Cerca de 2/3 dos melanomas surgem “de novo” o que significa que a lesão aparece habitualmente em pele que teve queimaduras solares previas e surge com 1-2-3-4 milímetros de aspeto habitualmente escuro e/ou irregular na cor, bordo ou forma e tem desenvolvimento ou evolução diferente (a regra do ABCDE). Apenas 1/3 surge de “sinais” ou “nevos atípicos” que se modificam na cor, contorno e dimensão.

Se diagnosticado e tratado precocemente todos os casos de melanoma poderiam ser curados. Se diagnosticados e excisados já numa fase mais avançada podem já ter ou vir a ter metástases. Estas “raízes” ou metástases podem ser ganglionares, mas depois podem se espalhar para qualquer área do corpo. Nesta fase de melanoma metastizado surgiram, nos últimos anos, vários medicamentos que podem, em alguns casos, prolongar a vida por alguns anos numa forma de cancro que, até há pouco tempo, na forma de melanoma metastizado matava em seis a 12 meses, na sua maioria. Hoje dependendo da genética do individuo, da sua imunidade e da genética do próprio tumor, podem ser utilizados tratamentos designados de imunoterapia em imuno-oncologia e moléculas inibidoras das vias de sinalização, como os inibidores BRAK e MEK.

 

VH | Os custos dos tratamentos do cancro da pele realizados nos hospitais públicos, entre 2011 e 2015, atingiram 140 milhões de euros, segundo um estudo da APCC divulgado recentemente. O estudo analisou os custos inerentes aos tratamentos dos cancros realizados em ambulatório e internamento nos hospitais públicos do Continente, que representaram 118 milhões de euros nos “cancros de pele não melanoma” e de 23,9 milhões de euros nos casos de melanoma. O que revelam estes números?

OC | Estes dados revelam que os custos no tratamento, não só do melanoma mas também dos “cancros da pele não melanoma” em que se incluem o carcinoma basocelular e carcinoma espinocelular, é muito mais elevado do que muitos poderiam pensar sobretudo porque não existe, até à data, histórico de registo adequado dos cancros da pele não melanoma.

Ou seja, existe uma subnotificação elevada destes cancros, já alertada pela APCC há muitos anos e já motivo de legislação aprovada em Assembleia da República mas que até à data não foi aprovada: Resolução da Assembleia da República n.º 45/2015 publicada em Diário da República n.º 85/2015, Série I de 2015-05-04, onde consta: A criação de uma base de dados para registo nacional de todos os doentes com melanoma e o estabelecimento da obrigatoriedade de notificação, ao Ministério da Saúde e registos ncológicos regionais, pelos laboratórios de anatomia patológica, tanto públicos como privados ou do setor social, de todos os casos de cancro cutâneo (queratoses actínicas, carcinomas espinocelulares e basocelulares e melanomas) que naqueles sejam diagnosticados.

Só conhecendo a realidade nacional dos cancros da pele se pode dotar os serviços de recursos humanos, técnicos e dotação orçamental para diagnosticar e tratar precocemente e seguir adequadamente os doentes com antecedentes de cancros da pele.

Estes dados reforçam a necessidade de promover anualmente e com mais intensidade todas as campanhas de prevenção primária (adotando comportamentos adequados de convívio com o Sol) , prevenção Secundária (promovendo o auto-exame e o diagnóstico precoce) e prevenção terciária (efetuando seguimento adequado dos pacientes com antecedentes de cancros da pele).

 

VH | A incidência dos vários tipos de cancros da pele tem vindo a aumentar em todo o mundo. Na sua perspetiva, qual poderá ser o caminho para um futuro mais favorável ao combate ao cancro da pele?

OC | Incentivar as mensagens de prevenção primária dos cancros da pele pela promoção do bom convívio com o sol, na exposição lúdica não só na praia mas em todas as atividades desportivas e lúdicas e também junto das escolas e dos trabalhadores com profissões ao ar livre. Estas mensagens devem ser uniformes, validadas pela comunidade científica internacional e em Portugal pela APCC e pela Sociedade Portuguesa de Dermatologia.

Entendemos que a partir de uma rede, já em implementação, coordenada por dermatologistas, representantes da APCC, mas integrando outros dermatologistas, médicos de Medicina Geral de Família, do trabalho, do desporto, de Oncologia e pediatras, mas também com o apoio de Enfermagem, farmacêuticos, educadores e voluntários, por exemplo nadadores salvadores, podemos levar mensagens uniformes para que a literacia em prevenção de cancro da pele melhor em toda a população.

No âmbito da prevenção secundária, é necessário estimular o autoexame da pele. Somos de opinião que o autoexame da pele está para o cancro da pele como o autoexame da mama está para o cancro da mama. Sugerimos consulta do material disponibilizado no site da APCC e nesta ligação, que ajuda a efetuar o autoexame e distinguir sinais benignos, de sinais de risco ou lesões sugestivas dos vários tipos de cancros da pele (carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma)

 

VH | Há mais algum assunto que queira destacar? 

OC | Estar atento e consultar o site do Instituto Português do Mar e Atmosfera, para verificar a previsão dos níveis de ultravioleta (UV), que nestes meses de maio e junho já costumam estar bastante elevados mesmo sem temperaturas muito elevadas, importante no primeiro contacto com o sol seja na escola, no desporto ou profissão ao ar livre. Quanto maior o índice de UV (escala 0 a 11) maior o risco de queimadura solar. Não se esqueça: podem existir índices de UV elevados e a temperatura pode não ser elevada!

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