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Bem-Estar
“Mulheres e Diabetes: o nosso direito a um futuro saudável”
terça-feira, 14 novembro 2017 10:48
Todos os anos, a Organização Mundial de Saúde (OMS) elege um lema para assinalar o Dia Mundial da Diabetes. Este ano, o tema escolhido foi “Mulheres e Diabetes: o nosso direito a um futuro saudável”, sensibilizando para o facto de a igualdade de género e o acesso à inovação e à terapêutica ainda não serem uma realidade absoluta a nível global. Em entrevista ao Vital Health, a endocrinologista Paula Freitas, do Centro Hospitalar de São João (CHSJ), explica o tipo de complicações associadas à diabetes na mulher, nomeadamente a diabetes gestacional.

 

Vital Health (VH) | “Mulheres e Diabetes: o nosso direito a um futuro saudável” foi o tema lançado este ano pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para assinalar Dia Mundial da Diabetes. Que razões considera estarem subjacentes à escolha deste tema?
Paula Freitas (PF) | Em primeiro lugar, não gosto nada de “dias da mulher”, porque num mundo perfeito, se a igualdade de género fosse uma realidade em todas as sociedades, não havia esta necessidade. Mas a realidade é bem diferente. Mesmo nas ditas sociedades ocidentais e nos países mais desenvolvidos, a igualdade de género ainda não é uma realidade absoluta. Isto para não falar dos países em que as mulheres não têm quaisquer direito. Portanto, percebo que a OMS se preocupe com a situação da mulher no mundo e da mulher com diabetes, em particular da mulher com diabetes gestacional. Talvez tenha sido isto o que esteve subjacente à escolha deste tema.

 

VH | Qual o panorama da diabetes no género feminino em Portugal?
PF | Em Portugal, a prevalência da diabetes, segundo os dados do Observatório Nacional da Diabetes de 2016, na população entre os 20 e os 79 anos, é de 13,3%, sendo de 10,9% nas mulheres e 15,9% nos homens.

 

VH | Que tipo de complicações estão associadas à diabetes, nomeadamente nas mulheres?
PF | A diabetes é uma doença sistémica que pode atingir todos os órgãos e sistemas do organismo. Está associada a complicações tardias ou crónicas, que vão desde a retinopatia diabética (que pode originar cegueira), nefropatia (que nas suas fases tardias leva à necessidade de fazer tratamento com diálise), neuropatia (doença que pode atingir desde o sistema digestivo, urinário, cardiovascular e os membros inferiores), acidentes vasculares cerebrais, enfarte do miocárdio, pé diabético, amputações dos membros inferiores e disfunção sexual, entre outras.
Quero destacar algumas particularidades relativamente às complicações da diabetes na mulher. Em primeiro lugar, o facto de o impacto da diabetes no risco de morte por doença coronária ser significativamente superior nas mulheres comparativamente com os homens. Na população geral, isto é, nos indivíduos sem diabetes, a doença cardiovascular desenvolve-se cerca de sete a 10 anos mais tarde nas mulheres do que em homens, mas ainda sim é a principal causa de morte em mulheres. E o risco de doença cardíaca nas mulheres é muitas vezes subestimado devido à perceção errônea de que as mulheres estão "protegidas" contra doenças cardiovasculares. O baixo reconhecimento das doenças cardíacas e as diferenças na apresentação clínica em mulheres conduzem a estratégias de tratamento menos agressivas e a menor representação de mulheres em ensaios clínicos. Podemos constatar que nos últimos grandes ensaios clínicos de outcomes cardiovasculares na diabetes, como o TECOS, SAVOR, EXAMINE, LEADER, EMPAREG, EXSCEL, entre outros, a percentagem de homens incluídos é na ordem dos 70% e apenas cerca de 30% de mulheres. Além disso, a autoconsciência das mulheres e a identificação dos seus fatores de risco cardiovascular precisam de mais atenção, o que poderá resultar numa melhor prevenção de eventos cardiovasculares.

 

VH | Até 70% dos casos de diabetes tipo 2 podem ser prevenidos com alterações no estilo de vida, sendo que as mulheres têm uma grande influência nas escolhas do estilo de vida da família. Que tipo de hábitos devem as mulheres adotar e fomentar no seio familiar?
PF | Sim, é verdade. Quer a prevenção, quer o tratamento da diabetes mellitus tipo 2 assentam em pilares fundamentais que são a modificação do estilo de vida – uma correta alimentação saudável e a prática regular de exercício físico. E é um facto que as mulheres ainda têm uma grande influência nas escolhas alimentares e no estilo de vida da família. Também gostaria que isto se modificasse e que as escolhas alimentares, as compras e a confeção fossem de todos os membros da família e não exclusivamente uma tarefa feminina. Acho que se tem de apostar na educação para a saúde e no ensino do que é uma alimentação saudável, de modo a fornecer ferramentas às pessoas para fazerem refeições equilibradas, gostosas e saudáveis. Também seria bom fomentar a prática de atividades de lazer ao ar livre em família de forma regular.

 

VH | Um em cada seis partos é afetado pela diabetes gestacional. O que é a diabetes gestacional?
PF | Por definição, diabetes gestacional corresponde a qualquer grau de anomalia do metabolismo da glicose documentado, pela primeira vez, durante a gravidez. Segundo os dados do Observatório da Diabetes, a prevalência de diabetes gestacional é de 7,2%, registando-se um acréscimo significativo do número absoluto de casos relativamente ao ano anterior. É muito importante o diagnóstico da diabetes gestacional para que a mulher tenha acompanhamento médico adequado e lhe seja proporcionado tratamento ajustado à sua situação. Uma diabetes gestacional não corretamente controlada está associada a aumento de complicações para o recém-nascido, nomeadamente macrossomia, traumatismo no parto, hipoglicemia e icterícia.

 

VH | As mulheres que tiveram diabetes gestacional têm um risco elevado de vir a ter diabetes tipo 2 mais tarde. Que tipo de comportamentos devem as mulheres adotar para prevenir esta situação?
PF | Sim, as mulheres que tiveram diabetes gestacional apresentam um risco aumentado de desenvolver diabetes tipo 2 em anos posteriores. A diabetes gestacional também está associada a um risco aumentado de obesidade e de perturbações do metabolismo da glicose durante a infância e a vida adulta dos descendentes. As mulheres devem perder peso se tiverem excesso de peso, ou devem manter o peso dentro dos limites da normalidade, caso este já seja normal. Adicionalmente, devem manter um estilo de vida saudável com alimentação equilibrada, prática regular de exercício físico, cessação tabágica, moderação do consumo de álcool e devem fazer o rastreio periódico de diabetes.

 

VH | Há mais algum assunto que queira destacar?
PF | Quero destacar as duas epidemias gémeas: a obesidade e a diabetes. De facto, a epidemia da diabetes tipo 2 acompanha a epidemia da obesidade, ao longo dos anos. Também quero alertar que a diabetes mellitus tipo 2 é muitas vezes uma doença silenciosa, pelo menos, até às fases mais tardias. A diabetes mellitus tipo 2 tem frequentemente uma evolução lenta, permanecendo, por vezes, sem sintomas nem diagnóstico durante longo tempo. De realçar ainda que o risco de vir a ter diabetes está associado a predisposição genética, mas este risco aumenta com a presença de obesidade e de sedentarismo.
Dado que a maioria das vezes os doentes permanecem assintomáticos durante um longo período de tempo, há que efetuar rastreio naqueles indivíduos que constituem grupos de risco: indivíduos com idade superior a 45 anos, obesidade ou excesso de peso, história familiar de diabetes, estilo de vida sedentário, mulheres com história de diabetes gestacional, mulheres que tiveram filhos macrossómicos (recém-nascidos com peso superior a quatro kg), hipertensos, doentes com doença vascular, aqueles com diagnóstico prévio de síndrome metabólico, dislipidemia, síndrome de ovário poliquístico, a fazer tratamento com fármacos antipsicóticos para o tratamento de esquizofrenia ou doença bipolar, com sugestão clínica de ter insulino-resistência (presença de acantose nigricante a nível axilar ou cervical) ou com pré-diabetes. Os indivíduos com pré-diabetes se não alterarem o seu estilo de vida, ou se não forem submetidos a tratamento, têm um risco aumentado de vir a ter diabetes no futuro, assim como um risco cardiovascular aumentado.
Também quero sublinhar que, apesar de a diabetes surgir tipicamente no adulto, está presente cada vez mais em populações mais jovens, mesmo até nas crianças, devido ao aumento da obesidade desde muito cedo. No entanto, é importante reforçar que a incidência deste tipo de diabetes aumenta com a idade.
Mas muito importante, se a diabetes for diagnosticada precocemente, se tratada corretamente (em todas as suas vertentes, modificação do estilo de vida, alimentação saudável, exercício físico e fármacos adequados) podem ser evitadas as complicações tardias da diabetes.
Mais importante ainda, a obesidade e a diabetes mellitus tipo 2 são duas doenças potencialmente preveníveis, cujas consequências tardias podem ser evitáveis, se precocemente procurar ajuda médica e estiver preparado para modificar o seu estilo de vida para todo o sempre.

 

Paula Freitas, endocrinologista do Centro Hospitalar de São João (CHSJ), presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO)

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