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Entrevista
Primeiro banco de cérebros a funcionar em Portugal
segunda-feira, 06 abril 2015 12:35
Por: Prof. Doutor Manuel Melo Pires e Dr. Ricardo Taipa, coordenadores do Banco Português de Cérebros (BPC) e especialistas em Neurologia e Neuropatologia
Primeiro banco de cérebros a funcionar em Portugal

Primeiro banco de cérebros a funcionar em PortugalO Congresso de Neurologia 2014 acolheu a entusiástica apresentação pública do primeiro Banco de Cérebros em Portugal, localizado no Hospital de Santo António, no Porto. Como surgiu, para que serve, e que potencialidades encerra? Quem responde é o Prof. Doutor Manuel Melo Pires e o Dr. Ricardo Taipa, coordenadores do banco e especialistas em Neurologia e Neuropatologia.

O Banco Português de Cérebros (BPC) é a primeira entidade deste género em Portugal. Como surgiu a ideia e como se desenrolou o processo de criação deste banco?

Prof. Doutor Melo Pires (MP) | A ideia do BPC começou a formar-se em 2010 com o estágio do Dr. Ricardo Taipa no Manchester Brain Bank e, posteriormente, já na sua formação em Neuropatologia no Queen Square Brain Bank, em Londres. Eu próprio assisti à criação do Parkinson's Brain Bank no fim dos anos 80 no mesmo centro e foi com entusiasmo que acolhi o projeto. Era necessário que a Unidade de Neuropatologia do Hospital Santo António criasse um centro em que fosse possível efetuar diagnósticos post mortem de cérebros doados para investigação de doentes neurológicos. Assim, desde do ano de 2012 foram percorridos todos os morosos e difíceis passos burocráticos necessários para a criação do BPC, permitindo a sua apresentação formal na reunião da Sociedade Portuguesa de Neurologia, em novembro de 2014.

Quais são os principais objetivos que se esta entidade se propõe cumprir?

Dr. Ricardo Taipa (RT) | O BPC, à semelhança dos bancos de cérebros internacionais, tem por objetivo recolher e armazenar cérebros de doentes neurológicos, procurando correlações entre os dados clínicos, os exames complementares de diagnóstico feitos em vida e as características patológicas do tecido. O objetivo final é ceder à comunidade científica material patologicamente caracterizado para investigação.

Assim, qualquer instituição científica nacional ou internacional poderá submeter projetos à comissão científica do BPC com o fim de conseguir material congelado ou incluído em parafina para diferentes estudos no âmbito das neurociências.

Quais poderão ser os entraves/desvantagens à sua manutenção e crescimento, nomeadamente no que se refere ao seu financiamento?

MP | É claro que o BPC só poderá sobreviver se for devidamente financiado e esse é para já o nosso principal desafio. O Centro Hospitalar do Porto (Hospital Santo António) é a entidade administrativa e científica responsável pelo BPC sedeado na Unidade de Neuropatologia e tem como parceiros o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto e o Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho. A Unidade Corino de Andrade do CHP é também um dos nossos principais colaboradores, tendo permitido para já a contratação de um técnico de Anatomia Patológica em full time no banco. O financiamento do BPC deverá estar assegurado por estes diversos parceiros, esperando-se que outras se juntem a médio e longo prazo.

Outro grande problema é a formação futura de especialistas, sem os quais o BPC não poderá evoluir. Neste momento a Sociedade Portuguesa de Neuropatologia está a tentar junto da Ordem dos Médicos a oficialização da subespecialidade de Neuropatologia sem a qual será difícil o recrutamento e contratação de jovens médicos interessados.

Quais são os critérios tidos em conta na seleção das doações?

RT | O BPC só poderá receber dadores por proposta de um médico assistente. Uma pessoa a título individual não poderá inscrever-se como dador. Isto porque um banco de cérebros pressupõe uma correta caracterização clínica. Um doente seguido dentro da área de influência do BPC poderá então ser referenciado, após assinatura do consentimento informado pelo doente ou família e, depois da sua morte, são estabelecidas as diligências protocoladas para a colheita. Posteriormente o médico assistente receberá o diagnóstico patológico e o tecido cerebral será armazenado de forma anonimizada. Esperamos, a curto prazo, colaborar com centros fora da área de influência do BPC (região norte) para existir a possibilidade de referenciar doentes de outras áreas.

Até ao momento, quantos cérebros já foram doados? Que medidas podem ser tomadas para aumentar este número?

MP | Foram já doados 8 cérebros e estabelecidos os respetivos diagnósticos neuropatológicos. O número de doentes inscritos e respetivas doações irá aumentar à medida que o BPC for publicitado junto da comunidade e, principalmente, junto dos neurologistas, pois sem eles nenhum banco de cérebros, nacional ou internacional, cumprirá a sua função.

 

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