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Entrevista
“A saúde mental não é um monstro”
terça-feira, 26 julho 2016 12:54
Por: Diogo Telles Correia, médico especialista em Psiquiatria e Psicoterapeuta
“A saúde mental não é um monstro”

Diogo Telles Correia é o autor do novo livro disponível nas livrarias, “A Vida num Degrau – Histórias reais de quem venceu a depressão”. Uma obra que retrata histórias reais de casos de depressão, que demonstram os vários lados desta doença e como é possível ultrapassá-la. Em entrevista à Vital Health, Diogo Telles Correia apresenta a sua nova obra e os motivos que o levaram a partilhar com o público as suas experiências no consultório.

 

Vital Health (VH) - Desde 1 de julho que o livro “A Vida num Degrau - Histórias reais de quem venceu a depressão” se encontra disponível nas livrarias. O que o levou a escrever este livro?
Diogo Telles Correira (DTC) - Este livro vem na sequência do último livro "Eu existo", onde tento passar para a literatura aquilo que se vive no íntimo dos pacientes que me procuram. São pacientes reais do dia-a-dia, com vidas que podiam perfeitamente ser as nossas e que lutam para combater os seus receios, os seus medos, as suas sombras... E vencem. Vencem sempre.
Neste livro quis trazer uma realidade específica: a depressão. A depressão que pode tomar aspetos completamente diferentes e com tratamentos completamente diferentes também. Foi isso que quis transmitir, que a depressão pode chegar a qualquer um de nós, que se apresenta com faces diferentes de pessoa para pessoa e que o percurso para a debelar também é diferente caso a caso.

VH - A quem se destina?
DTC - Este livro foi escrito a pensar no público em geral. A leitura faz-se como a leitura de um romance ou um livro de contos, com a vantagem destes casos serem baseados em casos reais e de ensinarem muitas questões relacionadas com o diagnóstico e tratamento da depressão.

VH - O tema principal do livro é a depressão. Por que razão continua a ser importante escrever livros sobre este assunto?
DTC - Julga-se que a depressão pode afetar 15% da população mundial nalguma fase da sua vida. Nos últimos tempos esta situação tem vindo a agravar-se. A situação económica que se vive neste momento pode efetivamente afetar a saúde mental de várias formas... Por um lado, as questões económicas que hoje em dia afetam todas as classes sociais. As classes mais baixas vivem situações realmente dramáticas. As classes médias e altas também têm visto, por vezes, o seu poder de compra reduzir e há casos de perda de fortunas devido à desvalorizações bolsistas e à falências de bancos. Por outro lado, as constantes restruturações empresariais, que visam como único objetivo aumentar os lucros, não têm a mínima consideração pelas condições de trabalho dos trabalhadores. A desmotivação instala-se e casos de mobbing são cada vez mais frequentes, como explicado acima. A meu ver daqui a um tempo ver-se-á que a produtividade de uma empresa não lucra com o mau trato dos seus trabalhadores. Talvez aí se volte a pensar nas suas condições laborais.

VH -  A que se deve a escolha do título “A Vida num Degrau”?
DTC - O título foi pensado numa perspetiva de ver a vida como uma escada em que cada degrau, por mais difícil que custe ultrapassar pode ser vencido com a ajuda correta. Uma mensagem de esperança é o que pretende desvendar este título.

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VH - Baseado em histórias reais, o que levou o autor a escolher especificamente estes casos de depressão?

DTC - Escolhi quatro casos de depressão completamente diferentes. Surgem em pessoas de idades e contextos diferentes e tem precipitantes também completamente diferentes. O tipo de luta e tratamento também é muito díspar. A única coisa em comum entre os 4 casos é o final feliz.
No caso do António estamos perante um rapaz jovem que sempre se conheceu triste e sem vontade. É um excelente aluno, um poeta, uma pessoa realmente admirável. Mas tem uma depressão que o consome e que o faz pensar que não vale a pena viver. Travamos os dois uma luta complexa mas admirável e que chega a um fim muito feliz. O Afonso é um rapaz que desenvolve uma depressão na sequência de uma rutura amorosa. Nunca tinha tido qualquer problema até esta fase. Começam no entanto a surgir uns fantasmas da sua personalidade que precipitam uns ciúmes patológicos da namorada com a qual acaba por romper. Apenas com psicoterapia e sem recorrer a fármacos conseguimos compreender que todos aqueles fantasmas se relacionavam com questões suas de autoestima. O final foi também muito feliz com uma reconciliação.
O caso do Pedro é um caso de mobbing, o chamado assédio moral no trabalho. Uma situação tão frequente hoje em dia. Esta situação precipitou o aparecimento de uma grave depressão (algo que se torna cada vez mais frequente no caso do mobbing) que podia ter tido consequências catastróficas se não tivesse sido pedida ajuda profissional atempada. Neste caso foi a esposa do Pedro que pediu ajuda. A luta foi difícil mas o fim foi muito bonito.
No último caso tento relatar de forma literária e muito suave uma situação limite em psiquiatria. Um caso muito grave de depressão que surge no contexto de uma perturbação bipolar - aquelas situações em que há fases de euforia intercaladas com depressão. Neste caso falo de tratamentos muito controversos mas que tento desmistificar. A Joana acaba muito bem e revela-se uma pessoa cheia de genialidade.

VH -  Os casos que o livro aborda referem-se a diferentes tipos de depressão. Quais são e que diferenças apresentam?
DTC - Tentei escolher quatro casos completamente diferentes de depressão para mostrar ao leitor que a depressão pode ter diferentes faces e por isso diferentes formas de abordagem também. É fundamental que não se aceite que a depressão é uma doença sempre igual e que os sintomas são sempre os mesmos. Daí que quando há duvidas o melhor é procurar a ajuda de um especialista.
No primeiro caso, do António, abordo a depressão endógena que é provocada sobretudo por fatores biológicos – genéticos, biológicos, bioquímicos – e raramente por fatores situacionais. No segundo caso, do Afonso, é retratada uma depressão reativa causada por questões amorosas. A depressão reativa é desencadeada pelo meio ambiente em que a pessoa se insere. O terceiro caso, do Pedro, mostra uma depressão reativa causada por mobbing. E, por último, o caso da Joana que fala de uma depressão bipolar. Este tipo de depressão é geralmente muito grave.

VH - O mobbing (assédio moral no trabalho) é um dos assuntos abordados nesta obra. Qual a gravidade desta situação e o seu peso na saúde mental de quem passa por isso?
DTC - O mobbing ou assédio moral no trabalho é uma situação muitíssimo frequente. Há estudos que dizem que a sua prevalência pode chegar a 20% dos trabalhadores. Nestes casos, os chefes dos pacientes tentam levá-los a uma situação de esgotamento psicológico para que eles desistam e se demitam. É realmente uma situação de crueldade humana incrível e que a sociedade de hoje em dia promove e não impede. Este tipo de prática por parte das empresas pode estar na origem de depressões realmente graves e, se não forem tratadas, não raramente levam ao suicídio. Tenho muita experiência com estes casos, que são cada vez mais frequentes no meu consultório.

VH - Também o tratamento por choques é um tema que levanta alguma polémica e é igualmente abordado neste livro. Em que consiste este tratamento e qual a sua visão sobre o mesmo?
DTC - O tratamento com eletrochoques hoje em dia é reservado para alguns casos específicos de doença mental como é o caso das depressões muito graves, como o caso da Joana. Ao contrário da mensagem que a comunicação social às vezes faz passar, é um procedimento indolor para o paciente, porque este está anestesiado. Este tipo de tratamento pode de facto ter resultados milagrosos nos casos mais graves. Mas por ser um procedimento mais invasivo reserva-se aos casos mais graves.

VH -  Como podemos medir o impacto da depressão na qualidade de vida dos doentes?
DTC - O impacto da depressão pode ser avaliado de várias formas, nomeadamente medindo o impacto que esta tem sobre as atividades de lazer, atividades que habitualmente eram prazerosas, e as atividades profissionais (aqui geralmente referimos o grau de incapacidade). Há estudos que indicam que em 2020 as doenças mentais, com relevância especial para a depressão, podem representar um peso de 15% na incapacidade provocada por qualquer tipo de doença.

VH - Como se pode reconhecer e diagnosticar a depressão e em que momento é que o doente deve recorrer a um psiquiatra?
DTC - O primeiro passo que um paciente deve dar quando sente uma tristeza desproporcional, falta de vontade, falta de prazer pelas coisas que antes lhe davam esse prazer, dificuldade em dormir ou redução de apetite, é ir ao um médico psiquiatra com experiência. Este fará o diagnóstico e excluirá doenças físicas como défices de vitaminas, anemia, alterações na tiroide, etc. Depois este médico planeará o tratamento específico que incluirá psicoterapia e/ou medicação.

VH - Em que medida é possível ter “um final feliz”? Este livro pode ajudar nesse caminho?
DTC - Neste livro podemos apreciar quatro casos de depressão com causas e tratamentos muito diferentes. Nalguns dos casos é necessário recorrer à medicação e noutros não. Cabe ao médico psiquiatra perceber qual o melhor tratamento. Quando o diagnóstico e tratamento são feitos da melhor forma, o final só poderá ser feliz.

VTH - Há mais algum assunto/tema que gostaria de destacar?
DC - Não deve ser cultivada uma ideia de superficialidade veiculada pela maioria dos livros de autoajuda presentes nos escaparates das livrarias. A saúde mental não é um monstro, todos nós podemos ter problemas de saúde mental. Não nos esqueçamos que uma grande parte dos génios da sociedade padecia de problemas de saúde mental. Apreciamos as suas obras, vangloriamos a sua genialidade, mas esquecemos as suas vidas e a sua luta.
Destaco também que a maioria dos livros de autoajuda não só podem não ajudar como podem agravar a depressão. Por isso, havendo algum dos sintomas que referi anteriormente, é essencial ir a um psiquiatra experiente. Ele fará o diagnóstico e explicar quais os tratamentos mais adequados. É importante que não se diabolize a medicação psiquiátrica. Quando prescrita por um médico psiquiatra experiente, a medicação psiquiátrica pode ter resultados realmente milagrosos e sem efeitos secundários relevantes. Os produtos naturais que muitas vezes são vendidos para tratar situações psiquiátricas como a depressão podem ter consequências muito mais graves.

Mais informações sobre o autor:

Médico Especialista em Psiquiatria e Psicoterapeuta. Doutorado em Psiquiatria e Saúde Mental pela Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, onde é Professor Auxiliar Convidado de Psiquiatria e de Psicopatologia. É Assistente Hospitalar do Departamento de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria e Consultor na Unidade de Transplantação Hepática do Hospital Curry Cabral. Para além destas funções, é Vice-Presidente da Associação Portuguesa de Psicopatologia e membro da Associação Portuguesa de Terapias Comportamental e Cognitiva, bem como de múltiplas outras associações nacionais e internacionais. Tem vários livros publicados que são referências em Portugal e noutros mercados de língua portuguesa, bem como dezenas de artigos científicos na área da Saúde Mental em revistas internacionais de relevo. Mais informações em www.psiquiatrialisboa.pt.

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