FacebookTwitterYoutubeInstagramWhatsapp

Plataforma de Atualização Diária

Entrevista
Diabetes: risco aumenta nos mais desfavorecidos
segunda-feira, 25 março 2013 10:46
Por: Salvador Massano Cardoso, professor catedrático de epidemiologia e medicina preventiva e diretor do Instituto de Higiene e Medicina Social da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC)
Diabetes: risco aumenta nos mais desfavorecidos

Salvador Massano Cardoso"Quanto maior for a desigualdade social, menor é o conhecimento da patologia em causa nos mais desfavorecidos. Compreende-se o fenómeno pois é mais difícil a interiorização dos conceitos de prevenção, além de uma acentuada redução da adesão à terapêutica, neste grupo", explicou, em entrevista ao Vital Health, Salvador Massano Cardoso, professor catedrático de epidemiologia e medicina preventiva e diretor do Instituto de Higiene e Medicina Social da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC).


Vital Health | O que tem a dizer sobre a sociologia da diabetes?
Salvador Massano Cardoso | Nos vários estudos que realizei e colaborei houve sempre preocupação em analisar alguns aspetos sociais e culturais, os quais se têm revelado muito interessantes apontando para o papel das habilitações literárias e das zonas em que vivem dos doentes que sofrem de diabetes. Apesar de não ter realizado estudos específicos sobre esta temática, mesmo assim há elementos que apontam para a associação dos aspetos sociais e económicos no desencadear da doença. Obviamente, os mais idosos, que tenham menos habilitações, correm, por exemplo, mais riscos, não obstante a idade ser um fator muito importante. Há, de facto, um predomínio, embora não significativo, do sexo masculino.


Vital Health |Em que medida é que as desigualdades sociais estão ligadas ao risco de adoecer por diabetes?
SMC | Quanto maior for a desigualdade social, menor é o conhecimento da patologia em causa nos mais desfavorecidos. Compreende-se este fenómeno porque é mais difícil a interiorização dos conceitos de prevenção, além de uma acentuada redução da adesão à terapêutica neste grupo.


Vital Health |Poderia apontar dois motivos pelos quais as pessoas mais carenciadas têm maior risco de ter diabetes?
SMC | Menor compreensão sobre a doença, suas causas e consequências, e "violação" de regras comportamentais, tais como aquisição de alimentos altamente calóricos e de baixo preço.


Vital Health |Quais as complicações da diabetes mais frequentes resultantes desta desigualdade social?
SMC | Maior morbimortalidade nos que pertencem às classes mais baixas em idades jovens, que vão desde a cegueira à insuficiência renal, passando pela elevada incidência de doenças cardiovasculares.


Vital Health |Deve-se apostar em diferentes tipos de prevenção, por sua vez dirigidos a diferentes públicos?
SMC | A prevenção, além de ser dirigida a todos, terá, naturalmente, de ter em conta os diferentes setores sociais, sobretudo os que estão mais sujeitos à doença, que são, também, os mais difíceis de controlar. São também os mais resistentes à prevenção, porque exige capacidade de receção de mensagens, que nem sempre são assimiláveis de forma atingir os nossos desideratos.


Vital Health |Qual o tipo de prevenção que deve ser feita junto das classes mais desfavorecidas?
SMC | Terá de haver formação e informação a nível individual, o que é muito exigente e complicado. Deverão ser informados sobre os tipos de alimentos e exercícios a realizar. Deverá ser estimulada a adesão à terapêutica e ao controlo da doença. Tudo isto é vital, mas muito difícil de concretizar com eficiência em virtude das características culturais e económicas dos interessados.


Vital Health |E junto das classes menos desfavorecidas?
SMC | Quanto às classes mais favorecidas, que já sofrem menos e com menos gravidade, é mais fácil prevenir e controlar a doença.


Vital Health |Poderia apontar uma medida eficaz para esbater as desigualdades sociais e, dessa forma, diminuir o risco de adoecer?
SMC | A diabetes é uma doença metabólica com comportamentos político e económico. Só através da redução das desigualdades, aumentando os proventos dos mais desfavorecidos, assim como evitando o abandono escolar e estimular a prossecução de estudos poderemos resolver o problema ou, pelo menos, minimizá-lo de forma substancial.
Mais dinheiro, mais habilitações e mais cultura permitem a interiorização da informação e esclarecimentos sobre a diabetes de uma forma mais fácil, transformando-os em conhecimento. Quanto maior for o conhecimento sobre a diabetes menor será a sua incidência e prevalência. Afinal, a diabetes é mais do que um problema de saúde, é um problema cultural e económico, competindo aos ministérios da educação, da cultura, do desporto e da economia a sua "resolução", muito mais do que o ministério da saúde, que, apesar de tudo, ainda tem um campo muito vasto para atuar.


Fonte: Vital Health

 

PUBLICIDADE

Por vezes mais é menos

Por vezes mais é menos

© 2019 Vital Health | Todos os direitos reservados | Designed by IPSPOT_ and Developed by Webview