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Entrevista
Privação do sono aumenta o risco de AVC e doenças coronárias
sexta-feira, 17 março 2017 12:23
Por: Ricardo Fontes-Carvalho, cardiologista do Centro Hospitalar de V. N. Gaia/Espinho
Privação do sono aumenta o risco de AVC e doenças coronárias
Já são conhecidos os efeitos nefastos que a privação de sono pode ter no nosso dia-a-dia. Mas sabia que não dormir as oito horas recomendadas aumenta em 48% o risco de desenvolver uma doença coronária? Por ocasião do Dia Mundial do Sono, que se comemora hoje, 17 de março, o Vital Health conversou com o cardiologista Ricardo Fontes-Carvalho sobre a relação do sono com as doenças coronárias. Leia a entrevista.

 

Vital Health (VH) | Enquanto profissional de Saúde, qual o número recomendado de horas diárias de sono? O número de horas recomendadas varia conforme a faixa etária?

 

Ricardo Fontes-Carvalho (RFC) | O número de horas diárias de sono recomendado varia conforme os indivíduos e conforme as faixas etárias, sendo que quanto mais jovem for o indivíduo, mais horas de sono deve ter. Contudo, como regra geral, recomenda-se para a maioria das pessoas sete a oito horas de sono por noite.

 

VH | Dormir pouco pode causar problemas de Saúde a longo prazo? Quais as principais consequências?

 

RFC | É verdade. Há múltiplos estudos a mostrar que a privação de sono aumenta o risco de mortalidade. O sono é um processo fisiológico complexo que tem uma função muito importante na atenção, memória, aprendizagem e comportamento, mas também na regulação da função cardiovascular. Além disso, existe uma associação clara entre a falta de sono e a desregulação metabólica, contribuindo para a obesidade e ao excesso de peso. A falta de sono associa-se, ainda, à hipertensão, à diabetes, obesidade e a várias doenças respiratórias.

 

VH | Qual a relação entre a privação do sono e o desenvolvimento de doenças coronárias?

 

RFC | O impacto das perturbações do sono na saúde cardiovascular tem sido um tema de discussão relativamente atual na comunidade científica mundial. Estudos recentes demostram que a privação do sono aumenta o risco de doença coronária (enfarte agudo do miocárdio) e de acidente vascular cerebral (AVC). Segundo um estudo recente do European Heart Journal, não dormir as oito horas de sono recomendadas aumenta em 48% o desenvolvimento de uma doença coronária e em 15% a probabilidade de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

 

A privação do sono resulta em fadiga diária, perturbações de humor e afeta negativamente o desempenho pessoal e a qualidade de vida do individuo, e também aumenta a propensão para as pessoas serem obesas e a terem mais eventos cardiovasculares.

 

VH | Considera que o aumento da incidência de doenças cardiovasculares está relacionado com os maus hábitos da maior parte da população, como a falta das horas recomendadas de sono?

 

RFC | Sim. A privação de sono é um “novo” fator de risco cardiovascular e por isso, tal como o tabagismo, o sedentarismo ou a dieta inadequada deve ser modificável e deve ser em alvo de prevenção. Por isso, torna-se particularmente importante a abordagem do “sono adequado” nas recomendações médicas. A promoção da higiene de sono ajuda a prevenir o risco cardiovascular.

 

VH | Pessoas que trabalham por turnos têm maior risco de doenças cardiovasculares?

 

RFC| Sem dúvida! Os dados que dispomos atualmente mostram este risco de forma consistente. Recentemente um estudo do British Medical Journal mostrou que o trabalho por turnos aumenta o risco de enfarte do miocárdio em 23%.

 

VH | Considera que hoje em dia a população não dá a devida importância às horas recomendadas de sono?

 

RFC | Penso que o problema não está tanto nas pessoas mas sobretudo no estilo de vida que nos é imposto pelas sociedades modernas, que exigem mais horas de trabalho, maior flexibilidade de horários e uma disponibilidade maior para o trabalho (telefones, emails, etc) muitas vezes nos horários de descanso.

 

VH | Pelo contrário, dormir horas a mais também pode ter consequências? Se sim, quais?

 

RFC | Este é um aspeto muito curioso. Não há dúvidas que a privação de sono é prejudicial à Saúde. Contudo, por outro lado, também sabemos que dormir a mais não faz bem ao nosso organismo. Por exemplo, este estudo do European Heart Journal também mostrou um aumento do risco de enfarte e AVC. Apesar de poder parecer estranho, isto acontece em vários fatores de risco de doença, sendo descrito nos meios médicos como uma "associação em U" ou seja, há riscos para a Saúde quer com a privação como com o excesso de sono. Devemos também recordar que as pessoas que dormem horas em excesso têm tendência a terem maior inatividade física o que pode contribuir para este risco aumentado.

 

VH | De que forma as doenças cardiovasculares podem ser prevenidas?

 

RFC | Em primeiro lugar é preciso saber que a doença cardiovascular já não deve ser vista como algo de inevitável, antes deve ser percebida como uma doença que é possível prevenir através da adoção de um estilo de vida mais saudável e de vigilância médica regular. As novas técnicas de diagnóstico, de tratamento e de prevenção permitiram uma impressionante redução de 40% da mortalidade cardiovascular nas últimas duas décadas.

 

Porque a doença cardiovascular é evitável, deixo dois conselhos simples. Primeiro, aprenda com o seu médico a “conhecer os seus números” (de pressão arterial, colesterol, glicose e peso), porque os fatores de risco não se sentem, “não doem”, mas podem e devem ser avaliados e tratados. Segundo, a doença cardiovascular é uma “doença socialmente transmissível”, por isso, promova, em si e nos seus, a Saúde cardiovascular e os estilos de vida saudável.

 

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