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Entrevista
Cancro colorretal: incidência da doença pode estar relacionada com o estilo de vida atual
terça-feira, 21 março 2017 11:02
Por: Rosa Ferreira, secretária geral da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)
Cancro colorretal: incidência da doença pode estar relacionada com o estilo de vida atual
 

Março é o mês em que assinala o Cancro do Cólon e Reto. De acordo com a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), trata-se da primeira causa de morte por cancro em Portugal. Em entrevista ao Vital Health, Rosa Ferreira, secretária geral da SPG, explica no que consiste esta doença, os motivos pelos quais tem uma incidência tão grande e de que forma pode ser prevenida através da alteração do estilo de vida. A especialista defende ainda que “a verdadeira estratégia de prevenção assenta no desenvolvimento de programas de rastreio centralizados e organizados, que já há décadas se demonstram custo-eficazes”.

 

Vital Health (VH) | O cancro do cólon e reto é um tumor maligno que afeta o intestino grosso, sendo a 3.ª causa de morte por cancro em todo o mundo com cerca de 1,4 milhões de casos novos. Porque é que este cancro tem uma incidência tão grande?
Rosa Ferreira (RF) | De facto, o cancro colorretal (CCR) é a primeira causa de morte por cancro em Portugal, sendo responsável por 11 mortes por dia. A elevada incidência do CCR prende-se com a conjugação de diferentes fatores. Desde logo, os fatores de risco associados ao CCR, como sendo os fatores ambientais, genéticos e doenças concomitantes, como as doenças inflamatórias do intestino (DII). Destacam-se os fatores ambientais, que são facilmente encontrados numa grande parte da população e dos quais fazem parte o sedentarismo, a obesidade (estima-se que em Portugal 50% da população tem excesso de peso), o abandono da dieta mediterrânica pela cultura do fast-food, o tabagismo e alcoolismo. Se olharmos para o ambiente em que vivemos, para o estilo de vida que levamos e para as escolhas que fazemos, facilmente percebemos que o CCR poderá afetar qualquer pessoa. A elevada incidência do CCR está, por outro lado, relacionada com a inexistência de um programa de colonoscopia de rastreio efetivo, que permite não só diagnosticar, mas também remover as lesões pré-malignas, genericamente designadas de pólipos, alterando, desta forma, a história natural da doença. O rastreio é, de facto, a grande arma que dispomos no combate da incidência do CCR e todos os esforços devem ser feitos no sentido de elaborar um programa de rastreio nacional. Para tal importa não esquecer a importância de alertar e sensibilizar a população em geral, pois só assim conseguiremos alterar estes números avassaladores de sete mil novos casos de CCR por ano em Portugal.

 

VH | Apesar dos múltiplos avanços da Medicina, a mortalidade deste cancro após cinco anos do diagnóstico aproxima-se dos 50%. Quais as razões para uma mortalidade tão elevada?
RF | Embora a taxa de mortalidade a médio e longo prazo destes doentes não seja a ideal, tem-se assistido a progressos notáveis quer nas estratégias de tratamento adjuvantes, quer no aprimorar das técnicas cirúrgicas e endoscópicas. No entanto, o principal motivo para essa taxa está a montante. Isto é, está no atraso do diagnóstico, em que o CCR é diagnosticado numa fase avançada, com um prognóstico reservado. Isto prende-se com a incapacidade de montar rastreios de base populacional organizados, que são comprovadamente custo-eficazes. O rastreio através da colonoscopia efetuado à população assintomática permite não só diagnosticar o CCR numa fase mais precoce, com melhor prognóstico, como também remover as lesões potencialmente malignas, impedindo a sua progressão para cancro.

 

VH| Quais os sintomas mais comuns deste tipo de cancro?
RF | Uma percentagem considerável de utentes, especialmente quando o diagnóstico é feito em regime de rastreio, encontra-se assintomático, havendo séries nas quais esta percentagem atinge mais de 70% dos casos. Os sintomas de alarme mais comuns são a perda de sangue nas fezes (hematoquézia), variação dos hábitos intestinais entre períodos de diarreia ou obstipação, variação no calibre das fezes, dor abdominal e anemia por deficiência de ferro. Existem ainda outros sinais e sintomas, como a astenia, perda de peso, febre ou febrícula de origem indeterminada, que poderão indiciar doença disseminada à data do diagnóstico. Além disso, uma percentagem não desprezível de doentes são diagnosticados em situação de oclusão intestinal, obrigando a cirurgias emergentes, configurando casos normalmente com prognóstico mais sombrio.

 

VH | Quais são os fatores de risco associados ao cancro colorretal?
RF | São vários e podemos sistematizá-los em dois grandes grupos: aqueles que são inerentes ao doente e aqueles que são modificáveis. Assim, de fatores não modificáveis temos o avançar da idade, história familiar de CCR em contexto esporádico ou enquadrado em síndromes polipósicos familiares, a história pessoal de doença inflamatória do intestino ou a história prévia de pólipos do cólon e/ou reto. Já nos fatores que podemos ativamente modificar contam-se o consumo de álcool e tabaco, o sedentarismo e, por conseguinte, a obesidade e a síndrome metabólica. Os erros dietéticos, como o abuso nas carnes vermelhas, gorduras saturadas e escassez dietética de fibras, frutícolas e hortícolas, são também fatores predisponentes ao CCR perfeitamente resolúveis.

 

VH | O cancro do intestino tem origem, em cerca de 90% dos casos, numa lesão benigna (pólipo). Como são provocadas estas lesões?
RF | Os pólipos do cólon são formações que surgem na camada que reveste a mucosa do cólon. Alguns pólipos aparecem como protusões em forma de cogumelo suportadas por um pedículo (pólipos pediculados). Outros surgem como crescimentos aplanados da mucosa (pólipos sésseis). Os pólipos aparecem a partir de uma célula que apresenta uma anomalia genética, que pode ser esporádica ou hereditária (nos casos das síndromes polipósicas familiares), que prolifera e pode evoluir para cancro. De facto, embora a grande maioria dos pólipos seja benigna, estas lesões podem evoluir com o tempo, adquirindo um componente displásico, isto é, pré-maligno, que pode culminar em carcinoma (CCR). Existem várias teorias sobre a génese dos pólipos, bem como da eventual evolução até carcinoma, sendo esta uma área de intenso estudo na Gastrenterologia.

 

VH | Ao contrário da maioria dos outros tumores, cujo diagnóstico é possível apenas numa fase maligna (ainda que precoce), no caso do intestino, se um pólipo for retirado, o problema fica definitivamente resolvido. Assim, o rastreio é fundamental. Que métodos de rastreio existem?
RF | De facto, quando um pólipo é removido, eliminam-se as células que poderiam transformar-se em cancro e, como tal, o problema com aquele pólipo fica em grande parte dos casos completamente resolvido. Contudo, importa salientar que a partir do momento em que é excisado um pólipo, inicia-se de forma mandatária a organização de um plano de seguimento personalizado para esse utente, definindo o intervalo de tempo adequado para a repetição da colonoscopia. Quanto aos métodos de rastreio, dispomos desde meios clínicos, a laboratoriais, endoscópicos ou imagiológicos. O seguimento em cuidados de Saúde primários é a primeira linha de rastreio, feita por uma boa colheita de história clínica, identificando os fatores de risco predisponentes. Os métodos laboratoriais dizem respeito à pesquisa de sangue oculto nas fezes, que estão longe de serem infalíveis, dada a elevada taxa vários falsos positivos. A colonoscopia total assume, assim, um papel fulcral como método endoscópico de rastreio, uma vez que permite o diagnóstico e o tratamento no mesmo tempo. Como já foi mencionado, é o único exame de rastreio que permite excisar as lesões precursoras do cancro, alterando a história natural da doença. Além disso, com a melhoria gradual dos equipamentos e novas tecnologias de aprimoramento endoscópico torna-se cada vez mais fácil o manejo endoscópico das lesões precursoras de CCR. Existem ainda dois pontos quanto à colonoscopia de rastreio que importa salientar. Por um lado, o exame deverá ser mesmo total, isto é, chegar até ao cego e, por outro lado, deve ser realizado com uma boa preparação intestinal, por forma a limitar a falha de diagnóstico de lesões percursoras de CCR. Por último, existem ainda métodos imagiológicos, como a colonografia apoiada por tomografia computorizada. Este exame, através de uma TC realizada ao abdómen, permite observar o colon com acuidade semelhante à da colonoscopia clássica, mas não possui a capacidade terapêutica. Desta forma, se a colonografia mostrar alguma lesão o doente terá de se submeter a uma colonoscopia, havendo assim uma duplicação de exames. Ainda assim, a colonografia é muito útil nas situações em que não se consegue realizar uma colonoscopia convencional ou quando há preferência do doente.

 

VH | O tratamento do cancro colorretal depende do seu desenvolvimento quando é diagnosticado. Assim, o que se prevê no tratamento deste cancro?
RF | A estratégia de tratamento vai depender essencialmente do estadiamento da doença, ou seja, do grau de envolvimento local e sistémico (metástases). Assim, quando é efetuado o diagnóstico de CCR, o doente realiza uma bateria de exames para se perceber o estadiamento e assim direcionar a terapêutica que lhe será proposta. Dentro das opções terapêuticas, fazem parte a remoção por endoscopia, se tal for possível; a cirurgia, de parte ou a totalidade do cólon ou reto; tratamentos de quimioterapia e radioterapia, que podem ser antes e/ou depois da cirurgia. Pese embora o fato do tratamento de CCR assentar em recomendações internacionais, não podemos esquecer que cada doente é único e como tal o plano terapêutico deverá ser individualizado.

 

VH | Que atitudes devem ser adotadas no sentido da prevenção?
RF | Prevenir começa por alterar os fatores de risco modificáveis, alterando comportamentos, estilo de vida e dietas, que passam pela abstinência alcoólica e tabágica, por uma dieta mediterrânea, com elevador teor de fibras e baixo teor de carnes vermelhas, bem como pelo exercício físico regular. Contudo, e acima de tudo, a verdadeira estratégia de prevenção assenta no desenvolvimento de programas de rastreio centralizados e organizados, que já há décadas se demonstram custo-eficazes. Programas esses que devem ser implementados no nosso País com a máxima urgência e que deverão contemplar a realização de colonoscopia de rastreio, pelas suas características únicas de diagnóstico e tratamento.

 

VH | Há mais algum assunto que queira destacar?
RF | Realçar que o CCR é, de facto, um problema de Saúde pública, que poderemos alterar o curso da doença através da adoção de estilos de vida saudáveis e da implementação e adesão a programas de rastreio.

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