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Entrevista
“A eliminação da hepatite C no nosso país é possível e deveria ser um objetivo claramente assumido pela tutela”
Por: Guilherme Macedo
“A eliminação da hepatite C no nosso país é possível e deveria ser um objetivo claramente assumido pela tutela”
"Durante 2018 gostaria que quem pode e sabe tratar estes doentes o possa fazer sem constrangimentos, e que todos os infetados sejam finalmente identificados para serem curados" - são estes os desejos para este ano de Guilherme Macedo, Diretor do Serviço de Gastrenterologia, do Centro Hospitalar São João. No entanto, em entrevista ao Vital Health, Guilherme Macedo mostra-se insatisfeito, apesar dos avanços feitos em relação à Hepatite C, com os períodos de demora da disponibilização de fármacos e propõe soluções: "para que não haja nenhum condicionalismo de índole financeira, deveria ser estabelecido e definido um envelope financeiro que, corajosamente e realisticamente, assumisse a Hepatite C como prioridade de saúde pública".

 

Vital Health (VH) | Olhando para o ano que passou, que momentos destaca no tratamento da hepatite C em Portugal (principais conquistas para profissionais e doentes; o que ficou por fazer; outros aspetos que queira destacar)?
Guilherme Macedo (GM) | Os principais avanços no ano que passou em relação à Hepatite C, no nosso país, foram a disponibilidade de novos fármacos para o seu tratamento e o início de projetos concretos (como o do tratamento em estabelecimentos prisionais), tendo em vista a estratégia de eliminação da infeção em Portugal.

 

VH | Em fevereiro de 2015, foi selado um acordo para o acesso a medicamentos inovadores para o tratamento da hepatite C, tendo o Ministério da Saúde autorizado 18.045 tratamentos. No entanto, segundo dados do Infarmed, até ao dia 8 de novembro ainda havia mais de 5.500 tratamentos por começar. Enquanto profissional de Saúde, quais são os principais entraves que identifica no acesso a estes tratamentos?
GM | A agilização burocrática e administrativa das autorizações para tratamento torna-se cada vez mais evidente. O processo tem decorrido globalmente bem, mas há períodos em que é nítida a demora de disponibilização dos fármacos. Para que não haja nenhum condicionalismo de índole financeira, deveria ser estabelecido e definido um envelope financeiro que, corajosamente e realisticamente, assumisse a Hepatite C como prioridade de saúde pública.

 

VH A meados de outubro deste ano, membros do governo, médicos, associações de doentes e grupos de ativistas estiveram reunidos em Bruxelas para discutir a eliminação da hepatite C em Portugal, num encontro em que os vários especialistas concluir ser possível erradicar a doença no país e na Europa até 2030. Concorda com esta ideia? O que é urgente pôr em prática para atingir este marco?
GM | As discussões em Bruxelas só são interessantes e eficazes se compreendermos que são os protagonistas destas mudanças que, de facto, têm acesso a esse palco, que não há apenas um certo oportunismo político de visibilidade inconsequente, e se houver retorno de informação do que foi discutido e em que moldes isso ocorreu. Há por vezes muita agitação quase irracional em torno deste assunto, que acaba por prejudicar a própria estratégia de ataque uniforme a este flagelo. A eliminação da Hepatite C no nosso país é possível e deveria ser um objetivo claramente assumido pela tutela, com todas as implicações que isso acarreta.

 

VH | Ainda assim, no início de dezembro, a Universidade Católica Portuguesa revelou que segundo uma ferramenta desenvolvida para avaliar o impacto das políticas de saúde pública na eliminação da hepatite C, o país não será capaz de cumprir esta meta “se a vontade política não acompanhar a evidência científica”, afirmava o Dr. Ricardo Batista Leite citado em comunicado de imprensa. Que papel devem assumir os decisores políticos?
GM | Os decisores políticos se forem bem informados e tiverem a coragem de planificar à distância, sem estarem confinados à sua agenda temporalmente limitada, terão muita facilidade em concretizar desígnios nacionais, sem olhar ao imediatismo duma despesa óbvia, necessária, mas que resulta em ganhos em saúde num prazo relativamente pequeno.

 

VH | Falando de objetivos concretos, o que gostaria de ver alcançado durante o ano de 2018, no que diz respeito ao tratamento da hepatite C? Que caminho deve seguir Portugal?

GM | Durante 2018 gostaria que quem pode e sabe tratar estes doentes o possa fazer sem constrangimentos, e que todos os infetados sejam finalmente identificados para serem curados. A identificação é mandatório, a decisão política de promover essa identificação é uma prioridade nacional.

 

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