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Entrevista
Das doenças alérgicas mais frequentes ao seu diagnóstico e tratamento
Por: Elisa Pedro, presidente da SPAIC
Das doenças alérgicas mais frequentes ao seu diagnóstico e tratamento

A 8 de julho celebra-se o Dia Mundial da Alergia, data instaurada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para alertar as pessoas para a importância do diagnóstico e tratamento das alergias. Para desmistificar alguns conceitos em torno das doenças alérgicas, o Vital Health conversou com presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), Elisa Pedro. 

 

Vital Health (VH) | A alergia é uma reação exagerada a uma substância geralmente inofensiva, chamada de alergénio, que pode manifestar-se na pele, nos pulmões, no nariz, nos olhos, no tubo digestivo ou em vários órgãos simultaneamente. Quais os alergénios mais comuns? De que forma se manifestam?
Elisa Pedro (EP) | Na alergia respiratória, os principais alergénios são os ácaros do pó doméstico, os pólenes (particularmente de gramíneas, oliveira e parietária) e os epitélios dos animais, como o cão e o gato. As alergias respiratórias mais frequentes são a rinite alérgica (espirros, pingo no nariz, obstrução e prurido nasal), frequentemente acompanhada de conjuntivite (olho vermelho, prurido e lacrimejo), afetando cerca de 1/4 da população portuguesa, e a asma (dispneia, pieira e tosse), com uma prevalência estimada de 6,8% no nosso país (cerca de 700 mil asmáticos).
No caso da alergia alimentar, os principais alergénios são as proteínas do leite de vaca, o ovo, os frutos de casca rija, frutos da família das rosáceas (pêssego, maçã) e o marisco. Com exceção da alergia às proteínas do leite de vaca e também em muitos casos de alergia ao ovo, a alergia alimentar tende a persistir ao longo da vida. As manifestações clínicas podem variar de moderadas a graves, podendo mesmo, em alguns casos, ser fatais (anafilaxia). Os sintomas surgem rapidamente, entre alguns minutos até duas horas após a ingestão do alergénio, e podem incluir manifestações cutâneas (pele e mucosas - urticária, angioedema), respiratórias (dispneia, pieira, angioedema da glote), gastrointestinais (vómitos, dores abdominais, diarreia) e cardiovasculares (hipotensão, choque), de forma isolada ou combinada. A alergia alimentar atinge cerca de 6% das crianças e 2% dos adultos.
Em Portugal, os medicamentos constituem 87% das causas reportadas de anafilaxia no adulto e 41% na idade pediátrica. Os medicamentos mais frequentemente envolvidos são os antibióticos betalactâmicos e os anti-inflamatórios não esteróides. Apesar da grande maioria destas reações não serem de causa alérgica, é sempre necessário confirmar.
A dermatite atópica, também conhecida como eczema atópico, é a doença inflamatória crónica cutânea mais comum e é caracterizada por uma pele xerótica e pruriginosa. Pode afetar todas as idades, mas o início da doença é mais frequente no grupo etário abaixo dos cinco anos de idade. A prevalência da dermatite atópica na população em geral estima-se que seja de 2-5% e cerca de 15% nas crianças e adolescentes.

 

VH | Como é feito o diagnóstico das doenças alérgicas?
EP | O diagnóstico das doenças alérgicas baseia-se essencialmente na história clínica, pesquisando os sintomas e os seus fatores desencadeantes. Os testes cutâneos em picada são o primeiro método de diagnóstico das doenças alérgicas, realizados pelo médico imunoalergologista, são de fácil execução e baixo custo e permitem identificar o/os alergénios responsáveis pelos sintomas alérgicos. Os testes cutâneos podem ser complementados pelas análises de sangue, com doseamento das IgE específicas para os alergénios suspeitos. Em alguns casos de alergia alimentar ou medicamentosa é necessário fazer provas de provocação, em ambiente hospitalar, para confirmar o alergénio suspeito.
Este diagnóstico específico com a identificação do alergénio responsável pelas alergias permite implementar medidas de prevenção e iniciar tratamentos específicos. Em casos selecionados, estão indicadas as vacinas antialérgicas, o único tratamento para a alergia, que quando instituído numa fase precoce da doença é muito eficaz. Permite dessensibilizar o doente, reduzir significativamente os sintomas e modificar a história natural da doença alérgica, diminuindo a probabilidade de aparecimento de novas sensibilizações e o risco de desenvolvimento de asma nos doentes com rinite alérgica. Infelizmente estas vacinas deixaram de ser comparticipadas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS) desde 2011.
No caso da asma, perante a presença de sintomas sugestivos, deve realizar-se um exame funcional respiratório (espirometria) para documentar o padrão obstrutivo característico da asma. As provas respiratórias podem ser complementadas com provas de broncodilatação ou broncoconstrição, para confirmar o diagnóstico.

 

VH | Atualmente, quais são as doenças alérgicas que causam maior preocupação?
EP | Saliento por diferentes motivos a anafilaxia, e as formas graves de asma, de urticária crónica e eczema atópico.
A anafilaxia, qualquer que seja a sua etiologia, pela sua gravidade e risco de vida é um motivo de grande preocupação para os médicos, doentes e seus familiares. Pode ser provocada por um alimento, medicamento ou picada de inseto (abelha ou vespa). Estes casos devem ser referenciados ao médico imunoalergologista o mais precocemente possível e estes doentes têm de ser portadores de uma caneta de adrenalina para auto-administração em caso de reação. A adrenalina é o único medicamento que pode reverter a anafilaxia e salvar o doente.
As formas graves de asma e de urticária crónica associam-se a pior qualidade de vida, mais consultas médicas, idas aos serviços de urgência, hospitalizações, absentismo e presenteísmo, e a asma grave (5% das asmas) pode estar associada a maior mortalidade. O eczema atópico grave tem um impacto significativo na qualidade de vida dos doentes e seus familiares.
Um dos motivos de preocupação em relação à asma é a fraca perceção que o doente asmático tem da sua doença e a fraca adesão ao tratamento. Estima-se que cerca de metade dos doentes asmáticos em Portugal não tem a sua doença controlada. Nove em cada dez pessoas com asma não controlada convive diariamente com as suas limitações, acha normal ter sintomas e não cumpre o tratamento preventivo prescrito pelo médico. Uma das consequências do mau controlo da asma pode ser as agudizações graves com necessidade de internamento. Dados do Inquérito Nacional sobre Asma indicam que uma em cada três crianças com asma foram internadas por asma pelo menos uma vez na vida. O estudo CASCA - Custo da Asma na Criança constatou que em média cada criança com asma vai uma a duas vezes por ano aos serviços de urgência e falta seis dias por ano à escola. Verificou-se também que o principal factor agravante de custos é ter a asma não controlada, que acarreta um absentismo escolar três vezes maior.
A maior dificuldade enfrentada no combate à asma é a falta de diagnóstico, a inadequada adesão ao tratamento e a utilização incorreta dos seus dispositivos inalatórios.

 

VH | Quais as estratégias utilizadas para controlar as doenças alérgicas, nomeadamente por parte dos profissionais de saúde? 
EP | Para controlar as doenças alérgicas é fundamental o diagnóstico precoce, reconhecer os sintomas alérgicos e iniciar tratamento adequado o mais cedo possível. Só assim conseguimos melhorar a qualidade de vida dos doentes e evitar as complicações que podem surgir. Temos de combater o subdiagnóstico e o subtratamento. Os casos mais difíceis e complicados devem ser referenciados para centros onde existem condições para fazer diagnósticos e tratamentos mais diferenciados.
As campanhas de divulgação das doenças alérgicas junto da população em geral em diferentes plataformas de comunicação são muito importantes, pois alertam as pessoas para os sintomas e para a necessidade de recorrerem ao médico. Esse tem sido um dos objetivos das diferentes direções da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC).

 

VH | Qual a visibilidade e o conhecimento destas patologias por parte dos profissionais de saúde, nomeadamente entre os cuidados de saúde primários, que detêm o primeiro contacto com os doentes?
EP | Portugal ainda não tem uma rede de referenciação de Imunoalergologia implementada, que permita um acesso fácil e equitativo dos doentes alérgicos ao médico imunoalergologista do Serviço Nacional de Saúde. Há falta de especialistas no interior de país, é necessário melhorar a cobertura nacional de Imunoalergologia. Os doentes continuam a ser encaminhados para outras especialidades por desconhecimento ou falta de médicos hospitalares e a serem referenciados tardiamente.
Felizmente, a maioria dos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) estão alertados para o diagnóstico e tratamento das doenças alérgicas, graças às campanhas e cursos de pós-graduação que têm sido feitos. O Grupo de Estudo de Doenças Respiratórias (GRESP) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), em colaboração com a SPAIC, muito tem contribuído para esse conhecimento.
Há muitos casos que podem e devem ser seguidos e controlados pelos médicos de MGF. Quando é necessário confirmar o diagnóstico ou os doentes não estão controlados devem ser referenciados ao imunoalergologista.

 

VH | De que forma tem evoluído o tratamento das doenças alérgicas? Que principais novidades destaca?
EP | Muito se tem evoluído nos últimos anos no campo do tratamento e do diagnóstico das doenças alérgicas, com desenvolvimento de novos fármacos, terapêuticas mais personalizadas e novas técnicas de diagnóstico, que trouxeram uma melhor compreensão dos mecanismos fisiopatológicos, uma melhoria no controlo dos sintomas e no prognóstico da doença.
O aparecimento dos medicamentos biológicos, produzidos através de métodos de biotecnologia, e formulados para inativar mecanismos específicos de doença, vieram revolucionar o tratamento de diversas doenças imunomediadas, como a asma grave, a urticária crónica e a dermatite atópica. Estes medicamentos, de administração endovenosa ou subcutânea, são extremamente eficazes quando indicados. A referenciação dos doentes com asma grave e urticária crónica não controlada para uma consulta de Imunoalergologia permitirá uma otimização do tratamento, que poderá incluir fármacos designados como biológicos, que se associam a uma melhoria significativa do controlo da doença e da qualidade de vida dos doentes.  

 

Sobre a SPAIC www.spaic.pt - fundada a 10 de Julho de 1950, como Sociedade Portuguesa de Alergia, a SPAIC é a maior associação científica nacional que agrega especialistas médicos (Imunoalergologistas), investigadores e técnicos dedicados ao estudo da alergia, asma e imunologia clínica, organizando regularmente uma gama alargada de programas para formação e desenvolvimento nessas áreas.
 
Elisa Pedro
Presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC)
Assistente Graduada Sénior de Imunoalergologia do Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Lisboa Norte (CHLN)
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