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Entrevista
Sociedade Portuguesa para o estudo da Obesidade defende comparticipação dos tratamentos farmacológicos para um combate mais eficaz da doença
segunda, 15 outubro 2018 10:52
Por: Paula Freitas, presidente da Sociedade Portuguesa para o estudo da Obesidade
Sociedade Portuguesa para o estudo da Obesidade defende comparticipação dos tratamentos farmacológicos para um combate mais eficaz da doença
A propósito do Dia Mundial da Obesidade, que se assinalou a 11 de outubro, o Vital Health conversou com a presidente da Sociedade Portuguesa para o estudo da Obesidade que realça os benefícios da comparticipação dos tratamentos farmacológicos da doença. “Se começarmos a tratar a obesidade nas suas fases iniciais, com dieta, exercício e modificação comportamental, esta não irá evoluir para formas mais graves, que, no caso da obesidade mórbida, já temos necessidade de recorrer à cirurgia bariátrica”, explica Paula Freitas.

 

Vital Health (VH) |No dia 11 de outubro assinalou-se o Dia Mundial da Obesidade. Qual o impacto desta patologia em Portugal, tendo em conta que, segundo o último estudo português do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), mais de seis milhões de portugueses têm obesidade ou pré-obesidade?

 

Paula Freitas (PF) | A obesidade é considerada a epidemia do século XXI. 22,8% dos portugueses têm obesidade e 34,8% têm pré-obesidade, ou seja, cerca de 60% dos portugueses têm excesso de peso ou obesidade. Esta doença, a obesidade, tem um enorme impacto na saúde, já, que está associada a múltiplas patologias, como diabetes, dislipidemia, hipertensão arterial, apneia do sono, síndrome metabólico, doenças cardiovasculares, como também incontinência urinária, determinados tipos de cancro, alterações musculoesqueléticas, infertilidade, depressão, diminuição da qualidade de vida e mortalidade aumentada. A mortalidade é sobretudo devido a causas cardiovasculares e cancros. E a obesidade também tem enormes custos, quer diretos, quer indiretos, tendo um enorme impacto económico nos sistemas nacionais de saúde e, consequentemente, na economia de cada país.

 

VH | A Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade defende que, de forma a que a obesidade seja tratada desde a fase inicial, é urgente que a terapêutica farmacológica seja comparticipada e, assim, ser acessível a todos. Quais os benefícios que esta decisão iria trazer?

 

PF | Se começarmos a tratar a obesidade nas suas fases iniciais, com dieta, exercício e modificação comportamental, esta não irá evoluir para formas mais graves, que, no caso da obesidade mórbida, já temos necessidade de recorrer à cirurgia bariátrica. A terapêutica farmacológica é também necessária para o tratamento da obesidade, sempre em associação com as medidas de estilo de vida (plano alimentar equilibrado, exercício físico regular), uma vez que permite, em média, reduções do peso corporal na ordem dos cinco, 10, 15% ou até mais. Também é importante realçar que perdas de peso nestas ordens de grandeza se traduzem em melhoria ou regressão da diabetes, dislipidemia, apneia do sono, hipertensão arterial, na redução do risco de doenças cardiovasculares e até de incidência de determinados tipos de cancro. A isto acresce uma redução nos custos para tratar estas comorbilidades e outras doenças associadas à obesidade.
A comparticipação das terapêuticas farmacológicas também permitiria promover a acessibilidade do tratamento da obesidade. É importante destacar que a prevalência da obesidade é maior nas classes sociais mais desfavorecidas, e uma vez que os fármacos não são comparticipados, isso limita a acessibilidade destes indivíduos a terapêuticas que demonstraram ser eficazes quer na redução do peso, quer nas doenças associadas como hipertensão, dislipidemia, apneia do sono ou diabetes. Não tratar e não prevenir o aparecimento de formas cada vez mais graves de obesidade trará enormes custos para os sistemas de saúde. E pelo contrário, se tratarmos a obesidade, podemos reduzir estes custos.

 

VH | Os programas de tratamentos existentes no país apresentam as respostas adequadas, com equipas multidisciplinares?

 

PF | Sobretudo para as formas mais graves de obesidade, a obesidade mórbida, existem no nosso país, a nível do sistema nacional de saúde, 13 centros de tratamento cirúrgicos da obesidade e um centro de elevada diferenciação do tratamento cirúrgico de obesidade, que se situa no Hospital de São João, no Porto. Nestes centros existem equipas multidisciplinares com nutricionistas, médicos (endocrinologistas, cirurgiões), psicólogos/psiquiatras, anestesistas e por vezes também, quando é necessário, pneumologistas e cardiologistas.
Nos casos de obesidade sem indicação cirúrgica, alguns hospitais têm consultas em parceria médico/nutricionista e alguns hospitais estabeleceram com os cuidados primários programas quer de prevenção, quer de tratamento da obesidade, em colaboração também com as faculdades de desporto.

 

VH | Considera que o estado português deve criar condições de acesso a tratamentos inovadores inibidores de apetite?

 

PF | Se mais doentes com indicação para efetuar terapêutica farmacológica tiverem acesso aos fármacos inovadores, podemos tratar não só a obesidade per se como também prevenir, reduzir ou mesmo regredir a ocorrência das comorbilidades da obesidade. A longo prazo, esta medida teria um impacto económico favorável, não só porque não seria necessário despender de tantos recursos económicos para tratar estas patologias, como porque teríamos indivíduos mais saudáveis, mais produtivos no trabalho, com melhor qualidade de vida e maior esperança de vida.

 

VH | Um dos grandes desafios do tratamento da obesidade é a manutenção do peso após a perda de peso. Qual a opção mais viável para controlar este problema?

 

PF | O reganho ponderal é um processo fisiológico comum, mas com a manutenção dos cuidados alimentares e com muita atividade física podemos impedi-lo.

 

VH | Há mais algum assunto que queira destacar?

 

PF | A obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial. A obesidade não é um problema estético ou cosmético. A doença, em cerca de 90 a 95% das situações, está relacionada com fatores externos (estilo de vida - sedentarismo, inatividade física, má prática alimentar e aumento da disponibilidade alimentar), e em apenas cerca de cinco a 10% está associada a doenças endócrinas tratáveis, e, menos frequentemente, a causas genéticas. Algumas destas formas de obesidade têm tratamentos específicos e orientados para causa.
Em todas as situações de obesidade ou pré-obesidade deve-se sempre procurar o médico assistente que poderá resolver o problema ou orientar para os centros especializados no tratamento médico ou cirúrgico da obesidade, de acordo com a situação.

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