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Entrevista
“O AVC pode ser evitado ou tratado em cerca de 80% dos casos”
segunda, 29 outubro 2018 11:44
Por: Luísa Fonseca, coordenadora da Unidade AVC do Centro Hospitalar São João
“O AVC pode ser evitado ou tratado em cerca de 80% dos casos”
No Dia Mundial do AVC, que se assinala hoje, o Vital Health conversou com Luísa Fonseca, coordenadora da Unidade AVC do Centro Hospitalar São João, que refere que “o  acidente vascular cerebral (AVC) pode ser evitado ou tratado em cerca de 80% dos casos”. Nesta entrevista, a especialista explica quais os sintomas associados a esta emergência médica, o procedimento perante o AVC e qual o panorama do seu tratamento em Portugal.

 

Vital Health (VH) | O que é um acidente vascular cerebral (AVC)? Qual a diferença entre um AVC isquémico e um derrame?

 

Luísa Fonseca (LF) | O acidente vascular cerebral (AVC) é uma emergência médica que se carateriza pela súbita diminuição do fluxo de sanguíneo no cérebro, o que impede que este órgão receba o oxigénio e nutrientes. Existem dois tipos de AVC, o AVC isquémico provocado pela obstrução/oclusão de uma artéria e o AVC hemorrágico em que é a rutura de uma artéria que provoca o evento.O AVC é a principal causa de morte em Portugal. Por hora, três Portugueses sofrem AVC, um não sobreviverá e outro ficará com sequelas importantes.

 

VH | Quais são os sinais e sintomas que permitem identificar um AVC?

 

LF | Entre os sintomas mais frequentes salienta-se um conjunto de manifestações comumente conhecido pelos “3 F’s”. São eles: a face descaída, dando uma sensação de assimetria do rosto, a diminuição da força num braço (acompanhada ou não de diminuição de força na perna) e a dificuldade na fala, dificuldade em ter qualquer tipo de discurso, fala arrastada ou existência de discurso pouco compreensível e sem sentido.
A alteração da visão, diminuição abrupta de visão num ou em ambos os olhos ou visão dupla, uma forte/invulgar dor de cabeça, a dificuldade em coordenar os movimentos dos membros e a presença ou instalação de desequilíbrio são também sintomas frequentes.

 

VH | Em caso de suspeita de AVC, na pessoa ou em alguém próximo, como se deve agir?

 

LF | Em caso de suspeita de AVC deve ser contactado o INEM (ligar 112), que disponibilizará os meios de auxílio específicos ao acionar a Via Verde do AVC e transportar o doente ao hospital com capacidade para proporcionar o tratamento adequado.

 

VH | Qual pode ser o tratamento para o AVC?

 

LF | No caso do AVC isquémico, na fase aguda, existe a possibilidade de realizar tratamento de reperfusão: tratamento trombolítico que consiste na administração endovenosa de fármaco com o objetivo de dissolver o trombo (pode ser realizado até 4,5h após início de sintomatologia) e/ou trombectomia mecânica, que consiste numa intervenção endovascular em que o trombo é retirado da artéria por meios mecânicos. Este tratamento deverá ser realizado o mais precocemente possível para que tenha a eficácia desejada, obter um maior grau de independência aos 90 dias.

No caso do AVC hemorrágico o tratamento envolve medidas de suporte e otimização da hemodinâmica intracraniana, sendo que em alguns casos pode ter indicação para realização de cirurgia.

VH | É possível sobreviver e recuperar após a ocorrência de um AVC?

 

LF | Ao fim de um ano cerca de 30% dos doentes que sofreram um AVC acabam por morrer e cerca de metade dos sobreviventes ficam com algum tipo de incapacidade.

Além da necessidade de tratamento precoce, que permite um aumento do grau independência aos 90 dias, a possibilidade de aceder a um programa de reabilitação após o AVC é também de extrema importância. A reabilitação tem um papel muito importante na recuperação destes doentes e, por isso, deve ser iniciada tão precocemente quanto possível, devendo ser mantida de forma continuada após alta hospitalar (fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional).

A sua duração depende dos défices neurológicos e da resposta ao tratamento. Está demonstrada uma forte correlação entre a duração da fisioterapia e a melhoria funcional do doente, tendo como objetivo minimizar os défices e promover a autonomia. Este processo de reabilitação é, muitas vezes, moroso e complexo, exigindo um elevado grau de perseverança e colaboração por parte do doente e familiares.

 

VH | O estilo de vida influencia a ocorrência de AVC? É uma doença que pode ser evitada?

 

O AVC pode ser evitado ou tratado em cerca de 80% dos casos. Mesmo que fatores determinantes como a genética, a idade ou o género, não sejam passiveis de ser alterados, existem outras formas de reduzir o risco de sofrer um AVC, tais como, controlar a pressão arterial, tratar a diabetes e a dislipidemia, adotar uma alimentação saudável, pobre em gorduras e sal, como também praticar exercício físico regularmente, não fumar (fumar duplica o risco de ter um AVC), nem consumir bebidas alcoólicas em excesso. Nos doentes que têm fibrilação auricular existe a possibilidade de terapêutica específica.

Em muitos casos, a alteração dos hábitos do dia a dia não é suficiente, sendo obrigatório iniciar tratamento farmacológico para correção dos fatores de risco. Em todas as situações em que existe patologia associada deve ser feito seguimento regular em consulta, seguindo as orientações do médico assistente.

 

VH | Quais os principais mitos associados a esta doença súbita e que devem ser desmistificados?

 

LF | Existem realmente alguns mitos que importar desmistificar:

a) O AVC só acontece aos idosos – Não é verdade, cerca de um quarto dos AVC acontecem a pessoas com menos de 65 anos. Além disso crianças e jovens também podem ter AVC, nestes casos, a etiologia é outra, habitualmente associado a doenças genéticas, a infeção ou disseção das artérias (normalmente associada a trauma).

b) Se descansar os sintomas desaparecem – Falso. Sempre que surge algum sinal de alerta deve telefonar, de imediato, para o INEM (112), se ficar em casa perde a possibilidade de receber tratamento eficaz
c) Quando alguém tiver um AVC é mais fácil levá-la diretamente ao hospital- Falso. sempre que surge algum dos sinais de alerta, deve ser ativado o 112, que disponibilizará os meios de auxílio específicos ao acionar a Via Verde do AVC e transportar o doente ao hospital mais adequado para proporcionar o tratamento necessário.

d) Se tiver sintomas, mas recuperar em pouco tempo não preciso tratamento – Falso. Quando tem sintomas, mesmo que transitórios (acidente isquémico transitório - AIT), continua a ser necessário ser observado pelo médico, pelo que deverá contactar o 112.

e) O sintoma mais frequente do AVC é a dor de cabeça- não é verdade, só cerca de 30% dos doentes com AVC referem cefaleias (dor de cabeça).

 

VH | Como caracteriza o panorama do AVC em Portugal, quando comparado com outros países do mundo?

 

LF | O AVC é responsável por cerca de 11% das mortes em Portugal, valor acima da média europeia. A hipertensão arterial é um fator de risco prevalente na população portuguesa, sendo que cerca de um terço dos portugueses são hipertensos e este é, claramente, um dos fatores de risco apontado como responsável.

Num estudo publicado este ano, comparando o acesso ao tratamento de fase aguda no AVC isquémico e o tipo de tratamento realizado em 44 países da europa, Portugal encontra-se abaixo da média em relação à percentagem de doentes com AVC isquémico a quem foi realizado tratamento trombolítico. Temos que melhorar!

Houve, nos últimos anos, bastantes progressos no tratamento dos doentes com AVC e Portugal acompanhou-os, no entanto, existem pontos importantes a melhorar. É necessário promover a educação da população, no sentido do reconhecimento dos sinais de alarme do AVC, alertar para o facto de o evento ser uma situação potencialmente ameaçadora de vida, uma verdadeira emergência médica, com necessidade de ativação do 112, de modo a permitir que mais doentes cheguem ao hospital dentro do tempo adequado para o tratamento (janela de trombólise).

A organização do sistema de seleção e referenciação para tratamento endovascular, é outro ponto a considerar, além de permitir o acesso ao tratamento de um maior número de doentes, deverá diminuir as assimetrias que se verificam ao nível das várias regiões do país. Destaco o Alentejo, Algarve, interior do país e o arquipélago dos Açores como regiões prioritárias de intervenção.

A disponibilidade de meios, quer a nível de equipamento, quer de recursos humanos, não está adequada às necessidades, havendo a necessidade de colmatar estas lacunas. Contudo, o tratamento dos doentes com acidente vascular cerebral vai além da fase aguda, sendo imprescindível não descurar a reabilitação. A reabilitação assume um papel preponderante a vários níveis: recuperação funcional, cognitiva e psicossocial, integração social, melhoria de qualidade de vida, manutenção de atividade e grau de independência.

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