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Entrevista
"A enxaqueca é uma doença incapacitante, mas as pessoas com enxaqueca não são incapazes"
sexta, 23 novembro 2018 10:57
Por: Raquel Gil-Gouveia, neurologista do Centro de Cefaleias do Hospital da Luz
"A enxaqueca é uma doença incapacitante, mas as pessoas com enxaqueca não são incapazes"

Cerca de 80% dos portugueses que sofrem de enxaqueca sentem-se limitados para cumprir as tarefas diárias, sendo que 50% dos portugueses que sofrem desta doença faltam, em média, quatro dias por mês ao trabalho. As conclusões são do My Migraine Voice, o maior estudo mundial realizado em aproximadamente 11 mil pessoas que sofrem de enxaqueca, incluindo em Portugal, que foi apresentado no último dia 15 de novembro, durante o Congresso de Neurologia. Em entrevista ao Vital Health, Raquel Gil-Gouveia, neurologista do Centro de Cefaleias do Hospital da Luz, assegura que, apesar de ser "uma doença incapacitante", "as pessoas com enxaqueca não são incapazes".

 

Vital Health (VH) | Como se caracteriza uma enxaqueca? Quais os fatores de risco associados e de que forma se manifesta?

 

Doutora Raquel Gil-Gouveia (RGG) | A palavra enxaqueca designa simultaneamente uma doença e o nome das crises que ocorrem nessa doença. A doença “enxaqueca” é uma doença neurológica na qual ocorrem de forma imprevisível, crises de “enxaqueca”. Estas crises têm início progressivo, muitas vezes com sintomas indefinidos de mal estar, fadiga, falta de concentração, bocejo, fome ou sede, nos quais se enxerta uma dor de cabeça que habitualmente se localiza em metade do crânio (do árabe, ax-xaquica) e é intensa e pulsátil, acompanhada de intolerância à luz, ao ruído e ao movimento, assim como de náuseas, com ou sem vómitos.
Estas queixas são habitualmente muito incapacitantes, se não tratadas, acompanhadas de irritabilidade, fadiga, dificuldade de raciocínio e de concentração e estão associadas a marcada incapacidade funcional para o trabalho e atividades básicas da vida diária. Por definição, as crises duram entre quatro e 72 horas e o seu final é também progressivo, com a dor a aliviar, mas mantendo frequentemente um período adicional de horas até um dia em que se mantém as queixas de fadiga, mal-estar geral, sonolência e cansaço.
Em 15% das pessoas, antes do início da dor podem ocorrer outros fenómenos neurológicos transitórios, como perturbação ou perda de metade do campo de visão, formigueiros ou falta de sensibilidade de uma mão, de um dos lados da face e/ou da boca e ainda dificuldade em falar e/ou compreender as palavras – este fenómeno designa-se por aura.
As crises desta doença ocorrem regularmente, sendo raro as pessoas que sofrem desta doença passarem um mês inteiro sem crises. Alguns fatores do ambiente interno ou externo ao organismo, que designamos por fatores precipitantes ou desencadeantes, podem facilitar ou aumentar a probabilidade de desencadear crises, entre os quais as oscilações hormonais femininas (ex. menstruação), as alterações do padrão de sono (dormir a menos ou a mais), as oscilações da ansiedade (stress repentino ou relaxar depois de uma fase de mais stress), as variações do clima (temperatura, humidade, pressão atmosférica), alguns alimentos (como o álcool, o chocolate, o queijo entre outros) etc. Nem todas as pessoas com enxaqueca são sensíveis a algum ou vários destes fatores, sendo que a grande maioria das crises ocorrem sem existir nenhum fator desencadeante.

 

VH | Como pode ser diagnosticada e tratada? Existe alguma forma de prevenção?

 

RGG | O diagnóstico da enxaqueca é clínico, não se baseia em nenhum exame complementar. É efetuado pela colheita da história, pelas características da dor e sobretudo pelo padrão de ocorrência das crises e pela observação dos doentes. Existem critérios de diagnóstico bem definidos na Classificação Internacional das Cefaleias, cuja 3ª edição foi publicada em 2018.
Existem duas estratégias de tratamento para a enxaqueca, o tratamento agudo ou de crise, cujo objetivo é encurtar ou interromper as crises quando estas ocorrem, e o tratamento preventivo, cujo objetivo é diminuir a frequência, intensidade e duração das crises e, portanto, o impacto da doença. Em ambas as estratégias de tratamento podem ser adotadas medidas não farmacológicas ou farmacológicas, incluindo terapêuticas de neuroestimulação.

 

VH | De que forma a enxaqueca afeta o doente? Por que razão pode ser considerada uma doença do foro social?

 

RGG | A enxaqueca é um problema mundial de Saúde Pública, dada a sua prevalência e a incapacidade associada às suas crises. Por afetar os indivíduos, sobretudo as mulheres, sobretudo na fase mais ativa da vida (dos 20 aos 40 anos), tem enormes implicações económicas por condicionar perda de produtividade laboral e incapacidade de manter as atividades sociais e familiares nos dias de crise. A pessoa com enxaqueca sofre por ter crises de mal-estar e dor intensa, nas quais não funciona, e que lhe roubam tempo de vida útil. Sofre ainda porque tenta compensar a atividade, sobretudo laboral, que não conseguiu efetuar no tempo perdido durante as crises.
Nesta tentativa, frequentemente abdica de atividades de menos responsabilidade, como descanso e atividades sociais ou de lazer, o que lhe rouba o seu tempo de qualidade. Sofre ainda porque tem dificuldade em planear a sua vida, o trabalho e as férias, pois os seus planos podem ser inesperadamente comprometidos com o aparecimento de uma crise violenta. Por fim, sofre frequentemente de incompreensão por parte dos colegas e chefias no trabalho, por parte dos amigos e contatos sociais, por vezes até por parte da família e/ou dos profissionais de saúde, que por vezes não conseguem imaginar a violência destas crises e a dificuldade que condicionam para efetuar as tarefas mais básicas.
Assim, os doentes veem muitas vezes que o enorme esforço que fazem para conseguir funcionar numa crise não é valorizado, que o sacrifício que fazem para compensar o trabalho ou as atividades de responsabilidade nem sequer é notado por terceiros, que por vezes ainda ironizam a situação ou a conotam como fraqueza ou ineficiência. É muito importante perceber que a enxaqueca é uma doença incapacitante, mas as pessoas com enxaqueca não são incapazes.

 

VH | No Congresso de Neurologia, foram apresentados os resultados do My Migraine Voice, o maior estudo mundial sobre enxaqueca. Como foi desenvolvido? Para além de Portugal, que outros países participaram nesta investigação global?

 

RGG | O estudo My Migraine Voice é um estudo baseado em questionários que foi promovido pela European Migraine and Headache Alliance, em colaboração com a Novartis, que decorreu em 31 países incluindo mais de 11 mil adultos com, pelo menos, quatro dias de enxaqueca por mês e pelo menos duas falhas de tratamentos preventivos prévios. Isto é, doentes com importante impacto da doença.
Estes questionários foram aplicados online, sobretudo através de painéis de inquiridos, mas em 11 países, sobretudo europeus, mas também Canadá, Rússia e Taiwan, os participantes foram também recrutados através das associações de doentes. O estudo pretende caracterizar o impacto pessoal e social da enxaqueca, questionando sobre o impacto na produtividade laboral, sobre o impacto pessoal e as estratégias terapêuticas utilizadas.

 

VH | Uma das principais conclusões do estudo, e uma das que mais impressionam, revela que cerca de 50% dos portugueses que sofrem de enxaqueca faltam, em médica, quatro dias por mês ao trabalho. Como comenta esta realidade?

 

RGG | Devo salientar que a amostra incluída neste estudo representa pessoas com alto impacto de doença, ou seja, pessoas com enxaqueca que estão sob tratamento e que já falharam alguns tratamentos prévios e, mesmo assim, têm pelo menos quatro crises por mês. Esta população não é representativa da maioria dos doentes com enxaqueca, pelo que estamos a falar do impacto de pessoas com enxaqueca severa que representa cerca de 10% das pessoas com enxaqueca, não se podendo extrapolar estes dados para a população em geral.
Apesar de tudo, são dados impressionantes que indicam que uma fração relevante dos doentes com enxaqueca têm uma doença com elevadíssimo impacto funcional, sendo fácil de compreender que este nível de incapacidade e de faltas laborais aumentam o risco de desemprego e de instabilidade económica, o que só dificulta ainda mais a resolução deste problema.

 

VH | Quais os principais problemas e condicionantes relacionados com a enxaqueca apontados pelos participantes do estudo? Que outras conclusões podem ser destacadas?

 

RGG | Neste estudo ficaram também claros os dados de impacto pessoal, com a expressão de sentimentos negativos por parte dos doentes, incluindo a incompreensão por parte dos outros (54%), a sensação de impotência face à doença (43%), a tristeza/depressão (40%) e as dificuldades do sono (95%). Estas queixas, condicionadas pela situação de incapacidade provocada pela doença, aumentam o risco de os doentes mais graves sofrerem de perturbação da ansiedade e/ou depressão reativa, duas comorbilidades muito frequentes nos doentes com enxaqueca grave, que ainda acrescem em sofrimento e incapacidade nesta doença. É muito importante compreender que, nos doentes mais graves, a abordagem deve ser muito mais ampla do que a simples prescrição terapêutica, é necessário avaliar e abordar as perturbações do humor, do sono, a utilização excessiva de analgésicos, de café e/ou tabaco, medidas do estilo de vida e muitas vezes até correção da postura e/ou de outros quadros álgicos osteo-articulares ou musculares.
Outro aspeto a salientar é o impacto económico, na produtividade, que acaba por ter implicações a nível nacional, dada a prevalência da doença. Foi demonstrado, noutros estudos, que o tratamento da enxaqueca é custo-efetivo. Ou seja, o que se despende em medicação e consultas no tratamento da enxaqueca é amplamente compensado pelo tempo que se recupera, apenas em termos de produtividade laboral. Como sociedade, devemos refletir sobre o impacto económico desta patologia, assim como o seu impacto social.

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