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Entrevista
Cancro digestivo representa 10% da mortalidade portuguesa e "constitui cerca de 1/3 de todos os cancros"
quarta, 23 janeiro 2019 11:57
Por: Rui Tato Marinho e Marília Cravo, Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG)
Cancro digestivo representa 10% da mortalidade portuguesa e "constitui cerca de 1/3 de todos os cancros"

O cancro digestivo regista números bastantes elevados em todo o mundo, pelo que Portugal não é exceção, representando 10% da mortalidade portuguesa e matando atualmente um português por hora. O aumento da esperança média de vida e a prática de estilos de vida menos saudáveis constituem uma fórmula favorável a este tipo de situações. Como tal, este é um tema que tem recebido muita atenção dos especialistas, nomeadamente da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG). Para este sábado, 26 de janeiro, está marcada a Reunião Monotemática da SPG 2019, em cuja comissão organizadora estão presentes os gastrenterologistas Rui Tato Marinho e Marília Cravo. Segundo afirmam, aqui vai ser discutido o impacto que os cancros do aparelho digestivo têm, sendo "aqueles que constituem cerca de 1/3 de todos os cancros". 

 

Vital Health (VH) | O cancro digestivo representa 10% da mortalidade portuguesa, matando atualmente um português por hora. Como comentam esta realidade?

Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG) | As doenças oncológicas, juntamente com as doenças cardiovasculares, são as principais causas de mortalidade. Para além da esperança média de vida estar a aumentar, estão também a aumentar hábitos e fatores de risco associados a maior incidência de muitos destes tumores como sejam o excesso de peso, dieta hipercalórica e consumo de álcool imoderado.

 

VH | Que comparação estabelecem entre a realidade nacional e o panorama mundial?

SPG | Temos incidências comparáveis às observadas no mundo ocidental com algumas diferenças. Assim, o cancro do cólon e reto é menos prevalente que nos Estados Unidos ou Austrália mas, em contrapartida, o cancro do estômago tem incidências bastante superiores.

 

VH | Como caracterizam os cinco tipos de cancro digestivo – pâncreas, fígado, esófago, estômago e cólon e reto – tendo em conta a sua incidência e mortalidade?

SPG | Para o tumor do esófago tipo espino celular os principais fatores de risco são o tabaco e álcool em excesso. A incidência deste tipo de neoplasia está a baixar de uma forma global. Para o tumor do esófago, variante adenocarcinoma, o principal fator de risco é o refluxo gastro esofágico, patologia extremamente frequente, pelo que a incidência deste tumor está a aumentar.

Para o cancro do estômago o principal fator de risco é a infeção pelo Helicobacter pylori, razão pela qual está cada vez mais recomendada a erradicação da mesma. No cancro gástrico, está também demonstrado que uma alimentação rica em sal e pobre em frutos e legumes possa também predispor para o aparecimento desta neoplasia.

Para o cancro do pâncreas o consumo de álcool e tabaco, a diabetes mellitus e uma história familiar positiva são os principais fatores de risco. De notar que o excesso de peso/ obesidade, aliado à falta de exercício físico, constitui um fator de risco para algumas destas neoplasias, nomeadamente esófago distal, pâncreas, cólon e reto e talvez o estômago.

Em relação à mortalidade os valores mais elevados continuam a ser para o pâncreas, esófago, estomago e finalmente cólon e reto, que tem melhor prognóstico.

Para o cancro do fígado o principal fator de risco continua a ser o consumo crónico e excessivo de álcool, logo seguido das infeções crónicas pelo vírus C e B. De notar que também aqui o excesso de peso e a obesidade podem originar cirroses hepáticas de difícil controlo.

 

VH | Qual a importância de alertar a população portuguesa para fatores de risco, prevenção e diagnóstico precoce, com vista a um tratamento eficaz?

SPG | Os fatores de risco estão associados a comportamentos menos saudáveis, mas infelizmente muito frequentes da sociedade dita moderna: consumo excessivo de álcool, obesidade, tabagismo, falta de exercício físico, excesso de consumo de carne, reduzida ingestão de frutas e legumes. De modo mais específico, para os evitar aconselhamos o rastreio do cancro do cólon, do cancro do fígado em quem tem cirrose, o tratamento da bactéria denominada Helicobacter pylori, por vezes presente no estômago. Mas voltamos a insistir no rastreio do cancro do cólon. Pode não ser agradável realizar uma colonoscopia mas é pior surgir um cancro e pensar que se poderia ter evitado.

 

VH | Que estratégias devem ser adotadas para tentar contrariar a atual realidade portuguesa, no que ao cancro digestivo diz respeito?

SPG | Prevenção primária, contrariar a obesidade, promover uma alimentação saudável, promover o exercício físico, promover os programas de rastreio e promover uma boa articulação entre Centros de Saúde e Hospitais – centros de referência especializados no tratamento de cada um destes cancros.

 

VH | De que forma vai ser abordado este tema na Reunião Monotemática da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia (SPG), a decorrer no próximo dia 26 de janeiro? Quais os objetivos que se espera alcançar?

SPG | Vamos abordar, primeiro de uma forma global, dando a verdadeira imagem do peso e do impacto que os tumores do aparelho digestivo têm no seu conjunto. No fundo são aqueles que constituem cerca de 1/3 de todos os cancros e que ocupam diariamente aa nossa vida de gastrenterologistas. Queremos demonstrar a importância do nosso papel na prevenção, no rastreio, no diagnóstico, no tratamento, e até na parte final da vida do doente oncológico digestivo.

Vamos ter oportunidade de ouvir médicos portugueses de projeção internacional. Portugal, de um modo global, está ao nível daquilo que melhor se faz por esse mundo fora nesta área.

O modo em como a Reunião está organizado pretende promover o modo de gestão do doente com equipas multidisciplinares. O doente não vai à consulta, mas a sua doença é apreciada por um conjunto de vários especialistas, que decidirão o melhor para si. Estas equipas são constituídas por gastrenterologistas, cirurgiões, radiologistas, oncologistas, especialistas em Anatomia Patológica (os que analisam as biopsias).

Queremos também aproveitar a reunião para sugerir que a formação básica do gastrenterologista inclua de modo mais incisivo o contacto com a realidade oncológica.
Temos que nos preparar todos para a inovação, que temos por certo, e que tem acontecido nesta área de modo avassalador, com benefício para os doentes portugueses.

 

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