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Entrevista
Todos os dias morre uma mulher com cancro do colo do útero
terça, 29 janeiro 2019 09:22
Por: José Maria Moutinho, Hospital CUF – Porto
Todos os dias morre uma mulher com cancro do colo do útero
Em Portugal, morre uma mulher por dia com cancro do colo do útero. No final do ano, feitas as contas, somam-se mais 720 novos casos de doença. O cancro do colo do útero é causado por uma infeção do vírus do papiloma humano (HPV) e desenvolve-se silenciosamente. Por isso, a Semana Europeia de Prevenção do Cancro do Colo do Útero, que decorreu entre o dia 21 e 27 de janeiro, serviu como alerta para a importância dos rastreios e da prevenção como fatores fundamentais na luta contra esta doença. O site Vital Health falou com o ginecologista José Maria Moutinho, do Hospital CUF – Porto, que explicou os sintomas e a importância da prevenção através da vacina e dos rastreios. O especialista realçou, ainda, a diferença que um diagnóstico precoce pode ter na vida da doente.

 

 

Vital Health (VH) | Todos os anos, a nível mundial, estima-se que ocorram 530 mil novos casos de cancro do colo do útero. Como descreve a realidade nacional?

 

José Maria Moutinho (JMM) | Em 2018, o cancro do colo do útero (CCU) em Portugal tem uma incidência de 8,9 e uma mortalidade de 2,3 / 100 000 mulheres. Isto representa cerca de 720 novos casos por ano, dos quais 390 fatais. Estes números, relativamente elevados para um país desenvolvido, significam que o CCU ocupa o 7.º lugar nos cancros mais frequentes na mulher e o 2.º lugar nas mulheres entre os 15 e os 44 anos.

 

Desde há 20 anos que a incidência e a mortalidade do CCU tem vindo a baixar (em 1995, a incidência era de 18,8 e a mortalidade de 6,3/100 000 mulheres). Este declínio deve-se ao rastreio secundário que tem sido implementado nas várias regiões do país, onde, especialmente nos últimos anos, atinge um número cada vez maior da população.

 

 

VH | Quais os sintomas mais comuns neste tipo de cancro?

 

JMM | O CCU é um cancro com um desenvolvimento silencioso, principalmente nos estádios mais precoces da doença, altura que os métodos terapêuticos existentes são altamente eficazes. Normalmente, sobretudo em fases mais avançadas da doença, os principais sintomas são corrimento vaginal anormal e as coitorragias. Deste modo, é fundamental que as mulheres entre os 25-70 anos, que representam o maior grupo de risco, tenham um exame ginecológico regular (anual).

 

 

VH | Quais os fatores de risco associados ao cancro do colo do útero?

 

JMM | Os principais fatores de risco associado ao CCU são: o início precoce das relações sexuais, o número de parceiros sexuais e o tabagismo. Estes fatores estão ligados ao risco de infecção por HPV de alto risco, facto necessário, embora não suficiente, ao desenvolvimento do CCU.
 

É de salientar, que em Portugal, o grupo de mulheres com maior risco de CCU, é uma mulher adulta com história de ter ou já ter tido relações sexuais e que nunca participou num programa de rastreio, quer oportunístico, quer organizado.

 

 

VH | Sabendo que este cancro é desencadeado por uma infecção persistente do Vírus do Papiloma humano (HPV), de que forma é que pode ser feita a sua prevenção?

 

JMM | A prevenção do cancro do colo do útero pode ser feita de 2 maneiras: 1.º Prevenção primária: vacinação de raparigas entre os 9-13 anos, antes do início das relações sexuais, impedindo a infecção pelos HPVs de alto risco, seguindo as recomendações do Plano Nacional de Vacinação (PNV). Esta prevenção primária pode ser estendida, com elevada eficácia a todas as mulheres até aos 26 anos.

 

O risco de infecção nas mulheres adultas de média idade, sexualmente ativas, continua elevado (5-15% / ano). Deste modo, sabe-se hoje que a vacinação deste grupo de mulheres apresenta uma elevada eficácia na prevenção do CCU.

 

2.º Prevenção secundária: rastreio, de preferência organizado, onde através do teste de HPV realizado regularmente (5 em 5 anos) são detetadas lesões displásicas (que precedem o CCU), que, uma vez convenientemente tratadas, impedem o aparecimento da doença.

 

 

VH | Por que motivo é tão importante fazer-se a vacinação contra o HPV?

 

JMM | A infecção por HPV constitui a doença de transmissão sexual mais frequente, 75-80% dos homens e mulheres sexualmente ativos podem ser infetados, em algum momento da sua vida. Esta infecção é hoje considerada pela OMS como o 2.º carcinogéneo mais importante, logo a seguir ao tabaco, sendo responsável por 5% dos cancros, 10% nos cancros na mulher e 15% dos cancros na mulher em países subdesenvolvidos.

 

A vacina inserida no PNV confere uma protecção estimada em 90% para o CCU, 95% para o cancro do ânus, 90% para o cancro da vulva dependente do HPV, 85% para o cancro da vagina e 90% para as verrugas genitais. Esta alta eficácia das vacinas, verificada nos ensaios clínicos, tem mostrado também uma elevada efectividade na prática clinica. Assim, em todos os países onde foi introduzida a vacinação, assiste-se a uma baixa acentuada das doenças relacionadas com o HPV, mesmo no grupo da população não vacinada (proteção de grupo).

 

 

VH | Qual o impacto potenciado pela inclusão da vacina contra o HPV no Programa Nacional de Vacinação (PNV) no panorama do cancro do colo do útero?

 

JMM | Um PNV bem implementado e bem sucedido, tal como o existente em Portugal, constitui uma forma altamente eficaz de prevenção primária do CCU e de outras doenças associadas à infecção por HPV.

 

Portugal é um dos países mundiais com maior cobertura vacinal (consistentemente acima dos 85%). Uma elevada taxa de cobertura vacinal, para além de ser o fator mais importante no êxito de um programa vacinal, constitui também um fator de protecção para o grupo populacional não vacinado. A vacinação contra o HPV constitui a medida mais eficaz em termos de saúde pública na prevenção de um cancro, com ganhos elevados em termos da relação custo/benefício.

 

Por outro lado, após a administração de mais de 270 milhões de doses da vacina, os efeitos adversos graves são praticamente inexistentes, considerando a OMS uma das vacinas mais eficazes e inócuas.

 

 

VH | Na Semana Eurropeia da Prevenção do Cancro do Colo do Útero, quais as principais mensagens que devem ser transmitidas à população?

 

JMM | Em Portugal ainda existe um número elevado de casos de CCU/ano para um país desenvolvido. Embora o diagnóstico nos estádios iniciais apresente uma elevada percentagem de cura, a morbilidade associada, assim como os custos, são significativos. O CCU é hoje uma doença evitável, quer através da vacinação (prevenção primária), quer através do rastreio (prevenção secundária).

 

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