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Entrevista
Comer doces na Páscoa na dose certa
segunda, 15 abril 2019 10:45
Por: Carla Pedrosa, nutricionista no Centro Hospitalar do Baixo Vouga, membro da SPEO e vice-presidente da SPCNA
Comer doces na Páscoa na dose certa
 

A poucos dias de uma das maiores festividades do calendário - a Páscoa - Carla Pedrosa, nutricionista do Centro Hospitalar do Baixo Vouga, em Aveiro, aponta a obesidade como um dos maiores problemas da Saúde Pública, sublinhando ainda o risco que lhe está associado no aumento de outras comorbilidades. No que diz respeito à Páscoa, a especialista enumera várias linhas orientadoras para se conseguir comer alguns dos doces típicos nas doses certas. 

 

 

Vital Health (VH) | Como nutricionista, como vê o crescente aumento da prevalência da obesidade em Portugal?
Carla Pedrosa (CP) | A elevada prevalência de obesidade em Portugal constituiu um grave problema de Saúde Pública. A obesidade aumenta o risco de desenvolvimento de diversas comorbilidades, tais como diabetes, hipertensão, dislipidemia, doenças cardiovasculares, cancro, entre outras. Portanto, não só tem um forte impacto na saúde e na qualidade de vida do indivíduo, como também tem um impacto económico significativo na sociedade.
Sendo a alimentação um dos fatores ambientais mais associados à obesidade, o papel do Nutricionista torna-se fundamental no desenvolvimento de estratégias que promovam hábitos alimentares saudáveis, contribuindo não só para a prevenção, mas também para a redução da prevalência de obesidade.
 

VH | Na altura da Páscoa, as pessoas são mais expostas a certos alimentos ricos em açúcar, tais como o chocolate, podendo assim despertar um nível de desejo por este tipo de alimento difícil de controlar. Considera que estes desejos representam um sério obstáculo à perda de peso, sobretudo nos doentes obesos que tentam adotar um estilo de vida mais saudável?

CP | Hoje em dia, a exposição a alimentos ricos em açúcares não se verifica apenas em situações festivas, mas sim diariamente. Vivemos num ambiente obesogénico, altamente promotor de um balanço energético positivo e consequente ganho ponderal. É importante ter a noção que a “tentação mora ao lado” e nem todos os indivíduos têm a mesma capacidade de gerir as suas emoções e desejos, e de consequentemente controlar a sua ingestão alimentar. Numa situação festiva, a maior disponibilidade deste tipo de alimentos poderá traduzir-se num maior consumo e aporte energético excessivo, o que poderá constituir um obstáculo a uma perda de peso sustentada.
 

VH | Sabemos que, mesmo quando as pessoas se sentem saciadas do ponto de vista alimentar, existem alturas de uma grande compulsão por alimentos deste género. Esta dificuldade de resistir a estes alimentos altamente palatáveis mesmo quando saciados é uma realidade com que muitas vezes se depara nas suas consultas?

CP | Sem dúvida. Nem sempre se come apenas por ter “fome”, e nem sempre paramos de comer por estarmos saciados. Podemos comer pelo prazer da comida, pela companhia, pelo stress ou ansiedade, por estarmos tristes, e por muitas outras razões. No tratamento da obesidade é importante procurar reconhecer estas situações e perceber de que modo podemos trabalhar com os nossos utentes na melhoria destas condicionantes. A baixa motivação ou o baixo auto-controlo tornam a pessoa mais vulnerável a impulsos externos e a tentações. É frequente em situações de baixa auto-estima, de maior stress ou estados depressivos, os utentes relatarem maior ingestão alimentar, por vezes até compulsiva, nomeadamente de alimentos mais ricos em açúcares e gorduras, como é o caso dos chocolates, bolos, gelados, entre outros. Não nos podemos esquecer que o acto de comer ativa também mecanismos hedónicos, associados ao prazer. E neste sentido, poderíamos dizer que a comida funciona como um vício.
 

VH | Que estratégias aconselharia a um doente obeso ou com excesso de peso a adotar em ocasiões festivas como é o caso da Páscoa?

CP | Em primeiro lugar, é importante que o doente tenha a noção de que o dia de festa é permitido, desde que com moderação. Ou seja, não é um dia que irá “deitar tudo a perder”, desde que nos restantes cumpra com rigor o que lhe foi transmitido. No dia em questão pode:
 

1Diminuir a oferta alimentar: é vulgar na nossa população, em situações de festa, colocar-se na mesa quantidades excessivas de alimentos; como tal, deve adequar-se a oferta ao número de pessoas;

2. Incluir opções saudáveis no menú: saladas variadas, legumes, sopa, frutas, água;

3. Iniciar a refeição principal por uma sopa de legumes: contribui para a saciedade;
4. Mastigar devagar: permite uma melhor regulação da ingestão alimentar e aumenta a saciedade pela produção de peptídeos anorexigénicos;
5. Servir-se em pequenas quantidades: utilizar pratos mais pequenos (ex. pratos de sobremesa);
6. Escolher apenas uma ou duas sobremesas: não querer provar de tudo. Uma amêndoa não o engordará de certeza, mas um pacote delas sim.
7. Não ficar sentado à mesa durante todo o dia: tentar desenvolver alguma atividade física.
 

E no dia seguinte, já não é dia de festa. Como tal, deve voltar a adotar os hábitos alimentares saudáveis que tinha até então.

 

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