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Entrevista
Dia Mundial da Doença Inflamatória do Intestino: é fundamental "alertar e sensibilizar as populações"
segunda, 20 maio 2019 10:15
Por: Luís Correia, presidente do Grupo de Estudo da Doença Inflamatória Intestinal (GEDII)
Dia Mundial da Doença Inflamatória do Intestino: é fundamental "alertar e sensibilizar as populações"

"Alertar e sensibilizar as populações para as doenças inflamatórias do intestino (DII) é muito importante". As palavras são de Luís Correia, presidente do Grupo de Estudos de DII (GEDII), que afirma ser essencial "colocar precocemente o doente no centro de uma rede de cuidados profissionalizados de saúde". No âmbito do Dia Mundial da Doença Inflamatória do Intestino, que se assinalou ontem, 19 de maio, o especialista concedeu uma entrevista ao portal Vital Health sobre esta temática.

 

Vital Health (VH) | De que forma podem ser caracterizadas as doenças infamatórias do intestino?
Luís Correia (LC) | As doenças inflamatórias crónicas idiopáticas do intestino (DII) são um conjunto de patologias de causa desconhecida, de carácter inflamatório, com envolvimento preferencial do intestino, de patogenia imuno-mediada, que ocorre em populações com risco genético aumentado expostas a factores ambientais mal caracterizados, mas associados à vida em sociedades modernas de tipo ocidental. A interface entre o risco genético e a provocação ambiental passa, provavelmente, por modificações no microbioma intestinal. Apesar do envolvimento digestivo predominante que as caracteriza, as doenças são na verdade doenças sistémicas: um terço dos doentes tem envolvimento extra-intestinal, nomeadamente articular, cutâneo, hepático ou ocular, por exemplo.
 
VH | Estas podem dividir-se em dois principais subtipos. Qual a diferença entre a doença de Crohn e a colite ulcerosa?
LC | As DII têm uma grande dispersão fenotípica, existindo duas entidades principais: a colite ulcerosa e a doença de Crohn, mas também existem formas de doença intermediária entre estas (doença inflamatória não classificável), formas menos típicas (na doença infantil, por ex.), formas pós-cirúrgicas (bolsite crónica pós colectomia total) e sobretudo uma grande dispersão dentro de cada doença, em particular da doença de Crohn, em termos de localização e comportamento, em queo exemplo maior será a doença fistulizante peri-anal.
As principais diferenças entre as formas clássicas de colite ulcerosa (CU) e a doença de Crohn (DC) tendem a manifestar-se na (1) localização: a CU só envolve o intestino grosso, predominantemente no recto, com progressão proximal contínua, ao contrário da DC que pode envolver de forma focal e segmentar qualquer segmento do tubo digestivo (por exemplo a boca, o estômago ou intestino delgado, além do intestino grosso); no (2) envolvimento da parede intestinal, mais superficial na CU (mucosa e sub-mucosa) e transmural (toda a espessura da parede) na DC.
 
VH | Existe alguma população especialmente suscetível a desenvolver estas doenças?
LC | Todas as idades, géneros e etnias podem ser afetados pela doença, não existindo diferenças significativas de género, mas verificando-se preferência de idade (2.ª, 3.ª e 4.ª décadas, mais comummente). Como já afirmado, existe um risco genético (poligénico, com mais de 200 genes identificados), o qual tradicionalmente ocorre em populações caucasianas e do hemisfério norte, em particular em etnias judias, em familiares de doentes com outras doenças imunomediadas (com psoríase, por ex.) e com exposição a factores ambientais, como o tabaco (protector para a CU e de mau prognóstico na DC), ou após exposição a infeções na primeira infância, não amamentados, ou com vida citadina.
 
VH | Quais as principais complicações que daqui podem advir? Em que medida um doente com doença inflamatória do intestino tem um risco acrescido de desenvolver cancro do cólon?
LC | As complicações podem ser muitas e resultar da progressão da doença (estenoses e fistulas na DC, por ex.), mas também do carácter sistémico das doenças (risco aumentado de outras doenças imunomediadas, doenças cardiovasculares, osteoporose, entre outras). O risco neoplásico mais importante ocorre, sobretudo, para o carcinoma colorectal (CCR), e é proporcional à antiguidade da doença, à extensão da mesma (por isso, habitualmente mais alto na CU em que o carácter contínuo da doença aumenta a área de intestino grosso envolvido), à história familiar de CCR, à persistência de inflamação não controlada e, sobretudo, à coexistência de colangite esclerosante primária. Em função dos factores de risco descritos, devem ser planeados esquemas de vigilância endoscópica dos doentes com envolvimento do cólon.
 
VH | Tendo em conta que as causas não são ainda conhecidas, de que forma pode ser feita a prevenção?
LC | A prevenção da doença é hoje algo difícil de conseguir, passando, com baixo nível de eficácia, pela redução possível dos factores de risco: não fumar (para a DC), amamentar, evitar o uso inadequado de antibióticos, particularmente na infância, alimentação saudável com fibra e baixo conteúdo de aditivos. Nesta fase do conhecimento, o mais importante será estar alerta para as queixas de alarme, sobretudo em populações de risco, de modo a ter diagnóstico e tratamento precoce.
 
VH | Como caracteriza o panorama nacional, no que a esta temática diz respeito, comparando com outros países do mundo?
LC | O panorama nacional enquadra-se na epidemiologia da Europa do Sul, calculando-se que o número de doentes esteja na ordem dos 20-25.000, em crescimento rápido. O país tem tido uma velocidade de diagnóstico semelhante aos restantes países europeus, relacionando-se algum atraso com dificuldades de realização de colonoscopia em condições de conforto. Existem centros de elevada experiência dedicados ao diagnóstico e tratamento das doenças, com acesso fácil às modernas terapêuticas biológicas de primeira geração (infliximab e adalimumab). Após a crise financeira, ficámos com algum atraso no acesso a novos biológicos (golimumab, vedolizumab e ustecinumab), mas tem-se verificado resolução progressiva do problema, acreditando-se que gerações de novos fármacos, como as pequenas moléculas orais (por exemplo o tofacitinib), possam vir a ter acesso mais facilitado.
 
VH | No dia 19 de maio assinala-se o Dia Mundial da Doença Inflamatória do Intestino. Qual a importância de alertar e sensibilizar as populações para esta problemática?
LC | Alertar e sensibilizar as populações para as DII é muito importante. É necessário alertar as populações, particularmente as mais jovens, em quem a doença se manifesta mais comummente, para os sintomas de alarme, seja a dor abdominal, febre e emagrecimento, seja para a diarreia prolongada, particularmente se sanguinolenta, de forma a procurar ajuda médica e orientação rápida a meios de diagnóstico, como a colonoscopia, e a centros de referência com equipas multidisciplinares e acesso a terapêuticas eficazes, sem utilização excessiva de corticoides. Em suma, é necessário colocar precocemente o doente no centro de uma rede de cuidados profissionalizados de saúde, de molde por forma a conseguir um diagnóstico e intervenção precoce, no período de uma janela temporal que possa tentar modificar a história natural da doença.
Neste contexto têm grande importância a actividade das sociedades médicas dedicadas e das associações de doentes, em que o Grupo de Estudos de Doenças Inflamatórias do Intestino (GEDII) e a Associação Portuguesa de Doença Inflamatória Intestino (APDII) têm tido a maior atividade.

 

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