FacebookTwitterYoutubeInstagramWhatsapp

Plataforma de Atualização Diária

Entrevista
Bexiga hiperativa: quais as consequências na vida de uma mulher?
segunda, 24 junho 2019 10:52
Por: Inês Pereira, uroginecologista na clínica Lusíadas
Bexiga hiperativa: quais as consequências na vida de uma mulher?
 

Em Portugal, prevê-se que a síndrome da bexiga hiperativa possa afetar cerca de 20% a 30% das mulheres a partir dos 40 anos. Os principais sintomas de alerta são a perda involuntária de urina, vontade incontrolável em ir à casa de banho de forma repentina resultante da frequência da necessidade em urinar. Nos casos mais graves, as doentes chegam a urinar mais de oito vezes por dia e três vezes por noite.

A par das mudanças radicais que as doentes sentem a nível físico, esta é uma doença que afeta também a vida social, profissional e psicológica, o que muitas vezes leva ao isolamento social.

No âmbito da World Continence Week que decorreu entre os dias 17 e 23 de junho, o Vital Health falou com Inês Pereira, médica uroginecologista, e com Florbela Rodrigues que partilhou, na primeira pessoa, como é viver com a doença.

 

Vital Health (VH) | Quais os principais sintomas da síndrome da bexiga hiperativa?
Inês Pereira (IP) | A síndrome de bexiga hiperativa carateriza-se pela presença dos sintomas de urgência, frequência miccional e nictúria, com ou sem incontinência urinária de urgência. De uma forma geral, a doente sente uma vontade incontrolável de urinar múltiplas vezes durante o dia, o que aumenta o número de idas à casa de banho quer diurnas, quer noturnas. Esta imperiosidade, que traduz uma incapacidade de controlar a bexiga, leva muitas vezes à perda involuntária de urina. A presença de incontinência urinária não é, no entanto, obrigatória para o diagnóstico de bexiga hiperativa.

 

VH | Qual o panorama desta patologia em Portugal e quem mais afeta?
IP | Este é um problema ainda subestimado na população portuguesa. O constrangimento e o estigma social condicionam a valorização dos sintomas por parte dos doentes e a verbalização das queixas ou pedido de ajuda aos seus médicos assistentes. Calcula-se que cerca de 1.700.000 portugueses acima dos 40 anos possam sofrer de bexiga hiperativa. A doença pode afetar homens e mulheres de todas as idades, causando habitualmente um elevado impacto na qualidade de vida.

 

VH | Quais os impactos que esta síndrome tem na saúde feminina?
IP | A bexiga hiperativa é uma doença de elevado impacto na qualidade de vida, interferindo não só com múltiplos processos biológicos (sono, sexualidade, estabilidade emocional), como também com a vida pessoal, familiar, laboral e social das doentes. Ansiedade, depressão e distúrbios do sono são problemas frequentes entre as doentes com bexiga hiperativa.

 

VH | Quais os tratamentos disponíveis para o tratamento da doença?
IP | A noção de que a bexiga hiperativa é uma doença crónica é fundamental no início de uma abordagem terapêutica. Estão disponíveis múltiplas alternativas de tratamento, das menos invasivas às mais invasivas, que devem ser implementadas progressivamente em função do impacto e benefício conseguido, ou não, com o tratamento anterior. Alterações do estilo de vida, treino vesical, exercícios do pavimento pélvico, terapêutica farmacológica com anticolinérgicos e/ou betamiméticos, toxina botulínica intravesical ou neuromodulação pré-sagrada, são exemplo das vertentes de tratamento disponíveis no âmbito da bexiga hiperativa.

 

VH | A mudança no estilo de vida pode ter um impacto no tratamento desta doença?
IP | A mudança do estilo de vida pode efetivamente ter um impacto muito positivo no controlo da doença e ajudar a promover a saúde da bexiga. Controlar o peso, deixar de fumar, fazer exercício físico e ter um trânsito intestinal regular pode ser a chave para uma bexiga mais saudável. A dieta é outro aspecto importante. Existem alimentos e bebidas que apresentam características mais irritativas para a bexiga e que podem contribuir para o agravamento dos sintomas e ocorrência de incontinência. Chá, café, bebidas alcoólicas, refrigerantes, bebidas à base de citrinos (sumo de laranja, limonada), tomate e alimentos à base de tomate, alimentos condimentados e especiarias, chocolate e adoçantes artificiais, são alguns dos exemplos de alimentos com maior impacto na saúde da bexiga. Aos doentes com bexiga hiperativa aconselha-se evitar este tipo de alimentos durante 4-5 dias, e perante uma alteração positiva no controlo dos sintomas, tentar ao máximo restringi-los da sua alimentação habitual.
 
"A bexiga hiperativa fez diferença em todos os aspetos da minha vida", quem o diz é Florbela Rodrigues, evidenciando o impacto que a patologia teve no seu quotidiano.
 
VH | Que impacto a síndrome da bexiga hiperativa tem no seu quotidiano?
Florbela Rodrigues (FR) | A bexiga hiperativa fez diferença em todos os aspetos da minha vida. Não conseguia realizar as atividades físicas mais básicas como correr, por exemplo, pois tinha sempre perdas de urina, o que era muito desconfortável. Na altura deixei de fazer tudo que mais gostava, como dançar. Deixei de sair de casa e comecei a isolar-me, pois não me sentia confortável quando estava com as minhas amigas. A nível profissional, a doença também teve grande impacto. Como trabalho num colégio, havia atividades que não podia fazer. Subir escadas também era algo muito difícil, o que condicionava muito a minha vida. Tinha sempre de confirmar se os locais onde ia tinham casa de banho, pois se não tivessem deixava de ir.

 

VH | Que estratégias utiliza para lidar com o problema?
A minha principal estratégia foi andar sempre prevenida com pensos diários, toalhas e uma muda de roupa para me poder trocar sempre que necessário. Após a consulta com o médico de família e posterior consulta com o urologista tudo melhorou. No entanto, o tempo que me custou mais, foi enquanto estive à espera de diagnóstico. Nessa altura comecei a tomar medicação e também a fazer alguns exercícios de ginástica que me ajudaram muito.
© 2019 Vital Health | Todos os direitos reservados | Designed by IPSPOT_ and Developed by Webview