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Entrevista
O que é um psicólogo? Responsabilidade e compromisso
quarta-feira, 04 setembro 2019 12:17
Por: Vera de Melo, psicóloga
O que é um psicólogo? Responsabilidade e compromisso
 
O dia 4 de setembro é, desde o ano passado, reconhecido como o Dia Nacional do Psicólogo, representando igualmente a criação da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP). Esta é mais uma forma de dar a conhecer o objeto de estudo da Psicologia e o papel dos psicólogos na sociedade e em diferentes áreas de atuação, junto de variados grupos populacionais e contextos. A psicóloga Vera de Melo explica o papel dos psicólogos na vida dos portugueses, numa entrevista ao portal Vital Health.

 

 

 
Vital Health (VH) | Sente que a presença dos psicólogos faz cada mais parte da vida dos portugueses?
Vera de Melo (VM) | Aquilo que sinto e penso que seja generalista é que, de alguma forma, o psicólogo e a consulta de Psicologia, nunca foram tão falados como hoje, o que não significa que as pessoas vão inevitavelmente a uma consulta. A televisão trouxe a presença de vários psicólogos, seja a comentar situações ou a falar de determinados casos, e isso fez com que houvesse uma curiosidade ainda maior sobre o que é que o psicólogo faz, portanto, inevitavelmente existe uma maior curiosidade sobre o que é que este profissional faz e consequentemente há uma maior vontade de o procurar. No entanto, todos os que têm vontade de ir a uma consulta, não são todos os que vão. Por exemplo, na minha experiência e do ponto de vista clínico, as pessoas que chegam até nós, já nos procuram num estado pior, o que significa que provavelmente já experimentaram outras estratégias que não funcionaram e acabaram finalmente por vir a uma consulta de Psicologia. Não sei bem se será a última opção, no entanto, acho que é aquela que é procurada no limite.
 
Ainda existe muito o mito de que ir a uma consulta de Psicologia significa que a pessoa falhou, que de alguma forma não foi capaz de resolver o seu sofrimento por si, e teve que recorrer a terceiros. Obviamente, os casos não são todos iguais e não são todas as pessoas que vêm em circunstâncias extremas, mas vêm em estados piores, de maior sofrimento.
 
Ainda se pensa que o psicólogo é um amigo, o que não é verdade. Um amigo só ouve e acolhe o nosso sofrimento, enquanto que o psicólogo faz uma intervenção técnica, aplica um modelo de intervenção e conceptualiza todo o sofrimento do utente. Também existe uma confusão de que o psicólogo é um padre, que guarda os segredos, só que, para o psicólogo não há certo nem errado, não há juízos de valor, não há uma conduta a seguir. Outra das questões que vai sempre existir na minha opinião, por mais que expliquemos a diferença entre um psicólogo e um psiquiatra, as pessoas continuam a achar que o psicólogo é um médico, e um psicólogo não é um médico, não tem nem comprimidos, nem um pó mágico que se deita na água e de repente a pessoa deixa de ter todo o sofrimento que estava a passar. Estes mitos, onde o psicólogo é confundido com uma destas três pessoas que referi, faz com que seja difícil conseguir de alguma forma, que a pessoa vá recorrer a um psicólogo e que seja uma primeira opção. Há uma confusão do que é que faz o psicólogo e de qual o seu papel, confusão essa que por vezes, até mesmo nós psicólogos, contribuímos. O facto de existir a Ordem dos Psicólogos, que é recente, tem vindo a desmistificar algumas destas questões, mas nós profissionais às vezes também temos dificuldade em dizer o que fazemos. A Psicologia é uma ciência, nós sabemos exatamente o que fazer face a uma determinada situação, que não é o mesmo para a outra, portanto, não falamos só com as pessoas, temos instrumentos de trabalho que utilizamos, e à semelhança dos médicos que têm as suas análises e os seus exames de diagnóstico, nós também temos uma ferramenta importantíssima que é a avaliação psicológica, que permite de facto, com instrumentos validados, chegar à conclusão de que as nossas conceptualizações ou hipóteses sobre o sofrimento daquela pessoa correspondem à realidade.
 
VH | O que acha que deveria ser feito por parte da comunidade científica e pela sociedade, para colmatar tanto o estigma como a falta de informação sobre do papel do psicólogo na vida das pessoas?
VM | Eu penso que é com o tempo. A Ordem dos Psicólogos fez uma campanha maravilhosa onde brincava com algumas expressões recorrentes, nomeadamente sobre a depressão. Quando uma pessoa está deprimida a sociedade tem tendência a descredibilizar a doença utilizando a expressão "tu és é preguiçoso", por isso ainda há aqui um estigma muito grande relativamente à doença mental. Algumas questões não são visíveis a olho nu e de imediato, com o tempo e com informação de qualidade a presença do psicólogo vai tendo outra importância. Nas organizações, nos programas de rádio, nas televisões, nas revistas, onde o psicólogo fala de uma forma científica e construtiva, é importante do ponto de vista clínico. Precisamos que haja uma mudança efetiva de mentalidade e é possível chegarmos a um bom termo. As faculdades têm contribuído para isso, no sentido em que cada vez mais a formação tem sido mais prática, no entanto, para os profissionais que saem das faculdades e que não podem ser logo psicólogos, porque para poder exercer têm de ser membro efetivos da ordem, este processo faz um filtro e uma triagem daquilo que é, eu diria, um bom e um mau psicólogo, mas pelo menos aquele que é credenciado para o efeito e que pode intervir.
 
VH | Quando é que uma pessoa deve reconhecer que precisa da ajuda de um psicólogo?
VM | Quando uma pessoa está a passar por uma grande mudança e dá sinais de não estar a lidar bem com ela, mudança essa que pode ser desde a morte de um familiar, a mudança de emprego, onde se revelam sinais como dores de barriga, dores de cabeça, alguma sensação física de mau estar, e neste caso deve recorrer a um psicólogo. O facto de antigamente gostar muito de fazer uma determinada atividade e de repente deixa de fazer sentido, significa que houve alguma questão que mudou em relação à motivação pessoal e deverá ir a uma consulta. Quando começa a ter comportamentos mais agressivos sem motivo aparente com as pessoas que o rodeiam, é caso para visitar um psicólogo. Um dos casos mais comuns é a vontade de fazer nada. Eu costumo dizer que só faz sentido ir ao psicólogo, quando estas reações ou quando aquilo que lhe está a acontecer, faz com que a sua vida deixe de ser natural, portanto, os sintomas impedem que faça coisas que antes fazia com muita naturalidade e começam a condicionar a sua vida, e quando existem alterações graves na rotina e não temos recursos para lidar com a situação. Importa clarificar que na primeira consulta o que vai acontecer é uma avaliação e vai-se perceber se efetivamente faz sentido continuar ou não, às vezes pode não ser nada, pois as pessoas pensam que o facto de irem a uma consulta pode significar que têm alguma coisa. Neste momento, a causa mais frequente pela qual as pessoas vêm a consultas são os conflitos laborais e as pessoas nem sequer se apercebem. O que acontece é que muitas das vezes as pessoas não têm recursos para lidar com todas as exigências e desafios da vida
 
VH | Quais os benefícios que identifica e que o psicólogo consegue dar às pessoas que o procuram?
VM | Acima de tudo, é uma melhoria da qualidade de vida. Aquilo que nós conseguimos em conjunto, é que as pessoas passem a viver e não sobreviver. O nível de sofrimento com que a pessoa chega a uma consulta muitas vezes é atroz. Um maior conhecimento de si próprio, é o nosso maior objetivo, porque se a pessoa se conhecer consegue antecipar determinadas situações e perceber que recursos é que tem para lidar com elas. Eu diria que é uma melhoria a curto prazo, quando se conseguirem os resultados, e a longo prazo porque se a pessoa se vai conhecer melhor, também sabe aquilo que é esperado dela e sabe quais as situações que a vão deixar mais frágil, ao saber pode se precaver capacitando-se de como é que vai lidar com elas.
 
VH | Na sua opinião, tendo em conta o dia que se assinala, o que deve ser relembrado nesta efeméride?
VM | Penso que o que deve ser lembrado é "o que é um psicólogo". E defino um psicólogo em duas palavras, primeiro Responsabilidade, que significa este dever ético de procurar respostas certas, científicas, completamente alinhadas com a ciência, e depois Compromisso, de todos os dias procurar uma melhor solução para o meu utente, todos os dias querer saber mais, procurar atualizações científicas, para que o processo psicoterapêutico do meu utente, seja mais célere e menos doloroso. Isto tudo resumido numa palavra que eu gosto particularmente, "descomplicar". A pessoa chega até nós numa situação desconfortável, com vergonha e medo, por isso, é importante esta visão de descomplicar. As pessoas querem psicólogos humanos, que compreendam e que acima de tudo estejam preocupados com aquilo que é a melhoria do utente. É muito importante falar sobre qual é o nosso papel e o que é que estamos cá a fazer, para que também nós como psicólogos, não nos esqueçamos disso, da responsabilidade que temos todos os dias de fazer mais e melhor. Lidamos com pessoas e com pessoas não há segundas oportunidades. Termino com um poema que gosto muito, de Miguel Torga, que se chama "Recomeça se puderes", que diz um pouco daquilo que acaba por acontecer em cada processo psicoterapêutico, "de nenhum fruto nós queiramos só metade", o que significa que para os nossos utentes, não podemos e não devemos querer só metade da solução, mas sim tentar ao máximo procurar a solução mais adequada que lhe vai permitir uma maior qualidade de vida.

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