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Entrevista
Pedro Mendes Bastos: doente, médico de família e dermatologista são a chave para o sucesso terapêutico
segunda-feira, 14 setembro 2020 10:14
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Pedro Mendes Bastos: doente, médico de família e dermatologista são a chave para o sucesso terapêutico
No âmbito do Dia Mundial da Dermatite Atópica, que se assinala a 14 de setembro, o Vital Health falou com Pedro Mendes Bastos, médico especialista em Dermatologia e Venereologia no Hospital CUF Descobertas e consultor científico da ADERMAP – Associação Dermatite Atópica Portugal, que destacou o enorme impacto que as doenças dermatológicas podem ter na vida dos pacientes e a importância da partilha de conhecimento entre a equipa que acompanha o doente.

Vital Health (VH) | Como caracteriza atualmente o panorama da dermatite atópica em Portugal?

Pedro Mendes Bastos (PMB) | Não dispomos de números fidedignos em Portugal, mas será apresentado este mês de setembro um estudo muito relevante levado a cabo pela Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia em colaboração com a Universidade Nova de Lisboa e a ADERMAP (Associação Dermatite Atópica Portugal) que procura responder a essas perguntas. Na prática, extrapolamos dados de outros países ocidentais. Acreditamos que a dermatite atópica possa afetar >10% das crianças e 7% dos adultos, sendo que 20% de todos os doentes são considerados casos moderados-a-graves, implicando opções terapêuticas sistémicas para o seu adequando controlo.

VH | Qual o papel do dermatologista no acompanhamento de um doente com dermatite atópica?

PMB | A dermatite atópica é uma doença que se manifesta na pele, surgindo na forma de eczemas que podem envolver várias áreas anatómicas. Os eczemas são manchas avermelhadas e geralmente com descamação que originam uma sensação de prurido (comichão) que pode ser insuportável e dificultar a concentração, a vivência do dia-a-dia e o sono. O médico dermatologista realizou formação especializada em doenças de pele, sendo naturalmente o médico mais capacitado para diagnosticar e tratar as doenças dermatológicas em geral, e dermatite atópica em particular.

VH | Qual o(s) tratamento(s) recomendado(s)?

PMB | A dermatite atópica deve-se a dois fatores principais: incapacidade da pele de funcionar como barreira protetora do exterior e um erro no sistema imunitário responsável por inflamação excessiva na pele. Os tratamentos são individualizados e devem ser ajustados a cada caso. Contudo, os tratamentos devem sempre incluir medidas dirigidas aos dois pontos que enunciei anteriormente. Por um lado, produtos que melhorem a capacidade de proteção da pele (cremes, bálsamos, óleos de higiene adequados) e, por outro, medicamentos com capacidade anti-inflamatória na pele (sejam de aplicação tópica como cremes e pomadas, orais ou injetáveis).

VH | E que novas terapêuticas têm surgido recentemente, a nível nacional/internacional, que mereçam destaque?

PMB | Reconhecido o enorme impacto que as doenças dermatológicas podem ter na vida dos pacientes, nunca como agora a dermatite atópica tem merecido tanta atenção a nível de investigação de medicamentos. A verdade é que existe uma enorme lacuna quanto a terapêuticas sistémicas (orais ou injetáveis) para o tratamento das formas moderadas-a-graves de dermatite atópica. O destaque irá, sem dúvida, para os medicamentos injetáveis biotecnológicos e para os medicamentos orais inibidores da JAK, que muito provavelmente serão aprovados pela Autoridade Europeia do Medicamento nos próximos meses. Estes novos fármacos são uma enorme esperança para os casos mais difíceis de dermatite atópica. Outra novidade será a chegada de novos tratamentos tópicos, de aplicação na pele, que não contenham derivados de cortisona, indicados para as formas ligeiras de dermatite atópica ou como complemento no tratamento dos doentes mais graves, principalmente em áreas de pele sensível.

VH | Como deve ser a articulação entre o médico de família e o especialista?

PMB | O médico de família é, habitualmente, o primeiro contacto do doente com o sistema de saúde. O especialista em MGF está familiarizado com esta doença, particularmente na faixa etária pediátrica. Tem um papel importante no tratamento da dermatite atópica ligeira, sendo, muitas vezes, necessário partilhar a gestão do doente moderado-a-grave com o dermatologista, principalmente quando existe dúvida diagnóstica ou é necessário instituir tratamento oral ou injetável. Como médico dermatologista, tenho tido oportunidade de participar em várias palestras sobre dermatite atópica dirigidas a médicos de família. Partilhar conhecimento e facilitar a experiência dos doentes no sistema de saúde é responsabilidade da especialidade de Dermatologia.

VH | Tendo em conta as comorbilidades que grande percentagem dos doentes apresenta, é importante haver uma colaboração entre várias especialidades, numa abordagem multidisciplinar?

PMB | A resposta ideal da Medicina no século XXI para as doenças complexas passa, indiscutivelmente, pela multidisciplinaridade. A dermatite atópica é considerada a porta de entrada na chamada marcha atópica, a primeira doença e aquela que predispõe os indivíduos para potencialmente desenvolverem todo um conjunto de outras doenças (chamadas comorbilidades). Não sendo a dermatite atópica uma alergia, os doentes frequentemente sofrem de doenças como rinite alérgica ou asma; as comorbilidades psicológicas como depressão ou ansiedade são também frequentes. Em resumo, num doente que sofra de algumas ou todas estas doenças em simultâneo, é ideal existir uma equipa de profissionais de saúde para cuidar e tratar de forma holística, mas particular, todas estas situações.

A mensagem final é que a dermatite atópica tem tratamento e o médico de família, o dermatologista e o doente são, sem dúvida, a chave para o sucesso terapêutico.

 

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