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Entrevista
"Um asmático pode ser um campeão”

"Um asmático pode ser um campeão”

Por: Beatriz Freitas-Branco

terça-feira, 04 maio 2021 11:32
A propósito do Dia Mundial da Asma, assinalado a 5 de maio, a Vital Health conversou com Manuel Branco Ferreira, presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, sobre os mitos associados à asma, o atual estado da arte nesta patologia e a relação com a COVID-19. Leia a entrevista completa.
 

Vital Health (VH) | Quais os mitos mais frequentes associados à asma?

Manuel Branco Ferreira (MBF) | Temos mitos relacionados, por exemplo, com o prognóstico. As pessoas acham que, principalmente nas crianças, "a asma vai passar": e não passa, a asma é uma doença crónica; "Que a asma não mata": e não é verdade, há cerca de 100 a 200 mortes por asma em Portugal. Depois, mitos também sobre a incapacidade do asmático em ter uma vida normal, um dos mais comuns é achar que as crianças com asma não podem fazer exercício físico, isto é um mito extremamente comum e não é verdade porque as crianças com asma devem fazer exercício físico, devem é estar bem tratados para poderem tolerar esse exercício. Se estiverem bem tratados, o próprio exercício físico é positivo para o tratamento da asma, portanto faz parte do tratamento. Outro mito muito frequente é que os asmáticos não podem ter animais de estimação – e isto poderá ser verdade se o asmático for alérgico ao pelo do gato ou do cão – mas pode haver asmáticos que podem, perfeitamente, ter animais de estimação, não há que pensar nesta generalização que é abusiva. Depois, temos mitos em relação ao tratamento, como achar que os corticoides inalados são muito perigosos, mas nas doses adequadas podem ser feitos anos sem ter quaisquer efeitos sistémicos adversos; os inaladores fazem mal ao coração também é uma generalização que se vê muitas vezes completamente errada, porque o que faz mal ao coração é a dispneia, isso é que é uma sobrecarga cardíaca mais importante, ou a hipoxemia. Depois, um último mito: que é achar que só é preciso tratar a asma quando se tem crises. Sabemos que não é assim, a asma é uma doença inflamatória crónica que deve ser tratada todos os dias para tratar as crises.

VH | Como se podem prevenir os ataques de asma?

MBF | Prevenir as crises implica ter a asma bem controlada e nós sabemos que a asma, à partida, não vai ter uma cura definitiva. Poderá haver fases mais sintomáticas e menos sintomáticas. O objetivo de controlar a asma é exatamente para prevenir as crises. Para controlar a asma devemos, desde logo, utilizar tratamentos adequados que visem atingir um controlo total e, aqui, os inaladores têm um papel central; depois temos também alguns comprimidos que se podem utilizar, e temos um outro aspeto que é o tratamento de outras doenças associadas, as chamadas "comorbidades", como a rinite, a sinusite, o refluxo gastroesofágico, infeções recorrentes, são tudo comorbidades frequentes nos doentes com asma e cuja existência e não tratamento se associa a um menor controlo da asma. Depois, tem de se evitar estímulos que são desencadeantes ou agravantes, por exemplo, os alergénios, os poluentes, em particular o tabaco; promover o estilo de vida saudável e, finalmente, as vacinas para a alergia, no caso das asmas alérgicas as vacinas são, muitas vezes, um auxiliar precioso que nos ajuda a conseguir controlar um doente que estava, anteriormente, não controlado. Conseguimos não só, controlá-lo melhor, como reduzir toda a restante medicação.

VH | Se a asma estiver bem controlada, os doentes conseguem ter uma vida normal?

MBF | O lema que eu gosto de sublinhar aos meus doentes é "Um asmático pode ser um campeão". O nosso objetivo no tratamento é que o asmático tenha uma qualidade de vida exatamente igual à do não asmático, mas tem que fazer medicação, tem que ter alguns cuidados, mas não vamos ter necessidade de fazer coisas que limitem a qualidade de vida do doente.

VH | A incidência desta doença em Portugal tem vindo a aumentar?

MBF | Diria que, ultimamente, nem por isso. Ao contrário das décadas de 80 e 90, onde vimos algum aumento da incidência, nos últimos anos, temos visto um certo efeito de platô no aparecimento de novos casos. Sendo que, atualmente, cerca de 7% da população portuguesa, incluindo adultos e crianças, têm um diagnóstico de asma. Já a rinite alérgica tem continuado a subir na prevalência ao longo dos anos e ainda não estabilizou tanto como a asma.

VH | De que forma a pandemia afetou o diagnóstico e prevenção da asma?

MBF | Afetou negativamente algumas coisas, nomeadamente, a capacidade de avaliarmos objetivamente os doentes através do exame físico, também a capacidade de obtermos resultados dos exames funcionais respiratórios, que são dois aspetos importantes, particularmente em pessoas ainda sem o diagnóstico de asma. No entanto, em doentes com asma já diagnosticada, durante a pandemia e de uma forma geral, constatou-se que estes doentes cumpriram mais escrupulosamente a terapêutica porque tiveram mais receio de ter crises e ter de ir à urgência e isso, de facto, melhorou a prevenção da asma, das crises, porque as pessoas aderiram mais ao cumprimento rigoroso da terapêutica e isso é um fator positivo. Depois, também temos ainda aspetos relacionados com a necessidade ou maior uso da máscara, que nos doentes alérgicos acaba por ser uma forma de diminuirmos a exposição aos estímulos alergénios. E, portanto, aí também pode ter havido um aspeto positivo na prevenção da asma.

VH | Qual a relação entre asma e COVID-19?

MBF | A COVID-19, tal como outras infeções virais, pode desencadear o agravamento da asma. Mas os asmáticos não têm, por si só, um maior risco de contrair a doença. Agora, esta infeção num asmático não controlado ou mal controlado, pode associar-se a um maior risco ou complicações graves respiratórias da própria COVID-19. Esta é a razão pela qual os doentes asmáticos devem estar muito bem controlados para prevenir, no caso de virem a contrair a COVID-19, tanto quanto possível, um desenvolvimento de formas mais graves da doença.

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