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Entrevista
AVC: “É importante pôr o foco na prevenção”

AVC: “É importante pôr o foco na prevenção”

Por: Redação Vital Health

quinta-feira, 31 março 2022 10:02
“Uma em cada quatro pessoas acima dos 25 anos vai sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) ao longo da vida. Uma em cada três pessoas que sofre um AVC vai ficar incapacitada e vir a falecer no ano seguinte.” Quem o afirma é a médica Liliana Pereira, no âmbito do Dia Nacional do Doente com AVC. Em entrevista à Vital Health, destacou os desafios nesta área e esclareceu as principais questões relacionadas com a evolução da recuperação dos doentes. Leia a entrevista na íntegra.

 

Vital Health (VH) | Quais são os fatores de risco associados ao AVC?
Dr.ª Liliana Pereira (LP) | Podemos identificar 10 fatores de risco modificáveis como os mais importantes, justificando 90% da probabilidade de ter um AVC. Os outros 10% são fatores não modificáveis como a idade, o género e algumas doenças genéticas. O fator de risco modificável com mais relevância em Portugal é a hipertensão arterial que promove a aterosclerose. A hipertensão arterial é um fator muito importante tanto para os AVC isquémicos como para os AVC hemorrágicos, porque fragiliza a parede das artérias, promovendo alterações que a vão entupindo progressivamente ou danificam-na ao ponto de causar roturas. Como fatores de risco associados à aterosclerose, apresentam-se ainda o colesterol alto e as outras gorduras como é o caso dos triglicerídeos altos no sangue. Estes dois fatores em conjunto podem ser modificados através de um estilo de vida mais saudável, com a prática de exercício físico e uma dieta variada e equilibrada. Além destes, a diabetes é outro fator de risco que contribui para a aterosclerose e aumenta o risco de AVC. Outro fator é uma arritmia, denominada como fibrilhação auricular, muitas vezes associada à idade avançada. Quem tem doenças cardíacas deve ter uma vigilância médica mais regular para que adote as medidas preventivas necessárias. Os fatores relacionados com o estilo de vida como a dieta, controlo do peso, cessação tabágica, a redução do consumo de álcool e a prática de exercício físico devem também ser considerados.
 
VH | Relativamente aos sinais de alarme, quando é que se deve pedir ajuda médica?
LP | Assim que exista uma suspeita de que se trata de um AVC através dos seguintes sinais: a alteração da fala, que se pode caraterizar como “falar enrolado”, quando não se percebe bem o que a pessoa diz, ou se o discurso não faz sentido; outro sinal de alerta identifica-se como uma assimetria da face, quando a pessoa fica com a boca ao lado; ou caso tenha uma alteração da força, como deixar cair o braço ou arrastar a perna. Em suma, são os 3 F’s: fala, face e força. Além disso, qualquer modificação súbita como a ausência de sensibilidade no corpo ou ver a dobrar.
 
VH | O tempo entre a ocorrência de um AVC e a atuação médica tem impacto nas consequências?
LP | Sempre que acontece a oclusão da artéria, falando do AVC isquémico, há um conjunto de células que fica lesado e pode trazer sequelas, porém há uma outra quantidade maior de células que ficam em sofrimento por falta de oxigénio e de nutrientes, mas que não morrem imediatamente. Estas células em sofrimento dão sintomas, mas se for reestabelecida a circulação sanguínea do oxigénio e dos nutrientes de forma atempada, essas células vão continuar a viver e deixam de dar os respetivos sintomas. Há tratamentos para o AVC que só funcionam corretamente quando a pessoa chega atempadamente ao hospital. Os tratamentos funcionam melhor quanto mais rápido forem administrados.
 
VH | Quais são as principais consequências para a saúde após um AVC?
LP | As consequências imediatas são a perda das funções das respetivas células cerebrais, como de movimento, de fala ou de sensibilidade. Estas são as sequelas diretas e os sintomas que as pessoas conhecem mais frequentemente, relacionados com a zona onde ocorre o AVC. Além disso, os sobreviventes de AVC têm um maior risco para outras doenças. As alterações da memória também são uma possível consequência após um AVC, mesmo que este não aconteça numa zona diretamente envolvida na memória. É importante salientar também as consequências psicológicas, não só relacionadas com o peso que a doença simboliza e a consequente perda de saúde, mas o aparecimento ou agravamento de casos de depressão e de ansiedade no pós-AVC, que podem também interferir na capacidade de a pessoa participar e colaborar na reabilitação. Em suma, há sintomas visíveis e outros menos visíveis, mas a abordagem de todos no seguimento destes doentes é fundamental.
 
VH | Como caracteriza a evolução dos tratamentos do AVC na fase de reabilitação?
LP | Existem vários tratamentos, destacando-se os de fase aguda como a maior inovação. Felizmente, foram aparecendo e evoluindo ao longo do tempo. Há mais de 15 anos, que existe a trombólise em Portugal, um tratamento administrado pela veia com o objetivo de desentupir as artérias que estão ocluídas. Quando uma dessas artérias apresenta um calibre muito grande e se identifica a oclusão nos exames, sabemos que os doentes não respondem tão bem ao tratamento administrado pela veia e é preciso fazer um cateterismo para remover ou “aspirar” a oclusão que está na artéria e repor a circulação através de um meio mecânico, chamado a “trombectomia mecânica”. Estes tratamentos são mais recentes, só começaram a ser usados nos últimos anos e não estão disponíveis em todos os hospitais. Porém, há uma organização por regiões que dinamiza a sua disponibilidade ao maior número de pessoas possível. Os doentes que fazem o primeiro tratamento endovenoso aumentam em 30% a probabilidade de ficarem bem após um AVC. Este tratamento mecânico mais recente aumenta em mais de 50% a probabilidade de o doente ficar bem. No entanto, existem outros tratamentos não tão curativos, mas com uma intenção preventiva. A pessoa que teve um AVC apresenta um maior risco de ter um ter um novo, especialmente nos dias seguintes. Para diminuir essa probabilidade, existem medicamentos que devem ser administrados como a aspirina. Embora não existam medicamentos novos, há novas combinações e a possibilidade de adaptar a cada doente o tratamento preventivo, conforme a causa do AVC.
 
VH | Quais são as várias fases de recuperação até o doente estar estável, com possibilidade de regressar ao seu quotidiano pessoal e profissional?
LP | Num AVC moderado ou grave, os primeiros dias são idealmente passados em internamento no hospital, numa unidade de AVC ou enfermaria, onde são feitos estes tratamentos e exames para orientar e identificar a causa do AVC para que depois se escolha a melhor terapêutica de prevenção secundária. Há um processo mais intensivo de tratamento e de investigação em internamento, que depende muito da logística de cada hospital, mas a duração costuma ser de pelo menos três a sete dias. Neste internamento, deve começar a reabilitação, e o doente será acompanhado por um médico especialista em Fisiatria que vai elaborar o seu plano de reabilitação para que comece os tratamentos ainda no internamento. Depois, este tratamento deverá ser continuado em ambulatório. Nos casos mais ligeiros, o tratamento continua sempre em ambulatório, seja ele de reabilitação motora, terapia da fala ou terapia ocupacional, sempre com o intuito de dar a maior reabilitação possível para que o doente possa recuperar a maior qualidade de vida e o maior número de tarefas que fazia antes do AVC. Nos casos mais graves, pode ser preciso um tratamento de reabilitação mais intensivo e esses casos são orientados para tratamentos específicos de reabilitação com duração de um a três meses. É uma reabilitação intensiva com o objetivo de tentar desenvolver no cérebro restante as capacidades que aquele cérebro que morreu fazia e otimizar as funções restantes. Também nesta fase de reabilitação é importante controlar os sintomas como a dor e os sintomas psicológicos de depressão e de ansiedade. Tudo isto para garantir a melhor qualidade de vida, mesmo que a pessoa não consiga voltar a fazer tudo o que fazia, o nosso objetivo será ajudá-la a alcançar o máximo de independência possível. Há uma pequena percentagem de doentes em que os primeiros tratamentos funcionam e saem do hospital quase prontos para retomar as suas atividades, esses são os casos de maior sucesso. Os outros que continuam em ambulatório ou no internamento irão passar pela fase de reabilitação, que mesmo depois do internamento pode continuar por seis ou doze meses, dependendo das sequelas para que recupere o máximo de qualidade de vida possível.
 
VH | Qual é a importância das campanhas de sensibilização sobre os riscos associados à doença?
LP | O primeiro ponto das campanhas de sensibilização que considero mais importante é alertar para a prevenção, porque dão a conhecer aqueles fatores de risco evitáveis e modificáveis que preveniriam 90% dos AVC. Se a pessoa tiver uma dieta mediterrânea, pobre em sal e rica em verduras, com um pouco de carne e peixe, com os ácidos gordos ómega 3, ou substitutos, se praticar exercício físico regular, não fumar e não beber álcool em excesso, tudo isso vai reduzir imenso o seu risco de vir a ter um AVC. Infelizmente, algumas pessoas, mesmo modificando alguns fatores de risco, continuam a ter outros, por isso sabemos que vão continuar a haver AVC. Para isso, o segundo ponto a destacar é que precisamos das campanhas direcionadas para o reconhecimento de sintomas. É importante que se reconheça quais são os sinais de um AVC, que se saiba qual a atitude correta a tomar, ligar o 112, para que depois informem o hospital disponível mais próximo, permitindo que todo o circuito dentro do hospital seja mais rápido para aquele doente. É uma emergência neurológica muito importante e quer na vertente da prevenção, quer na vertente do conhecimento da população no caso dos sintomas do AVC as campanhas de sensibilização são muito importantes.
 
VH | Gostaria de transmitir alguma mensagem sobre este tema?
LP | É importante pôr o foco na prevenção. Uma em cada quatro pessoas acima dos 25 anos vai sofrer um AVC ao longo da vida. Uma em cada três pessoas que sofre um AVC vai ficar incapacitada e vir a falecer no ano seguinte. Relembro os fatores de risco relacionados com o estilo de vida: a hipertensão arterial, dislipidemia, diabetes, tabagismo, consumo excessivo de álcool e falta da prática de exercício físico, mas também se sabe que um em cada seis AVC estão relacionados com a saúde mental, problemas de depressão e de ansiedade. Nunca é tarde demais para começarmos a cuidar da nossa saúde, do ponto de vista físico e psicológico. Para isso pode ser necessário algumas mudanças e muita força de vontade. Quando acontece um caso de AVC vai existir uma equipa de profissionais, seguramente multidisciplinar, com profissionais médicos, profissionais de Enfermagem, de reabilitação e terapeutas com o objetivo de ajudar na recuperação e na reabilitação. Funciona como uma cadeia de elos, não podemos descurar nenhum, mas é importante relembrar a todos que começa pela prevenção.

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