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Fenilcetonúria: tratamento nos primeiros dias de vida evita desenvolvimento dos sintomas
terça-feira, 26 fevereiro 2013 10:43

artigo Prof. Isabel Taveres de Almeida"Se o tratamento for iniciado nos primeiros dias de vida não há, em princípio, desenvolvimento de sintomatologia", diz Isabel Tavares de Almeida, investigadora na FFUL e presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas, relativamente à fenilcetonúria. Uma doença que provoca alterações neurológicas graves e que Isabel Tavares de Almeida lembra neste artigo, a propósito do Dia Mundial das Doenças Raras assinalado a 28 de fevereiro.

 

O que é: A fenilcetonúria (PKU; abreviatura da denominação inglesa phenylketonuria) é uma doença hereditária e, neste caso particular, de transmissão autossómica recessiva, o que implica que os progenitores sejam, obrigatoriamente, portadores (carriers) de uma cópia do gene mutado. A doença não se manifesta nos portadores, mas apenas quando estão presentes no genoma as duas cópias do gene mutado, uma herdada da mãe e a outra do pai. Dada a combinação aleatória das duas cópias do gene (paterna e materna), a probabilidade dos progenitores, quando portadores, terem um filho afetado é de 25%.

Nos doentes PKU, o gene afetado é o gene da PAH (phenylalanine hydroxylase), que codifica para a síntese da proteína – fenilalanina hidroxilase – que possui atividade enzimática e que intervém na transformação da fenilalanina em tirosina, através de uma reação de hidroxilação. A alteração na função da enzima PAH traduz-se na acumulação de fenilalanina nos tecidos e líquidos biológicos. O estado de hiperfenilalaninémia é a anomalia bioquímica característica da PKU. O grau de inativação da enzima PAH depende do tipo de mutação. Até à data, foram já descritas mais de 500 mutações distintas no gene da PAH. Deste modo, existe, entre os doentes PKU, uma heterogeneidade assinalável quer bioquímica quer na gravidade dos sintomas. Assim, os níveis de fenilalanina no sangue, antes do início de tratamento, determinam a classificação em três grandes grupos: hiperfenilalaninémia (não PKU); PKU moderada e PKU clássica.

Níveis elevados de fenilalanina provocam alterações neurológicas graves. Os doentes PKU não tratados desenvolvem perda de capacidades intelectuais, convulsões, ataxia, deficiência motora e alterações comportamentais. Se o tratamento for iniciado nos primeiros dias de vida não há, em princípio, desenvolvimento de sintomatologia.

Tratamento: O tratamento baseia-se, essencialmente, na administração de uma dieta de baixo teor proteico, evitando-se assim a ingestão de fenilalanina, um dos aminoácidos constituintes das proteínas, e que o organismo, no caso da PKU, não consegue degradar. De modo a que um crescimento normal e um estado de saúde com qualidade sejam assegurados, a dieta é coadjuvada com um suplemento de nutrientes (aminoácidos essenciais, vitaminas e minerais). A eficácia da dieta é controlada através da avaliação do nível de fenilalanina no sangue, o qual determina o reajuste do teor de proteína na dieta para que o nível de fenilalanina se mantenha tão próximo quanto possível do valor basal. A frequência do controlo é muito apertada até aos 5 – 6 anos de idade, altura em que se pensa que o processo de mielinização da substância branca esteja completo. A partir desta fase, a dieta começa a ser menos restritiva, chegando a ser livre a partir da adolescência. Todavia, atualmente a tendência é recomendar dieta para a vida, dado que a sua interrupção tem sido associada ao reaparecimento de complicações neuro-psicológicas. Alternativa ao tratamento dietético com a mesma eficácia infelizmente ainda não existe. Alguns doentes com formas moderadas, e dependendo do tipo de mutação, respondem ao tratamento com tetra-hidrobiopterina (BH4), o co-factor da PAH. A busca de novas alternativas terapêuticas tem sido um desafio permanente para os grupos de investigação que se dedicam a esta área e num futuro próximo poderemos ter novidades.

Rastreio: A PKU é silenciosa nos primeiros tempos de vida e se não tratada, como já referido, causa danos neurológicos irreversíveis. O tratamento dietético tem eficácia comprovada desde que instituído precocemente. A fenilalanina plasmática é o biomarcador inequívoco da patologia. Características que permitiram a implementação de programas de rastreio, a partir dos anos 60, na Europa e nos Estados Unidos da América. Em Portugal, o rastreio, o conhecido teste do pezinho, iniciou-se em 1983-85 e, em pouco tempo, cobria 99% da população de recém-nascidos.

Doença Rara: A PKU é um erro hereditário do metabolismo, uma doença genética que entra na denominação de Doença Rara ou Doença Órfã, tal como definida pela Comissão da Saúde Pública da UE: doença crónica debilitante que afeta menos do que 1 em 2000 pessoas. A incidência da PKU em Portugal é de 1 em 10.500 recém–nascidos, tal como na maioria dos Países Europeus. Em Portugal, a taxa de natalidade média dos últimos anos é aproximadamente de 100.000 nascimentos / ano, sendo expectável a deteção de 9 a 10 novos casos por ano.

Notas finais: Todos os casos existentes no País estão sob tratamento nos "Centros de Tratamento" para a PKU, os quais estão associados às Unidades de Pediatria hospitalares com capacidade de intervenção na Doença Metabólica. Desde o início do rastreio sistemático até finais de 2010 detetaram-se 281 novos casos (dados da Comissão Nacional do Rastreio). Todavia, calculamos que o número total de casos de PKU detetados, em Portugal, se situe perto dos 500 casos, dado que os primeiros estudos, bioquímicos e clínicos tiveram lugar no nosso País no início da década de setenta, do século passado. É um projeto de sucesso e hoje, mais do que nunca, no dia em que se celebra As Doenças Raras, é nossa esperança, apesar das adversidades, que continue a sê-lo.

Isabel Tavares de Almeida, investigadora na Faculdade de Farmácia (FFUL) e presidente da Sociedade Portuguesa de Doenças Metabólicas.

Fonte: Vital Health

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