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Opinião
Diferenciação de cuidados em Psiquiatria para os adultos mais velhos
sexta-feira, 01 novembro 2013 17:06
Por: António Leuschner, presidente do Conselho de Administração do Hospital Magalhães de Lemos
Diferenciação de cuidados em Psiquiatria para os adultos mais velhos

António LeuschnerO envelhecimento é o principal desafio que se coloca neste século às sociedades em geral e aos serviços de saúde em particular, por se tratar de um problema crescente e pelas suas implicações sociais e económico-financeiras.

A OMS prevê que o número de pessoas com 60 ou mais anos mais do que triplique em 2100. Esta mudança demográfica terá implicações sobre os sistemas sociais e de saúde pública, o mercado de trabalho e as finanças públicas. As doenças neuropsiquiátricas entre os mais velhos são responsáveis por 6.6% da incapacidade total (DALYs), sofrendo de uma qualquer perturbação mental cerca de 15% dos indivíduos, sendo que nesta população os problemas de saúde mental são subidentificados pelos profissionais de saúde e pelas próprias pessoas, em parte devido ao estigma associado às doenças mentais, o que as faz resistir a procurar ajuda.

Numa área em que o problema do estigma se coloca com muita acuidade, falar em diferenciação de serviços pode parecer algo contraditório. É frequente constatar que ao estigma associado às doenças mentais se associa um outro associado à idade, conduzindo a que as pessoas mais velhas sejam negligenciadas entre as que têm problemas mentais e estas sejam menosprezadas entre as de mais idade com problemas físicos. A especialização não deverá impedir o acesso a modelos de intervenção comunitária, privilegiando as intervenções institucionais.

Múltiplos fatores sociais, psicológicos e biológicos determinam o nível da saúde mental do indivíduo em qualquer momento da sua vida, sendo o efeito cumulativo ao longo do tempo particularmente sentido na idade avançada. Muitas pessoas de mais idade perdem a capacidade de viver independentemente, necessitando de alguma forma de cuidados de longa duração, podendo o luto, a queda no status socioeconómico por reforma ou aposentação, ou a incapacidade, conduzir ao isolamento, à perda de independência, solidão e sofrimento psicológico.

Por outro lado, a saúde mental tem impacto na saúde física e vice-versa, sendo, por exemplo a prevalência da depressão maior nos adultos de mais idade com problemas cardíacos do que nos fisicamente saudáveis e, inversamente, a depressão não tratada agravar o prognóstico da doença cardíaca nos mais velhos. Acresce uma maior vulnerabilidade à negligência física e aos maus tratos, podendo conduzir a graves e duradouras consequências.

O envelhecimento, visto como uma etapa do desenvolvimento, acarreta diferentes necessidades no decurso da vida do indivíduo, a que deverão ajustar-se respostas diferentes, evitando que pessoas com necessidades diversas sejam tratadas da mesma forma ou que com necessidades idênticas tenham tratamento diverso. Com o envelhecer, certas necessidades tornam-se mais comuns, devendo estas constituir a base dos critérios de admissão nos serviços para pessoas mais velhas.

Como o número destas pessoas está a crescer, sendo aliás o único grupo em crescimento, também aumentam os problemas de saúde mental. É necessário que cada vez mais pessoas envelheçam com boa saúde mental e bem-estar, prevenindo possíveis problemas e permitindo o acesso a tratamento e cuidados de qualidade àqueles que sofrem de um transtorno mental e o apoio que lhes permita viver em segurança e com independência nas suas próprias casas, sempre que possível, apoio que deve alargar-se aos seus cuidadores, aliviando-lhes a sobrecarga e a depressão e melhorando o seu bem-estar subjetivo, para o que é essencial o reconhecimento do seu papel.

A prestação de cuidados efetivos a esta população requer um modelo integrado, que garanta intervenções específicas para as diferentes patologias e uma variedade de serviços que respondam às diferentes necessidades, incluindo a comunidade, os hospitais e as unidades residenciais de longa duração, dotados de equipas multidisciplinares, que garantam um diagnóstico atempado, tratamento e apoio efetivos, para elas e os seus cuidadores, sendo fundamental o estabelecimento de parcerias entre todos os atores no terreno: cuidados primários, hospitalares e continuados, serviços sociais, departamentos governamentais e ONGs.

Os serviços especializados em saúde mental das pessoas mais velhas devem incluir um leque variado de profissionais, como médicos, enfermeiros, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, assistentes sociais, de secretariado e auxiliar, que deverão reunir regularmente para coordenar e discutir as admissões e a carteira de utentes a cargo, devendo ter um líder claramente identificado.

O serviço deve poder oferecer um leque variado de respostas, acessíveis e disponíveis, como unidade de internamento para situações agudas, cuidados de dia e reabilitação, alívio e respostas residenciais para as pessoas que deixem de ter capacidade de viver nas suas casas, devendo ser garantida uma ligação recíproca entre os serviços de saúde mental e a medicina geral e familiar, bem como uma articulação com estruturas da comunidade (centros de dia e grupos de apoio a doentes e cuidadores).

O serviço deve ser centrado no doente e assegurar uma coordenação adequada entre os seus elementos para assegurar a continuidade dos cuidados e ser integrado nos sistemas de saúde e segurança social num quadro político, legal e económico apropriado.

A avaliação inicial deve ocorrer sempre que possível no domicílio do doente, com envolvimento dos familiares e da equipa dos cuidados primários responsável pela referência, devendo resultar na formulação de um plano de cuidados e de soluções de follow-up, com objetivos claros, definição de responsabilidades para os membros das equipas, com a identificação dos técnicos de referência de um e outro lado como interlocutores, e incluindo o apoio, informação e aconselhamento aos cuidadores.

Os bons serviços devem apoiar-se em boa investigação, educação e treino permanentes. A investigação na população mais velha tem sido negligenciada, sendo fundamental aumentar os recursos em investigação e desenvolvimento na determinação dos impactos das doenças mentais e na definição de modelos económicos para a melhoria da custo-efetividade das intervenções de saúde e sociais.

É crucial, na organização de respostas de qualidade às necessidades em saúde desta população, que todos os profissionais envolvidos tenham treino na área da saúde mental de pessoas de idade e competências comunicacionais e de avaliação de capacidades, em todos os níveis de cuidados.

Deve garantir-se em todos os hospitais gerais consciência por parte dos profissionais não especializados da prevalência, impacto e potencial de tratamento das perturbações mentais e que há disponibilidade efetiva para a formação necessária, bem como uma atenção especial ao desenvolvimento de lideranças das equipas e serviços.

Em países em que a atenção às pessoas mais velhas, nomeadamente às suas condições de vida, de saúde e sociais é pouco desenvolvida, urge definir uma estratégia que vise minimizar as consequências do 'mau envelhecimento', que tem custos acrescidos, para os próprios e suas famílias, para o equilíbrio social e a economia.

Em época em que a otimização do uso dos escassos recursos disponíveis assume a importância que conhecemos, a definição de estratégias de abordagem dos problemas da saúde mental no envelhecimento é prioritária, sendo certo que a sua falta acarreta custos financeiros, económicos, políticos, sociais e psicológicos de consequências imprevisíveis.

Por António Leuschner, presidente do Conselho de Administração do Hospital Magalhães de Lemos, E.P.E., no Porto 

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