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Opinião
Cancro do Pâncreas – Uma perspetiva atual e um olhar para o futuro
quinta-feira, 12 novembro 2015 11:34
Por: Miguel Bispo e F. Castro Poças, Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
Cancro do Pâncreas – Uma perspetiva atual e um olhar para o futuro

O cancro do pâncreas é o tumor maligno do sistema digestivo com pior prognóstico, com uma sobrevivência global aos 5 anos de apenas 5%. Atualmente surgem em Portugal cerca de 1400 novos casos por ano. Na véspera do Dia Mundial do Cancro do Pâncreas, a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia partilha alguns factos relevantes sobre esta doença.


O cancro do pâncreas é habitualmente silencioso até uma fase avançada da doença e os sintomas são relativamente inespecíficos, particularmente nos tumores do corpo e cauda do pâncreas. No momento do diagnóstico, mais de metade (cerca de 60%) dos doentes apresentam doença metastizada (estadio IV), 20 a 25% apresentam doença localmente avançada (cirurgicamente irressecável) e apenas 15 a 20% são candidatos a tratamento cirúrgico.

No cancro do pâncreas é fundamental uma abordagem multidisciplinar, tendo a Gastrenterologia um papel crucial nas várias etapas do diagnóstico, estadiamento e tratamento desta doença No campo do diagnóstico, salienta-se o papel central que a ecoendoscopia assumiu no diagnóstico e estadiamento loco-regional, sendo complementar à tomografia computadorizada na avaliação da ressecabilidade do tumor (guidelines da Sociedade Europeia de Oncologia Médica – ESMO, 2015). Permite ainda a realização de biópsias transendoscópicas, com maior segurança e conforto para o doente comparativamente às biopsias percutâneas.

Relativamente à implementação de programas de rastreio, não existe atualmente uma estratégia de rastreio definida para a população geral e não existem exames de fácil execução, rapidamente disponíveis, isentos de complicações e com elevada acuidade, que possibilitem a generalização do rastreio do cancro do pâncreas. O rastreio de subgrupos específicos com elevado risco de cancro do pâncreas (pela história familiar ou pela identificação de determinados síndromes hereditários) já é realizado em vários centros europeus, mas apenas no âmbito de programas de investigação. São candidatos ao programa de rastreio os indivíduos com história familiar de elevado risco (com pelo menos 2 familiares de primeiro grau afetados, ou 3 ou mais familiares afetados, em que pelo menos 1 é de primeiro grau) ou com determinadas síndromes hereditários (como a pancreatite hereditária ou o síndrome de Peutz-Jeghers). Não estão identificados genes de susceptibilidade para o cancro do pâncreas familiar. A estratégia de rastreio utilizada nos grupos de risco não é consensual, sendo a ecoendoscopia e a ressonância magnética os exames mais utilizados.

No Dia Mundial do Cancro do Pâncreas, que se assinala a 13 de novembro, devem ser destacados importantes progressos que têm sido alcançados em ensaios clínicos, tanto no diagnóstico precoce como no tratamento nos vários estadios da doença. Perante o diagnóstico de cancro do pâncreas, a inclusão em ensaios clínicos deve ser, sempre que possível, equacionada em qualquer fase da doença, o que já é possível em várias instituições portuguesas (a consultar no Registo Nacional de Estudos Clínicos do Infarmed).

É possível que a história natural e o prognóstico desta doença sejam profundamente alterados nos próximos anos. No âmbito do diagnóstico do cancro do pâncreas, salienta-se a importância de identificar e validar novos biomarcadores, idealmente pesquisados por análise sanguínea, com sensibilidade e especificidade elevadas, permitindo um diagnóstico verdadeiramente precoce, mesmo antes da massa tumoral ser visível noutros exames. Salientamos a investigação do grupo de Sónia Melo (do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto), publicada este ano na revista Nature, que descreveu a utilidade de uma proteína (GPC1), detetada no plasma sanguíneo, com elevada sensibilidade na deteção de células neoplásicas do pâncreas e com elevada correlação com a atividade tumoral. Estes biomarcadores também poderão vir a ser úteis no rastreio de cancro do pâncreas em grupos de risco e na monitorização da resposta ao tratamento.

Novos dados de investigação têm ainda permitido identificar marcadores moleculares com valor preditivo na resposta ao tratamento (por exemplo na identificação dos doentes que mais beneficiam de cirurgia) e poderão dirigir a seleção de fármacos anti-tumorais de acordo com a sensibilidade das células cancerígenas.

A terapêutica anti-tumoral dirigida por ecoendoscopia, com injeção directa na massa tumoral de agentes anti-tumorais ou com acção imuno-reguladora (como células dendríticas), tem demonstrado resultados promissores em doentes com cancro do pâncreas localmente avançado.

Mensagens chave:

- A incidência do cancro do pâncreas tem aumentado nas últimas décadas, com cerca de 1400 novos casos diagnosticados anualmente em Portugal.
- O diagnóstico é habitualmente tardio e a história natural deste tumor é desfavorável com uma sobrevivência global aos 5 anos de apenas 5%.
- É fundamental uma abordagem multidisciplinar do cancro do pâncreas, tendo a Gastrenterologia um papel crucial nas várias etapas do diagnóstico, estadiamento e tratamento desta doença.
- A ecoendoscopia digestiva, pela sua elevada acuidade diagnóstica e capacidade interventiva, possibilitando a biópsia de tecido tumoral e a injeção direta de agentes anti-tumorais, terá cada vez mais um papel central na abordagem desta doença.
- Na última década assistimos a grandes progressos na investigação molecular do cancro do pâncreas, com a identificação de biomarcadores com potencial relevância diagnóstica e prognóstica e com a reformulação de novos alvos terapêuticos.
- A Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia defende que deve ser promovida a inclusão de instituições portuguesas em ensaios clínicos com tratamentos inovadores, que englobem os vários estádios da doença.

Artigo de opinião escrito por Miguel Bispo e F. Castro Poças, membros da direção da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

Nesta infografia encontra a principais mensagens a reter sobre o cancro do pâncreas. Descarregue e partilhe esta informação junto dos seus contactos.

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