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Opinião
É necessário mudar as mentalidades relativamente à vacinação
quarta-feira, 16 dezembro 2015 11:21
Por: Raúl de Amaral Marques, imunoalergologista
É necessário mudar as mentalidades relativamente à vacinação

É necessário mudar as mentalidades relativamente à vacinaçãoA gripe é, na realidade, uma doença mortal e tão ou mais mortal que tantas outras doenças que são notícia comum dos meios de informação. Habitualmente, a gripe aparece sobre a forma de surtos ou de epidemias (mesmo pandemias) atacando em particular os mais frágeis como os mais idosos, os imunodeprimidos, os portadores de doenças crónicas e, também, os mais novos.

Os vírus da gripe, que são vários (A e B) e de várias estirpes (H e N), têm tido a "inteligência" suficiente para mudarem as suas características antigénicas sempre que se sentem "mais ameaçados".

Esta variabilidade dos vírus influenza é consequência de dois fenómenos:

- "drift" antigénico ou deslizamento - corresponde a alterações mínimas das proteínas de superfície (hemaglutinina). As consequências são uma diminuição da protecção imunitária das pessoas expostas a novas variantes. É por isso que é necessário adaptar a composição da vacina contra a gripe, anualmente. É o que sucede na gripe sazonal (surtos epidémicos ou epidemias).

- "shift" antigénico ou modificação – corresponde a uma mutação a nível do genoma (que é considerado o núcleo do vírus). Durante uma infeção mista, pode suceder que dois fragmentos inteiros de dois vírus diferentes se recombinem, dando origem a um vírus novo que escapa às defesas imunitárias. É o que sucede nas grandes epidemias e nas pandemias.

Daí a importância da vacinação e da sensibilização quer dos profissionais de saúde, quer da população em geral, no sentido de serem vacinados.

Vacinação: mais vale prevenir...

Quando se fala de vacinação contra a gripe temos de ter em consideração alguns aspetos. Por um lado, as populações de risco que, cada ano, são atempadamente definidas pela Direção-Geral da Saúde, de acordo com o parecer do colégio de peritos e colaboradores (pode-se consultar o site da DGS).

Deverão ser essas populações as prioritariamente vacinadas, porque são aquelas em que a infeção pode assumir um maior grau de gravidade e de mortalidade; um outro grupo que deve ser vacinado são os profissionais de saúde porque, devido à grande capacidade de transmissão dos vírus da gripe, há necessidade de evitar que adoeçam e, ao mesmo tempo, impedir que sejam vetores de transmissão no contacto destes profissionais com a população mais fragilizada.

O ideal seria, portanto, que as populações consideradas de risco e os profissionais de saúde (no sentido lato do termo, onde se incluem todas as pessoas que lidam com as populações mais desprotegidas) fossem todas vacinadas! Daí que quanto mais elevadas as percentagens de vacinados melhor será. Será difícil atingirem-se os 100%, mas tenta-se, sempre, caminhar nesse sentido.

Epidemias sazonais: atuação, problemas e reformas necessárias

A gripe é uma doença que está sempre presente, mas que surge com maior agressividade nos meses de inverno, quando o frio e as condições atmosféricas são mais adversas. Esta patologia é constantemente monitorizada pela Organização Mundial de Saúde em estreita colaboração com os Institutos Nacionais de Saúde em cada país.

Portugal, desde os anos 50, que tem sido um país pioneiro na vigilância e controlo desta doença. E é precisamente a informação colhida, dia a dia, em cada local – não esquecer que, se agora estamos a entrar no pico do Verão, os países do hemisfério sul estão no pico do Inverno e a debaterem-se, certamente, com os seus surtos epidémicos de gripe – que vai permitir coligir o máximo de informação sobre as características antigénicas dos principais vírus A e B causadores de doença nos humanos e, assim, se preparem as vacinas que, cada ano, são necessariamente diferentes.

Pode suceder que, como aconteceu há dois anos, já depois de as vacinas estarem em preparadas para serem distribuídas, ter o vírus alterado as suas características antigénicas e ter havido necessidade de se fabricarem novas vacinas que, por esse motivo, não puderam ser fabricadas em número suficiente para as necessidades de cada país. Quero lembrar que o processo de fabricação das vacinas obriga à inoculação de ovos de galinha que servem de base proteica para o desenvolvimento e replicação dos vírus. Por isso, pela necessidade de todos os anos se fabricarem novas vacinas, com as dificuldades inerentes à sua fabricação, é que o número de vacinas é limitado, e quase rateado, em cada país. A disponibilização de mais vacinas prende-se, essencialmente, com o recurso a novas tecnologias de fabricação das vacinas.

Acima de tudo, e em relação aos avanços do reforço de vacinação, é necessário mudar mentalidades: as vacinas não provocam doença e, muito menos, gripe – as vacinas europeias são feitas a partir de vivos mortos, impossíveis de provocar doença – e essa mudança de mentalidade deve ser feita a nível dos médicos, que devem ser os grandes incentivadores e prescritores da vacinação, e também de alguns meios de informação que procuram mais o sensacionalismo que o dever de informação. A informação atempada do período de vacinação, a disponibilidade de vacinas e a sua facilidade de administração são medidas que têm sido implementadas e levado a uma subida consistente do número de vacinados.

Sensibilização: tão importante quanto a vacinação

Para que se consiga mais sensibilização dos profissionais de saúde e dos portadores de doenças crónicas relativamente a este assunto, é importante uma melhor informação sobre a agressividade deste tipo de vírus, da inocuidade da vacinação, de melhores campanhas e mais facilidade de acesso às vacinas.

Quanto à agressividade, convém não esquecer as grandes pandemias que dizimaram populações: desde os relatos da peste branca, na Idade Média, que hoje se sabe serem pandemias causadas pelo vírus da gripe e que os "astrónomos" de então diziam serem devidas à "influência" dos astros e daí o nome atribuído ao vírus de Influenza, à pandemia espanhola quase há um Século (e que matou entre 50 a 70 milhões de pessoas em todo ao mundo), até às gripes asiática (em 1952), de Hong Kong (em 1968) e, mais recentemente, a gripe A (ou mexicana).

Quanto à inocuidade da vacina da gripe é uma realidade: raros são os casos de doenças associadas diretamente à inoculação da vacina. Quando se faz uma vacinação em massa das populações podem surgir, por vezes, epifenómenos que possam estar associados à vacinação mas que, muitas vezes, se demonstra não haver relação causal.

As campanhas de vacinação têm sido feitas através da DGS, anualmente, divulgando o período ideal de vacinação, as pessoas que, prioritariamente, devem ser vacinadas, os grupos de risco (nunca esquecendo o grupo das crianças em idade escolar) e colocando sempre a tónica na necessidade de os profissionais de saúde e de todas as pessoas que lidam com doentes, idosos e crianças se vacinarem.

Cabe, também, aos meios de informação um papel importantíssimo na divulgação desta doença, da necessidade da sua prevenção e do benefício para todos da vacinação atempada contra a gripe.

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