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Opinião
Colangite biliar primária: a doença desconhecida do fígado

Colangite biliar primária: a doença desconhecida do fígado

Por: Helena Cortez-Pinto, especialista em Gastrenterologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte/HSM e Professora da Faculdade de Medicina de Lisboa

terça-feira, 04 outubro 2016 12:21

A colangite biliar primária (CBP) é uma doença rara do fígado que é causada por uma reação autoimune que mantem os pequenos canais biliares presentes no fígado com uma inflamação constante. Nesta doença é como se o organismo deixasse de reconhecer o fígado e o sistema imunitário começasse agredi-lo.

 

A nível de progressão da doença esta pode gerar fibrose, cirrose ou mesmo cancro do fígado, assemelhando-se a sua evolução, nos casos mais graves, à já conhecida hepatite crónica C.

Em Portugal calcula-se que possam existir 500 a 1000 casos de CBP, sendo que o diagnóstico desta doença tem aumentado nos últimos 60 anos. Não se sabe, no entanto, se este aumento está relacionado com o aumento da incidência desta doença ou pelo facto de os médicos estarem mais despertos para a CBP.

Tratando-se de uma doença multifatorial, o que se sabe é que tende a aparecer onde existe uma maior atividade industrial, quando existem hábitos tabágicos associados, alterações nos cromossomas sexuais, é mais suscetível de aparecer em pessoas que tenham infeções do trato urinário frequentes e em pessoas em que o sistema imunitário está debilitado. Curiosamente é uma doença que afeta sobretudo mulheres, com uma frequência de 9-10 mulheres para 1 homem, entre os 40 e os 60 anos de idade.

A CBP, normalmente, é detetada pelo Médico de Família, que encaminha os doentes para um especialista do fígado que realiza exames mais direcionados para este órgão.

Em casos extremos de evolução da doença é necessário proceder ao transplante de fígado, que é uma opção que envolve riscos para a vida do doente e que, no caso de correr bem, obriga a dependência dos imunossupressores, para aceitação do novo órgão, durante toda a vida. O que se verifica é que a CBP é responsável por 9% dos transplantes de fígado realizados na Europa por cirrose hepática.

Este ano foi aprovado pela FDA um tratamento inovador para esta doença que permite dar a resposta a muitos doentes, até àqueles que não conseguiam obter melhorias com o tratamento standard (ácido Urso-desoxicólico). Um marco importante para os doentes com CBP uma vez que há 20 anos que não existia inovação farmacológica nesta área.

A Colangite Biliar Primária teve, recentemente, uma alteração de nome por, erradamente, a associar à cirrose, (e que remete a doenças associadas a hábitos de consumo alcoólico muitas vezes estigmatizantes) de forma a se conseguir desmistificar esta doença rara, ainda muito pouco conhecida, junto da população.

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