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Opinião
7.ª edição dos “7 Dias do Coração”, maio de 2017
terça-feira, 09 maio 2017 09:44
Por: Quitéria Rato, assistente graduada sénior de Cardiologia do Centro Hospitalar de Setúbal
7.ª edição dos “7 Dias do Coração”, maio de 2017
A melhoria das condições sanitárias e o desenvolvimento científico e tecnológico verificado nas últimas décadas, com grande relevo na área da Medicina, levaram ao aumento da esperança média de vida dos portugueses, que em 2015 foi de 78,1 anos para os homem e de 84,3 anos para as mulheres. Mas, para além da esperança média de vida à nascença, interessa também olhar para a esperança média de vida saudável à nascença e aos 65 anos de idade e, em Portugal, estas são inferiores às médias da União Europeia.

 

Não obstante, a situação agravou-se em 2014 face ao ano anterior: em 2013 a esperança média de vida saudável aos 65 anos foi de 9,6 anos para os homens e de 9,3 anos para as mulheres e em 2014 foi de 6,9 anos para os homens e de 5,6 anos para as mulheres, ou seja, uma perda de cerca de três anos de vida saudável, tendo sido as mulheres as mais afetadas. Os portugueses têm vindo a aumentar a sua esperança média de vida, mas com menos anos de vida saudável; vivem mais anos, mas mais doentes.

 

A fragilidade económica e social que se tem registado nos últimos anos em Portugal, e que atinge largas camadas da população, pode vir a refletir-se na diminuição da esperança média de vida, mas provavelmente é a principal responsável pela observada diminuição da esperança média de vida saudável dos portugueses. Assim, a promoção da Saúde e a prevenção da doença devem ser uma prioridade, que importa operacionalizar, através de modelos exequíveis num ambiente de escassez de recursos.

 

No Plano Nacional de Saúde – Revisão e Extensão a 2020 (DGS, 2015) “... considera-se que a Saúde começa em casa, na família, na comunidade e na sociedade.” Ciente das suas responsabilidades, o Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Setúbal, EPE (CHS) desenvolveu o projeto “7 Dias do Coração”, que organiza anualmente desde 2011, ao longo de 7 dias, durante o mês de maio. No evento inserem-se ações de educação para a Saúde e rastreio de fatores de risco cardiovascular, de fibrilhação auricular (FA) e de insuficiência cardíaca (IC), bem como ensino sobre sinais e sintomas das doenças cardíacas mais frequentes, e medidas a tomar em caso de alerta, com especial ênfase no enfarte agudo do miocárdio (EAM), sendo os principais objetivos:

 

1. Promoção da educação para a Saúde e rastreio de fatores de risco cardiovasculares:
• Tabagismo
• Hipertensão arterial
• Hipercolesterolemia
• Diabetes
• Obesidade

 

2. Avaliação do risco de diabetes e do risco cardiovascular a 10 anos;

 

3. Promoção de medidas de estilo de vida saudável (alimentação, exercício físico);

 

4. Rastreio da FA (realização de ECG) e esclarecimento sobre hipocoagulação oral;

 

5. Informação sobre a doença arterial coronária: angina de peito e enfarte do miocárdio;

 

6. Informação sobre a IC e rastreio da doença.

 

As ações destinam-se ao público em geral e aos funcionários do Centro Hospitalar de Setúbal, EPE (CHS) e da Câmara Municipal de Setúbal, que é um dos parceiros do projeto, decorrendo, respetivamente, na Av. Luísa Todi em Setúbal, CHS e Quartel dos Bombeiros Sapadores de Setúbal.

 

Para a operacionalização das ações foi criado um circuito de stands, tipo “feira da Saúde”. Cada stand destina-se a um fim específico e a logística é montada em consonância; por exemplo, no stand do ECG são colocados os seguintes materiais: marquesa, eletrocardiógrafo, biombo, cadeira, cabide, papel.

 

Este circuito é constituído pelos seguintes stands:

 

Stands para rastreio de fatores de risco cardiovasculares:
• Obesidade/Nutrição (avaliação do peso, altura e perímetro abdominal e cálculo do índice de massa corporal, ensino de medidas nutricionais corretas, distribuição de folhetos);
• Tabagismo (informação sobre os malefícios do tabaco, distribuição de folhetos informativos, realização de espirometrias)
• Hipertensão arterial (avaliação da tensão arterial, chamada de atenção para o excesso de consumo de sal e outros fatores de risco associados à hipertensão arterial);
• Diabetes (avaliação da glicemia capilar e do risco de vir a ter diabetes tipo 2 nos próximos 10 anos, com base nos parâmetros avaliados e registados em ficha própria adaptada do Finnish Diabetes Risk Score (FINDRISC), ensino de medidas preventivas);
• Hipercolesterolemia (doseamento do colesterol total, relação dos valores elevados de colesterol com as doenças cardiovasculares, ensino de medidas nutricionais mais adequadas).

 

Stand para realização de ECG e rastreio de FA;

 

Stand para informação sobre os riscos da FA e esclarecimento sobre hipocoagulação oral;

 

Stand para informação sobre a doença coronária e sinais de alerta para enfarte do miocárdio;

 

Stand para informação e rastreio da IC;

 

Stand de avaliação do risco cardiovascular a 10 anos:
• Avaliação do risco de morte a 10 anos por doença cardiovascular, segundo as tabelas de risco da Sociedade Europeia de Cardiologia - HeartScore, com vista a elucidar as pessoas relativamente ao seu risco cardiovascular global. Neste stand faz-se um especial enfoque no facto do risco aumentar exponencialmente quando se associam vários fatores de risco, mas que diminui com o controlo dos fatores de risco.

 

Stand do exercício físico:
• Realização de atividades físicas dinamizadas por elementos do Serviço de Medicina Física e de Reabilitação do CHS e da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa, bem como a avaliação da aptidão física e do equilíbrio de pessoas idosas (bateria de testes de Fullerton).

 

Atenta a dimensão e o âmbito do projeto, foram criados materiais educativos específicos, em articulação com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia, mais concretamente os seguintes folhetos:
• “ Conhecer para prevenir...Fibrilhação Auricular e Embolias/AVC “;
• “ Saiba mais... Hipocoagulação e Fibrilhação Auricular “;
• “ Conhecer para prevenir...Sete regras de ouro da Insuficiência Cardíaca “
• “ Tome a iniciativa... Controle a sua tensão arterial “
• “ Tome a iniciativa... Mexa-se mais “
• “ Obesidade – Um problema dos tempos modernos ”
• “ Tome a iniciativa... Controle o seu colesterol “
• “ Tome a iniciativa... Deixe de fumar “
• “ Conhecer para salvar...Enfarte Agudo do Miocárdio “
• “ Saiba mais... Diabetes e Doenças Cardiocerebrovasculares “
• “ Saiba mais... Diabetes - Mitos e realidades “
• " Saiba mais... Diabetes - Direitos e deveres “
• “Passo a Passo”

 

Estes instrumentos educativos estão acessíveis para consulta na página do cidadão do portal da Sociedade Portuguesa de Cardiologia: www.spc.pt.

 

A dimensão do evento só é possível pela estreita colaboração de mais de uma centena de profissionais (entre os quais: médicos de várias especialidades, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, técnicos de cardiopneumologia, técnicos superiores e assistentes administrativos do CHS, professores e doutorandos da Faculdade de Motricidade Humana, profissionais da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Câmara Municipal de Setúbal, elementos da Cruz Vermelha Portuguesa (delegação de Setúbal) e do Corpo de Voluntariado do CHS, que abraçaram o projeto e o implementam no terreno.

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que uma diminuição dos fatores de risco pode reduzir a incidência da doença cardiovascular para menos de metade.

 

Na mesma ordem de ideias, salienta-se a Carta Europeia para a Saúde do Coração, promovida inicialmente pela Sociedade Europeia de Cardiologia e a European Heart Network, posteriormente assinada por diversas associações científicas, e aprovada em dezembro de 2007 em Conselho de Ministros Europeu, durante a Presidência Portuguesa.

 

A “Carta” coloca a problemática da doença cardiovascular nas primeiras linhas da agenda de trabalho de Governos, Organizações não-Governamentais e Sociedades Científicas, apontando no seu artigo 7.º que: “o peso associado da doença cardiovascular estabelecida pode ser reduzido com um diagnóstico precoce, tratamento adequado da doença, reabilitação e prevenção, nomeadamente através do aconselhamento em prol de um estilo de vida mais adequado”. O exposto eleva para primordial o desenvolvimento de estratégias de promoção de Saúde e prevenção da doença, objetivos do projeto “7 Dias do Coração”. O objetivo último deste projeto, pode resumir-se em: educar, sensibilizar e responsabilizar pela e para a Saúde.

 

Atualmente os investimentos na prevenção e promoção de estilos de vida saudáveis representam apenas 3% dos orçamentos anuais dos países desenvolvidos, comparativamente aos 97% gastos em tratamentos e cuidados de Saúde (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico). No entanto, é indiscutível que uma avaliação global e precoce do risco cardiovascular, associada a estratégias de educação para a Saúde, constitui um meio importante para a diminuição da morbilidade e mortalidade cardiovascular. Das medidas preventivas, as que têm mais impacto na Saúde das populações, são precisamente as que incidem sobre os principais fatores de riscos cardiovasculares (OMS).

 

As vantagens das ações preventivas, comparativamente às das ações curativas, tanto do ponto de vista pessoal como do socioeconómico, são inquestionáveis. Importa, pois, implementá-las ativamente, já que contribuem, em simultâneo, para a melhoria da qualidade de vida das populações e reduções dos gastos em Saúde.

 

A atual crise económica pode ser a alavanca para medidas estratégicas que, a médio prazo, levem ao aumento da esperança média de vida saudável dos portugueses.

 

A ação “ 7 dias do Coração” assume-se como um projeto inovador, que criou um modelo que pode ser replicado, de utilidade pública inequívoca, já que constitui um contributo efetivo para a promoção da Saúde e prevenção das doenças cardiovasculares.

 

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