FacebookTwitterYoutubeInstagramWhatsapp

Plataforma de Atualização Diária

Opinião
Cancro: é possível brincar com coisas sérias
quarta-feira, 16 agosto 2017 09:46
Por: Marine Antunes, autora do projeto Cancro com Humor
Cancro: é possível brincar com coisas sérias
Uma vez, em 2013, uma jornalista perguntou-me: “Qual é a piada de ter cancro?”
Fiquei atrapalhada com a pergunta. Nunca me tinham feito e, sinceramente, não achei que fosse uma boa pergunta. Não só porque é uma pergunta com uma resposta óbvia mas, essencialmente, porque transporta uma ironia subliminar que pressupõe que eu estou a dizer que ter cancro tem piada. Não estou.  O projeto chama-se “Cancro com humor” e não “ter cancro tem piada”. Escolhi (o humor é uma escolha e não uma condição) utilizar o humor durante a minha vida como também poderia ter escolhido a sisudez.

 

Ambas as opções seriam válidas e reais porque eram minhas.Ambas as opções seriam válidas e reais porque eram minhas.

 

De qualquer forma, a pergunta ecoou dentro de mim. Se pesquisarmos a palavra humor veremos que o seu antónimo é “respeitabilidade”. Dói, não dói? Ainda fazemos isto? Ainda confundimos humor com falta de respeito? Ainda achamos que tornar a vida mais alegre é ter “falta de chá?” Esta semana vi o filme “O nome da Rosa”, que também nos fala precisamente disto - do humor como uma falta de respeito. A dada altura, o monge grita: “Um monge não ri!”. É considerado ofensivo, ostensivo. Rir exaltava histeria. Ser histérico era ser louco. Mas os tempos estão a mudar. Hoje, louco é aquele que não ri. Pelo menos, são essas águas que tento agitar com o projeto “Cancro com Humor” e também neste segundo livro, “Cancro com Humor 2 – é possível ser feliz no caos”. Rir da dor. Desconstruí-la. Usar o humor para relativizar o caos. Tornar mais fácil. Falar da dor com amor – todas estas máximas regem os meus dias, regem a forma com que penso e vivo. Foi assim durante a fase dos tratamentos (onde a gargalhada sabia melhor do que chocolate) e foi assim quando vivi a pele de cuidadora. Nunca descurei do humor, no cuidado. Tinha sempre um sorriso na cara, uma piada parva no bolso e quando ele ria comigo, a alma de ambos brilhava. Eu, por o ver feliz, mesmo que fosse durante aqueles trinta segundos e ele, porque aliviava. Porque o humor ajudava-o a respirar.

 

E depois veio a morte. Claro que aqui interroguei se o humor entraria nesta nova equação. Se me faria sentido. Se continuaria com o projeto Cancro com Humor. Questionei porque também duvidei. Mas as dúvidas rapidamente se dissiparam ao primeiro sorriso que dei. Porque não sei estar muito tempo zangada. Porque sempre que alguém me fazia rir eu nascia de novo. Aos poucos, fui percebendo que era capaz de brincar também com essa dor tão forte e de falar de morte sem peso. O humor foi ressurgindo e eu fui percebendo que a minha essência continuava intacta.

 

Foi nesse processo, que nasceu o segundo livro. É um livro que fala de superação mas também de morte, que fala do luto e da luta de me sentir bem, em paz, falando de cancro com leveza e naturalidade – porque é possível falar de coisas sérias a brincar. Tem de ser possível. Se o sério custa tanto, se ter cancro já causa tanto transtorno e nunca dá jeitinho nenhum levar com um, não podemos brincar com a nossa desgraça porquê? Não temos permissão de tornar a fase mais difícil da nossa vida em algo menos trágico em prol de quem?

 

Uma vez disseram-me que era de mau tom, gozar com o cancro. Não percebo porquê. Para mim, o que é de mau tom é o cancro querer matar-me. Isso sim, é feio para caraças.

 

PUBLICIDADE

© 2019 Vital Health | Todos os direitos reservados | Designed by IPSPOT_ and Developed by Webview