FacebookTwitterYoutubeInstagramWhatsapp

Opinião
Bexiga hiperativa: quando o regresso ao trabalho é um problema (ainda) maior
Por: Ricardo Pereira e Silva, urologista no Serviço de Urologia do Centro Hospitalar Lisboa Norte
Bexiga hiperativa: quando o regresso ao trabalho é um problema (ainda) maior
A bexiga hiperativa é uma condição clínica caracterizada por urgência urinária, ou seja, episódios de vontade súbita e inadiável de urinar, com idas muito frequentes à casa-de-banho durante o dia e durante a noite, podendo igualmente acompanhar-se de perdas involuntárias de urina (incontinência urinária).

 

Tanto homens como mulheres podem ser afetados por este problema e, ainda que a sua incidência aumente com a idade, a bexiga hiperativa pode manifestar-se em qualquer faixa etária. Assim sendo, é importante referir que não é um fenómeno normal do envelhecimento mas sim uma doença que requer tratamento.

 

Este tipo de sintomas podem condicionar gravemente a vida dos doentes, que podem preferir evitar determinados locais e situações para minimizar as suas consequências. Pode ser necessário ir jantar num determinado local, sentar-se na ponta da fila no cinema ou viajar de comboio para evitar uma viagem de autocarro. Ou seja, a bexiga hiperativa, particularmente se associada a incontinência urinária, exige um planeamento meticuloso do quotidiano, que pode levar à exaustão.

 

Existe evidência científica de que cerca de 30% dos doentes com bexiga hiperativa podem apresentar níveis elevados de ansiedade e depressão, como consequência dos sintomas. Estes podem contribuir para uma redução da atividade social – o medo da ocorrência de “acidentes” frequentemente leva o doente a evitar estar com a família, amigos ou colegas de trabalho. As perdas de urina no contexto de bexiga hiperativa podem ser em grande quantidade e francamente visíveis – muitas vezes basta um único episódio de incontinência para que o doente fique traumatizado.

 

Os doentes com bexiga hiperativa apresentam muitas vezes limitações na sua atividade profissional, necessitando frequentemente de abandonar o seu posto para ir urinar, em situações que se podem tornar embaraçosas. Reuniões longas, trabalhos que não permitam que o doente se ausente (por exemplo taxistas ou professores) ou locais com pouco acesso a casa-de-banho (basta, por exemplo, um longo corredor para o doente sentir que pode não chegar a tempo) podem mesmo tornar-se impossíveis de gerir com normalidade.

 

Os colegas de trabalho nem sempre compreendem que este conjunto de sintomas e as situações que daí podem advir, são resultado de uma doença. A falta de conhecimento sobre a patologia contribui para a sensação de vergonha e para a incapacidade de falar abertamente sobre o assunto com outras pessoas, incluindo com os próprios médicos.

 

As férias são, ainda assim, um período durante o qual os doentes toleram melhor os seus sintomas, seja por um acesso mais fácil à casa-de-banho ou simplesmente por estarem livres das suas rotinas e obrigações laborais. Nesta fase do ano, a ideia de regressar ao trabalho pode ser fonte de ansiedade para muitas pessoas, que se veem novamente obrigadas a gerir a bexiga hiperativa de acordo com a sua atividade laboral. Apesar da bexiga hiperativa não ser “uma questão psicológica” como muitos pensam, o stress pode piorar os sintomas e, desta forma, contribuir para o agravamento das queixas no regresso ao trabalho após as férias.

 

Para aumentar a consciencialização sobre este problema, desmistificar alguns mitos e ajudar as pessoas que sofrem desta síndrome a obter mais alguma informação foi desenvolvida uma campanha de sensibilização Na Bexiga Mando Eu, que alerta para sintomas importantes e outra informação sobre a bexiga hiperativa.

 

É muito importante que, perante sintomas incomodativos e com impacto na qualidade de vida, o doente procure o seu médico de família ou um urologista para ajudar a diagnosticar e tratar a situação. Para além de um conjunto de medidas que permitem minorar o impacto da bexiga hiperativa, existe tratamento farmacológico seguro e eficaz, que pode fazer a diferença.
© 2018 Vital Health | Todos os direitos reservados | Designed by IPSPOT_ and Developed by Webview