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Opinião
Obesidade e preconceito
Por: Davide Carvalho, presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia Diabetes E Metabolismo
Obesidade e preconceito

A obesidade representa uma sobrecarga cada vez maior para os sistemas de saúde, dado que afeta mais de 20% das populações ocidentais. A sua frequência é cada vez maior: em Portugal, na última década a sua prevalência passou de cerca de 14 para 28%. Duplicar a prevalência da obesidade é assustador, porque a obesidade aumenta significativamente o risco de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, doença hepática da obesidade (fígado gordo, na gíria popular). Muitas destas complicações passam despercebidas durante anos sem complicações clínicas evidentes, pelo que a consciencialização, tanto dos doentes como dos profissionais de saúde, é essencial para que sejam desenhadas estratégias de diagnóstico e possam ser realizados rastreios adequados.

 

A obesidade está ainda associada a doença cardíaca coronária, a acidente vascular cerebral, a demência, a apneia obstrutiva do sono e vários tipos de cancro. Cada vez mais reconhecemos que a noção de distribuição de gordura, em vez do Índice de massa corporal (relação peso / estatura ao quadrado) está subjacente ao risco de doenças metabólicas em indivíduos obesos. A obesidade abdominal é o problema real. Costumo dizer aos meus doentes: diga-me o número das suas calças (saias) e que digo-lhe que risco corre.

Mais do que tratar a obesidade precisamos de a prevenir através de mudanças no estilo de vida. Para isso, precisamos de mudanças na sociedade: mais atenção às necessidades da população em atividade física e melhoria nos hábitos alimentares. Como dizia Helen Keller: Sozinhos podemos fazer tão pouco; juntos podemos fazer tanto.

A obesidade traz também consigo um estigma e um preconceito. Atualmente, a taxa de discriminação pelo excesso de peso é comparável às taxas de discriminação pela raça e pela idade, especialmente entre as mulheres. Em 1995-1996, a discriminação por excesso peso foi relatada por 7% dos adultos dos EUA. Em 2004-2006, essa percentagem subiu para 12%.

A discriminação está associada à estigmatização, ou seja, estereótipos negativos e preconceitos endossados por empregadores, prestadores de cuidados de saúde, professores, colegas, familiares e pela comunicação social. A discriminação assume atitudes, comportamentos e formas diferentes, incluindo tratamento injusto, como despedimento de um emprego por causa do excesso de peso, pagar menores salários em comparação com empregados mais magros ou até a nível médico não receber tratamento médico adequado (recusa de uma cirurgia até atingir um peso predefinido).

Estudantes com excesso de peso e obesos estão sujeitos a estigmatização por colegas e educadores na escola. Os professores têm perceções preconcebidas sobre as capacidades dos jovens com excesso de peso ou obesidade, considerando que possuem menores competências sociais, de raciocínio, físicas e de cooperação do que os alunos com peso normal. Estas ideias preconcebidas geram expectativas mais baixas para alunos com excesso de peso em diversas áreas de desempenho.

Apesar do preconceito generalizado em relação a essa população, muitas dúvidas permanecem sobre a natureza, a extensão e o impacto da estigmatização baseada no peso experimentada por muitos. Estas importantes questões só podem ser adequadamente ultrapassadas pelo aumento da consciência da sua existência, por debates alargados e por campanhas de promoção da literacia em saúde.

 

Termino com um exemplo o que pode ser um preconceito, citando Cristina Cairo em “A linguagem do Corpo”:

A gordura é o casulo que a pessoa cria, inconscientemente, para se proteger e se esconder dos problemas externos.

Muitas vezes a gordura é uma forma convenientemente usada para se conseguirem certos benefícios, como atrair a compaixão de outras pessoas, deixar de trabalhar naquilo que não gosta, escapar de certas obrigações que limitam sua liberdade e até mesmo testar o amor e a fidelidade do cônjuge.

Mais uma vez vemos que o perigo está em nossa mente, não no mundo em que vivemos, e nem nos alimentos que comemos.

 

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