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Opinião
Perturbação de stress pós-traumático dificulta o relacionamento interpessoal
sexta-feira, 14 dezembro 2018 10:02
Por: Sandra Neves, psiquiatra da Unidade Psiquiátrica Privada de Coimbra
Perturbação de stress pós-traumático dificulta o relacionamento interpessoal
A perturbação de stress pós-traumático (PTSD) é a designação para uma perturbação mental que parece resultar de uma hiperativação dos mecanismos de resposta ao medo.

 

Esta manifesta-se, normalmente, no primeiro mês após um evento traumático, mas, por vezes, pode passar um ano até que isso aconteça. Segundos os estudos, mediante acontecimentos potencialmente traumáticos, é muito frequente encontrar na maioria das pessoas expostas sintomatologia significativa, mas em mais de 90% esta acaba por ser atenuada ao longo das seis semanas seguintes.

 

Os sintomas da PTSD agrupam-se em quatro tipos fundamentais: pensamentos intrusivos, evitações, mudanças negativas no conteúdo dos pensamentos e no humor, e mudanças nas reações físicas e emocionais. Estes podem variar com o tempo e de pessoa para pessoa.

 

Podem, desta forma, surgir pensamentos intrusivos, recorrentes, angustiantes e involuntários sobre o acontecimento traumático, sensação de estar a reviver o acontecimento, muitas vezes com verdadeiros flashbacks, sonhos perturbadores ou pesadelos relacionados com o trauma e sensação de angústia intensa ou reações físicas perante situações que recordem, de alguma forma, o acontecimento traumático. Os sintomas de evitação podem passar por não falar do acontecimento e mesmo “evitar pensar”, evitar lugares, atividades ou pessoas que façam recordar o sucedido. Para além de toda esta sintomatologia, podem surgir pensamentos negativos acerca de si próprio, das outras pessoas e do mundo em geral, bem como desesperança face ao futuro. A memória pode também ser afetada e, muitas vezes, as pessoas não recordam aspetos importantes sobre o acontecimento traumático.

 

Estas manifestações tendem a provocar problemas consideráveis na qualidade de vida dos doentes com PTSD, dos quais se destacam: as dificuldades que surgem em manter as relações interpessoais, a sensação de “distância” de familiares e amigos, a descrição de se sentirem “insensíveis emocionalmente”, a dificuldade muitas vezes relatada em sentir “emoções positivas” ou a falta de interesse pelas atividades que anteriormente eram gratificantes.

 

Para além de tudo isto, o doente relata muitos sintomas que se relacionam com o estado de hipervigilância, tais como assustar-se facilmente, estar sempre alerta para uma eventual situação de perigo, queixas de dificuldade de concentração, perturbações do sono, irritabilidade, ataques de raiva ou manifestação de comportamentos agressivos e até mesmo conduta autodestrutiva como conduzir em excesso de velocidade e sem cuidado ou beber em excesso. Muitas vezes a todos os sintomas referidos ainda se juntam sentimentos de culpa ou de fraqueza, tornando o dia a dia destes doentes extremamente penoso.

 

Todos estes sintomas podem ainda variar de intensidade ao longo do tempo, podendo por exemplo ser mais intensos em fases da vida de maior stress e preocupação, ou quando se ouvem determinados barulhos, se assiste a condições meteorológicas adversas ou a notícias sobre a guerra, assaltos, violações e acidentes na televisão. Quadros intensos podem culminar mesmo em ideação suicida, sendo urgente obter ajuda para o doente.

 

Convém referir que nem todos os casos preenchem os critérios necessários para fazer o diagnóstico de PTSD, não significando por isso que o quadro clínico não afete de igual forma o doente, diminuindo-lhe a qualidade de vida e acarretando dor e sofrimento. Em suma, uma experiência traumática poderá trazer eventuais consequências positivas, tais como a reorganização da vida pessoal, dos seus valores e objetivos.

 

Para além do sofrimento e da diminuição da qualidade de vida, também o núcleo de familiares e amigos do doente acaba por ser atingido. Por isso, é essencial o reconhecimento e a orientação destes casos para os profissionais de saúde mental. A instituição de medicação psicofarmacológica por psiquiatras e o apoio psicoterapêutico instituídos precocemente poderão mudar o rumo de muitas vidas, melhorando a saúde global e devolvendo sorrisos.

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