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Opinião
Cancro do pulmão: é melhor prevenir que remediar
segunda, 04 fevereiro 2019 10:40
Por: Alfredo Martins, internista e coordenador do Núcleo de Estudo de Doenças Respiratórias da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna
Cancro do pulmão: é melhor prevenir que remediar
 

O cancro do pulmão é, atualmente, a primeira causa de morte por cancro nos homens em Portugal, e a terceira no sexo feminino, atrás do cancro do cólon e do cancro da mama. Por ano são efetuados novos diagnósticos de cancro do pulmão em cerca de 5.730 homens e 1.430 mulheres, e morrem por esta doença aproximadamente 5.100 homens e 1.080 mulheres.

 

 

 

Apesar dos progressos conseguidos no seu tratamento, os ganhos verificados na sobrevida da maioria dos doentes, cinco anos após o diagnóstico, são escassos. Nos Estados Unidos, a taxa de sobrevida global aos cinco anos passou de 13% em 1975 para cerca de 18% em 2018. O prognóstico depende do estádio de evolução da doença na data em que é iniciado o tratamento e a maioria dos diagnósticos são obtidos em fases avançadas da doença. Nestes casos a taxa de sobrevida aos cinco anos varia entre os zero e os 36%. Contudo, os doentes diagnosticados durante o primeiro estádio clínico da doença têm uma probabilidade de mais de 90% de estarem vivos passados esses cinco anos.

 

Podemos concluir, pelos números acima referidos, que se trata duma doença com um peso social e económico muito significativo, com sérias repercussões na vida das pessoas e das famílias afetadas e na sociedade em geral, uma vez que as suas consequências, o tratamento e todo o apoio de que necessitam os doentes com cancro do pulmão se repercutem, de diferentes formas e intensidades, a todos estes níveis.

 

Será que podemos alterar este cenário?
 

O conhecimento atual sobre as causas do cancro do pulmão, as capacidades disponíveis para o seu tratamento conforme o estádio da doença ao diagnóstico e as possibilidades existentes de realizarmos diagnósticos em estádios mais precoces permitem-nos afirmar que podemos alterar muito o cenário atual e que não estamos, de facto, a orientar os esforços no combate à doença na direção certa. É necessário investir muito mais em duas áreas fundamentais: na prevenção e no diagnóstico precoce do cancro do pulmão. Podemos parar o cancro do pulmão antes de ele aparecer e, quando isso não for possível, temos de o diagnosticar antes de adquirir dimensões que impeçam a sua cura.

 

Mais de 80% dos doentes com cancro do pulmão são fumadores ou ex-fumadores. O hábito de fumar e a exposição ao fumo ambiental é o principal fator de risco associado ao desenvolvimento de cancro no pulmão e este risco pode ser significativamente diminuído pela mudança de hábitos. A doença pode ser evitada numa enorme parcela dos casos com a redução do consumo ou da exposição ao tabaco. Em Portugal, cerca de dois milhões de pessoas são fumadoras (perto de 1.33 milhões são homens e 680 mil são mulheres).

 

Existem ainda outros fatores de risco conhecidos que devem ser objeto de medidas de controlo específico: poluição atmosférica (fumos de escape diesel); exposição profissional (asbestos, pó de madeiras, vapores de soldagem, arsénico e metais industriais como o Berílio e o Crómio) e a poluição indoor (rádon e fumo do carvão).

 

Não sendo possível eliminar todo o risco, vai continuar a existir cancro do pulmão e, por isso, temos que chegar ao diagnóstico da doença antes que esta se manifeste através dos sintomas, porque a identificação da doença em fase precoce aumenta muito a probabilidade de cura.

 

A tomografia computorizada torácica de baixa dose de radiação é o único teste de rastreio de cancro do pulmão que permite diminuir a probabilidade de morte por cancro do pulmão numa população com alto risco de desenvolver a doença. Este deverá ser realizado em centros capazes de identificar doentes com alto risco e com capacidade para diagnosticar e tratar o cancro do pulmão. Portugal tem condições para montar um programa de rastreio de cancro do pulmão com cobertura nacional e deve fazê-lo.

 

Se conseguirmos ser eficazes na prevenção e montar esse mesmo programa de rastreio com capacidade para rastrear todas as pessoas com alto risco de cancro do pulmão, poderemos reduzir a mortalidade por esta doença em cerca de 50% em 15 anos. Isto significa que em 15 anos menos cerca de 3 mil doentes vão morrer por ano por cancro do pulmão.

 

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