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Opinião
Asma na adolescência
terça-feira, 11 junho 2013 10:56
Por: Herculano Costa, pediatra, responsável pela Unidade de Imunoalergologia e Pneumologia Pediátrica do Centro Hospitalar de Gaia/Espinho
Asma na adolescência

fotografia c735fA asma é a doença crónica mais frequente em pediatria. Sendo a mortalidade por asma, em geral, baixa, ela é muito baixa em Portugal (inferior a 1 criança/ano). Contudo, o grupo etário dos adolescentes apresenta um risco de morte 5 vezes maior que o das outras crianças, bem como um maior risco de incumprimento terapêutico.

 

 


Vários fatores tornam os adolescentes um grupo mais vulnerável a algumas complicações associadas à doença.


São sensíveis às modas de grupo e apresentam maior resistência ao cumprimento de regras sociais, pois, trata-se de uma idade em que ressaltam os desafios às autoridades social e parental. Recusam frequentemente alterar estilos de vida e comportamentos de risco (tabagismo, por exemplo).


Como consequência destas atitudes, pode surgir recusa em admitir a doença e necessidade de tratamentos crónicos, ou até o total abandono dos tratamentos.

Segundo alguns estudos, metade dos adolescentes não tomam qualquer medicação mesmo em situações de evidente desconforto clínico (tosse persistente ou falta de ar). Representam outros fatores de risco na adolescência a negação dos sintomas, bem como a negação da necessidade de tratamento, o que, por vezes, em situações extremas, diminui a perceção da sensação de falta de ar, com o iminente risco de crise grave.


Por estes motivos, é útil poder oferecer consultas não programadas, bem como programas especiais de educação para adolescentes asmáticos.


O que preocupa os adolescentes e não é frequentemente referido nas consultas (referido pelos próprios em inquéritos):

 

  • possibilidade de ter asma para sempre;
  • ter que tomar medicação para toda a vida;
  • não arranjar emprego por ter asma;
  • ter de usar inaladores em público;
  • aumentar de peso por causa dos medicamentos;
  • não arranjar namorado por ter asma;
  • a asma pode afetar o desempenho físico, desportivo e sexual;
  • afeta a imagem no grupo;
  • os medicamentos podem afetar o crescimento e ter efeitos sobre o coração;
  • eventual interação dos remédios com o tabaco e outras drogas.


E o que eles dizem dos profissionais de saúde:

 

  • não me disseram tudo o que eu queria saber sobre asma;
  • não estava à vontade na consulta para fazer todas as perguntas;
  • não percebi muitas das coisas que me disseram sobre a minha doença.


Algumas das consequências de todas estas reclamações levarão ao abandono do tratamento e poderão originar conflitos familiares e um ainda maior isolamento do adolescente.


Os profissionais de saúde devem, por isso, mostrar mais preocupação com o adolescente e os seus problemas durante as consultas e menos com protocolos rígidos e agendas pessoais, pois, este grupo etário é particularmente sensível e crítico à forma e ao ambiente em que se desenrola o atendimento. Assim, devem ser evitadas conversas laterais durante a consulta, bem como o uso de frases fechadas e impositivas de decisão unilateral ("vais ter de tomar isto duas vezes por dia durante 3 meses" poderá ser substituído por algo como "pensamos que este medicamento tomado durante um período mais prolongado vai controlar melhor os teus sintomas").


Preferir frases abertas e interrogativas do tipo "o que é que na tua doença te preocupa mais?"


Os adolescentes devem participar ativamente na escolha do melhor plano terapêutico, devendo o clínico estar preparado para "negociar" o tratamento. Devem também ser encorajados a consultar o médico sozinhos, o que demonstra respeito pela sua personalidade. Deve ser fornecida informação clara, simples e legível e os dias de consulta devem ser ajustados às dificuldades do adolescente. Considerar, por isso, preços, deslocações, faltas escolares, prática desportiva e faltas ao emprego.


Porque o adolescente com doença crónica apresenta maior risco e depressão, apoio psicológico ou psiquiátrico pode ser útil. Não devem também ser esquecidas outras comorbilidades frequentes, como a rinite e a asma induzida pelo exercício.


Por tudo o que fica dito, o profissional de saúde não necessita de ser um amigo do adolescente. "Basta que se mostre interessado no mundo dos adolescentes."


Herculano Costa, pediatra, responsável pela Unidade de Imunoalergologia e Pneumologia Pediátrica do Centro Hospitalar de Gaia/Espinho

 

Texto publicado na Edição Extra da revista Children's Medicine, junho 2013

 

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